Existe uma frase que atravessa gerações de mulheres como se fosse um selo de autenticidade: “Eu sou assim.” Às vezes vem acompanhada da banda sonora emocional da música da “Gabriela” — “eu nasci assim, eu cresci assim, vou ser sempre assim” — e há algo de sedutor nessa uniformidade identitária. Parece firmeza. Parece carácter. Parece até liberdade.
Ao longo dos anos em consultório, já ouvi inúmeras variações da mesma frase: “Eu sou assim.” Curiosamente, quase sempre dita com um misto de orgulho e exaustão.
Mas será?
Entre mudar de opinião e mudar de personalidade vai um abismo. Mudar de opinião é trocar de partido, de dieta ou de série favorita. Mudar de estrutura interna é abandonar defesas que nos salvaram um dia — e isso é infinitamente mais ameaçador. Porque não estamos a discutir gostos. Estamos a falar de mecanismos de sobrevivência.
Ainda assim, a ciência tem sido incómoda com a nossa narrativa fatalista. Um estudo conduzido pela University of Kentucky demonstrou que traços de personalidade podem ser modificados em poucas semanas, desde que exista intenção clara, método estruturado e prática consistente. Em termos simples: a personalidade é mais plástica do que gostamos de admitir. Não é uma sentença vitalícia. É um sistema adaptativo.
O problema é que plasticidade implica responsabilidade. Se podemos mudar, então permanecer igual deixa de ser destino e passa a ser escolha. E isso dói.
Dói porque mudar implica pequenos lutos. Algumas versões de nós precisam morrer para que outras possam nascer. E ninguém nos avisou que a liberdade exige funerais íntimos.
Alguns exemplos? A mulher que aprendeu a agradar para não ser abandonada. A que se tornou hipercompetente para nunca mais depender de ninguém. A que chama frieza ao seu medo de intimidade. A que chama intensidade à sua ansiedade de apego. A que chama força ao seu silêncio.
Não escrevo isto de um lugar neutro. Escrevo de quem já teve de podar versões internas que davam imenso jeito manter.
Cada uma dessas versões teve alguma função. Foram adaptações inteligentes a contextos emocionais específicos. A psicologia do desenvolvimento é clara: os traços não surgem no vazio. Eles emergem como respostas a ambientes, vínculos e experiências. Muitas mulheres desenvolveram hipervigilância porque cresceram em contextos imprevisíveis. Outras desenvolveram complacência porque aprenderam que conflito custava amor. Outras ainda cultivaram independência radical porque depender era perigoso.
Essas versões não são falhas. São estratégias.
Mas estratégias que um dia foram vitais podem tornar-se prisões invisíveis. E aqui começa o ponto sensível da liberdade feminina: não basta conquistar autonomia externa se continuamos emocionalmente condicionadas por roteiros antigos.
É possível ser financeiramente independente e afectivamente submissa.
É possível ser profissionalmente brilhante e emocionalmente auto-censurada.
É possível ter liberdade sexual e continuar prisioneira da validação masculina.
A cultura fala-nos muito sobre empoderamento. Mas raramente fala sobre desapego identitário. E é aí que a conversa fica menos glamourosa.
Porque mudar de personalidade — ou, sendo mais precisa, flexibilizar traços arraigados — implica atravessar desconforto real. O cérebro humano ama previsibilidade. Mesmo quando essa previsibilidade é infeliz. O conhecido, ainda que doloroso, oferece sensação de controlo. O novo, ainda que libertador, activa incerteza.
É por isso que tantas mulheres permanecem fiéis a versões que já não lhes servem. Não por falta de inteligência ou coragem, mas porque abandonar um padrão implica atravessar um vazio. E o vazio assusta.
Há algo profundamente perturbador em admitir: “Eu já não quero ser essa mulher.” Porque essa mulher construiu relacionamentos, reputação, identidade social. Foi elogiada por ser forte, resiliente, disponível, compreensiva, multitarefa, agregadora, “boazinha”…
E aqui reside uma das armadilhas mais sofisticadas da liberdade feminina: o elogio pode ser uma coleira dourada.
Quando a força se torna obrigação, a resiliência passa a ser silêncio. Quando a empatia vira auto-abandono, a maturidade é apenas supressão emocional. Muitas mulheres são recompensadas por tolerar mais do que deveriam. E isso cria uma identidade baseada na capacidade de aguentar.
Mas aguentar não é o mesmo que estar livre.
A verdadeira liberdade talvez comece quando deixamos de nos orgulhar daquilo que nos adoece. Quando paramos de romantizar a mulher que “dá conta de tudo”. Quando reconhecemos que dizer “eu sou assim” pode ser apenas uma forma elegante de evitar o risco de mudar.
Porque mudar implica desaprender. E desaprender é podar.
Mudar não é ‘instagramável’. Não tem filtros bonitos. Tem noites de dúvida, silêncios constrangedores e aquela sensação estranha de não saber exactamente quem se está a tornar. Já acompanhei mulheres que perderam relações ao mudarem. E, ainda assim, meses depois diziam: “Doeu. Mas eu voltei a respirar.”
As árvores não florescem mantendo todos os galhos. Elas precisam de cortes estratégicos. A poda não é violência. É inteligência biológica. Remove o excesso para permitir uma expansão saudável.
O mesmo acontece com a psique. Às vezes é preciso podar a necessidade compulsiva de agradar. Podar a tolerância a migalhas emocionais. Podar a narrativa de que “ninguém me ajuda, mas eu aguento”. Podar a crença de que ser escolhida é mais importante do que escolher.
Isso dói. Não porque seja errado. Mas porque mexe na nossa coerência interna. Existe uma espécie de fidelidade inconsciente às versões que fomos. Uma lealdade ao passado que, paradoxalmente, nos impede de avançar.
Só que a dor da mudança é aguda e transitória. A dor de permanecer igual é crónica e silenciosa.
Mudar pode significar perder algumas pessoas. Perder a imagem antiga. Perder a aprovação de quem preferia a nossa versão mais previsível. E isso toca numa ferida primitiva: o medo do abandono. Do ponto de vista psicológico, grande parte da resistência à mudança não é preguiça. É ”só” medo de exclusão.
Mas talvez a liberdade no feminino seja precisamente isto: tolerar o risco de não ser amada por ser autêntica.
A psicoterapia entra aqui não como promessa mágica de transformação instantânea, mas como espaço seguro para atravessar esses lutos identitários. Num processo terapêutico consistente, é possível identificar quais traços são expressão genuína e quais são adaptações defensivas. É possível compreender a função histórica de um padrão antes de tentar modificá-lo. E isso muda tudo. Porque ninguém muda bem aquilo que despreza. Mudamos melhor aquilo que compreendemos.
Em terapia, aprendemos que personalidade não é essa suposta essência fixa. É um conjunto de tendências moldadas por experiências, que podem ser flexibilizadas. Trabalha-se com intenção — definindo que traços queremos fortalecer, quais queremos suavizar. Trabalha-se com método — criando pequenas experiências comportamentais que desafiem o padrão antigo. Trabalha-se com prática — repetindo novos comportamentos até que o cérebro os integre como possíveis.
E, talvez mais importante, trabalha-se com compaixão. Porque abandonar uma versão antiga não é matá-la com violência. É agradecer-lhe por ter protegido e, depois, permitir que descanse.
Liberdade não é apenas ter opções externas. É ter plasticidade interna.
Talvez a pergunta mais honesta que possamos fazer não seja “Eu sou assim?”, mas “Eu continuo a querer ser assim?”
Se a resposta for não, há trabalho a fazer. E isso é uma boa notícia. Porque significa que estamos vivas. Em movimento. Em processo.
Algumas versões de nós precisam morrer. Não por fracasso. Mas por evolução.
E talvez a forma mais radical de liberdade feminina não seja provar que somos fortes — mas permitir-nos transformar.
Sara Ferreira

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