Existe um equívoco comum quando se fala em saúde: muitas pessoas continuam a tratar a boca como se estivesse separada do resto do corpo. Como se o médico dentista cuidasse de uma parte e o médico de família de outra. Esta visão está errada. A boca é uma verdadeira porta de entrada para o organismo e aquilo que acontece nela tem reflexos em todo o sistema.
Uma infeção que começa na cavidade oral, se não for controlada, pode afetar diferentes órgãos. Muitas vezes, essas infeções das gengivas e dos ossos de suporte são silenciosas: não dão sinais nem dores até serem bastante graves. Quando não tratadas, o aumento de bactérias nesta área pode permitir a sua passagem para a corrente sanguínea.
Uma vez na circulação, essas bactérias podem chegar ao coração e contribuir para a formação de placas de aterosclerose, aumentando o risco de AVC e de outras doenças cardiovasculares. Podem também dirigir-se ao sistema respiratório, onde aumentam o risco de infeções como faringites ou amigdalites. Em casos mais graves, são aspiradas para os pulmões e podem originar pneumonias, sobretudo em pessoas mais idosas ou com o sistema imunitário fragilizado.
O impacto não se fica pelo coração ou pelos pulmões. A inflamação crónica na boca pode dispersar-se pelo organismo e contribuir para o aparecimento ou agravamento de doenças autoimunes, como artrite reumatoide ou lúpus. Pode também dificultar o controlo do açúcar no sangue em pessoas com diabetes. Existem ainda estudos que associam estas infeções orais persistentes a um maior risco de demências, incluindo a doença de Alzheimer.
Segundo estudos recentes, uma saúde oral comprometida poderá igualmente estar na origem do cancro do pulmão, do pâncreas, da mama, da próstata, e da cabeça e do pescoço. Na verdade, inflamações crónicas orais, como é o caso da gengivite ou da periodontite, podem promover um ambiente propício ao desenvolvimento de células cancerígenas.
Os efeitos refletem-se ainda na estrutura física e em fases específicas da vida. O desalinhamento ou a ausência de dentes pode alterar a forma como fechamos a boca. Com isso, afeta a postura e tem impacto no pescoço, ombros, costas e coluna, aumentando o risco de lesões músculo-esqueléticas. Na gravidez, a saúde oral assume um papel crucial, uma vez que infeções não tratadas estão associadas a maior risco de parto prematuro, baixo peso à nascença e, por vezes, infeções respiratórias ou digestivas no recém-nascido.
A ligação entre a boca e o sistema digestivo é igualmente direta. Quando existe uma dentição comprometida os alimentos não são bem mastigados e a digestão torna-se menos eficiente, o que pode aumentar a acidez gástrica e agravar queixas como azia ou úlceras.
Existem ainda situações clínicas em que a saúde oral faz a diferença entre o sucesso e o fracasso de um tratamento médico complexo. Uma boca com infeções ativas aumenta o risco de complicações em transplantes de órgãos ou em próteses como anca ou joelho, assim como em válvulas cardíacas e outros dispositivos médicos, bem como durante tratamentos complexos como quimioterapia ou radioterapia, que podem mesmo ter que ser interrompidas antes do previsto pelo aparecimento de infeções orais não tratadas previamente. Por todas estas razões, cuidar dos dentes é, em parte, cuidar do corpo inteiro.
Perante este cenário, a prevenção é a palavra-chave. Manter uma higiene oral diária eficaz é o primeiro passo, sendo a escovagem correta e o uso de fio dentário gestos fundamentais. No entanto, isto não é suficiente. São necessárias consultas regulares com o médico dentista ou higienista oral, idealmente de seis em seis meses. Esta consultas permitem realizar uma higiene profissional e diagnosticar precocemente eventuais problemas, detetando infeções silenciosas antes que afetem outros órgãos, ou detetando precocemente lesões pré-cancerosas potencialmente graves.
Cuidar da saúde da boca é cuidar da saúde geral. É um investimento na longevidade e no bem-estar que vai muito além de preservar o sorriso. Trata-se de proteger o corpo de doenças que podem ser evitadas com cuidados simples e regulares. No fundo, a saúde começa na boca e é, muitas vezes, no consultório médico dentista que damos o primeiro passo para garantir uma vida mais saudável.
Pedro Cosme
Médico dentista na MALO CLINIC Lisboa
