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A construção da autoestima na era da validação digital

A psicóloga Cátia Silva deixa-lhe algumas estratégias para desenvolver uma relação mais consciente com as redes sociais.

As redes sociais fazem parte do nosso quotidiano. São um espaço onde nos informamos e inspiramos, ligamos aos outros e criamos oportunidades. Porém, há uma linha silenciosa que, quando ultrapassada, começa a ter impacto direto na saúde mental: o momento em que a validação externa passa a definir o valor interno.

Quando o nosso comportamento começa a girar em torno de likes, algo muda. Deixamos de agir com base no que sentimos ou valorizamos e passamos a orientar-nos pelo que gera aprovação. Esta é uma realidade próxima de todos – provavelmente, já deixou de publicar um story ou um post porque pensou que os outros não iriam gostar, ou ficou a ponderar durante um bom tempo se fazia, ou não, determinada publicação. Segundo a psicóloga Cátia Silva, este padrão não surge por acaso, está associado a mecanismos de recompensa imediata: “Cada notificação ativa sensações de prazer, que reforçam aquele comportamento. O cérebro aprende rapidamente a repetir aquilo que traz validação. O problema instala-se quando esta validação se torna necessária. Não desejada. Necessária”.

Cátia Silva, Psicóloga Clínica

Estudos associam o uso excessivo de redes sociais a níveis mais elevados de ansiedade e humor deprimido em jovens adultos, especialmente quando o uso é motivado por comparação social. Nestes casos, a autoestima torna-se instável, oscila ao ritmo das reações dos outros. Num dia, a pessoa sente-se valorizada, no outro duvida de si. Esta dependência fragiliza a perceção de valor pessoal, porque deixa de existir um critério interno sólido, e aquilo que a pessoa pensa de si própria passa a depender do que os outros confirmam.

Na prática clínica, a psicóloga revela que este padrão é cada vez mais comum: “Há pessoas que chegam à consulta sem saberem bem o que sentem, mas com a certeza de se sentirem sempre a menos. A comparação constante intensifica este processo. Os jovens adultos estão expostos, de forma contínua, a versões editadas da vida dos outros. Corpos, rotinas, relações, conquistas, tudo apresentado de forma filtrada e muitas vezes distante da realidade. O resultado é uma sensação persistente de inadequação. Como se nunca fosse suficiente” explica Cátia.

A médio e longo prazo, este padrão associa-se a sintomas de ansiedade, humor deprimido, irritabilidade e dificuldade em regular emoções. Não porque as redes sociais sejam “más”, mas porque a forma como são utilizadas cria um ambiente de exigência constante e irrealista.

Além destes sintomas, a especialista refere que há ainda dois impactos menos visíveis, mas igualmente importantes: o primeiro é a perda de identidade, quando a pessoa passa demasiado tempo a adaptar-se ao que gera aprovação, começa a afastar-se de si própria. Torna-se difícil perceber o que realmente gosta, o que pensa, o que quer; o segundo é a dificuldade em tolerar o silêncio, a necessidade constante de estímulo reduz a capacidade de estar consigo própria sem distrações, comprometendo o autoconhecimento.

A solução não passa por eliminar as redes sociais, mas sim por desenvolver uma relação mais consciente com as mesmas. Na opinião da psicóloga, estes cinco passos fazem toda a diferença:

  1. Questione a intenção antes de publicar: Não de forma crítica, mas honesta: “Estou a partilhar isto porque faz sentido para mim ou porque procuro aprovação?” Esta simples pergunta aumenta a consciência e reduz a reatividade.
  2. Distinga realidade de representação: O que aparece nas redes não é a vida completa de ninguém, é apenas uma seleção. Lembrar isto, de forma consistente, ajuda a reduzir a comparação automática.
  3. Defina janelas de tempo sem redes: O sistema nervoso também precisa de silêncio. Criar momentos do dia, sem contacto com redes sociais, diminui a dependência de estímulo constante e permite ao sistema nervoso recuperar.
  4. Invista em experiências fora do ecrã: Relações presenciais, atividades com significado pessoal, momentos de pausa. Tudo isto reforça uma identidade mais estável e menos dependente do olhar do outro.
  5. Trabalhe a autoestima como processo interno: A autoestima não se constrói em ecrãs, constrói-se na relação connosco. Isso implica desenvolver a capacidade de se validar, reconhecer emoções, aceitar imperfeições e construir um sentido de valor que não dependa de métricas externas.

O objetivo é que deixe de depender das redes sociais para saber quem se é. “Quando o seu valor fica nas mãos dos outros… vai estar sempre vulnerável a perdê-lo”, conclui a psicóloga.

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