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Ansiedade feminina: o peso silencioso da sobrecarga

Romantizada e frequentemente ignorada, a sobrecarga feminina está ligada ao aumento dos níveis de ansiedade. Em entrevista, a psicóloga Maria Klien explica por que motivo este fenómeno continua a ser desvalorizado.

Existe uma persistente romantização da capacidade das mulheres para acumularem múltiplos papéis: espera-se que sejam mães, amigas, filhas e profissionais exemplares. Esta sobrecarga, frequentemente admirada, esconde, na realidade, níveis significativos de sofrimento e ansiedade.

Em 2025, de acordo com a publicação “Estatísticas da Saúde” do Instituto Nacional de Estatística (INE), 39,4% da população com 16 ou mais anos apresentava sintomas de ansiedade generalizada e 11,3% níveis mais graves. Em ambos os casos, as mulheres são as mais afetadas quando comparadas com os homens.

Segundo Maria Klien, psicóloga especialista em ansiedade e autora do livro “Guia do Auto-Domínio”, a ansiedade feminina continua a ser frequentemente desvalorizada, sendo confundida com “traço de personalidade, excesso de sensibilidade ou incapacidade de lidar com a pressão”.

Mas o que está, afinal, por detrás desta realidade? De que forma se manifesta a ansiedade nas mulheres e porque continua tantas vezes invisível? Falámos com a especialista para compreender melhor este fenómeno e os seus impactos no dia a dia das mulheres.

Maria Klien, psicóloga especialista em ansiedade e autora do livro “Guia do Auto-Domínio”

O que ainda se entende mal sobre a ansiedade nas mulheres?

A ansiedade feminina ainda é muito confundida com traço de personalidade, excesso de sensibilidade ou incapacidade de lidar com a pressão. Muitas mulheres passam anos a ouvir que são “intensas”, “dramáticas” ou “controladoras”, quando, na verdade, estão a viver num estado contínuo de alerta. Existe também uma romantização do funcionamento feminino em sobrecarga. A mulher que dá conta de tudo raramente é vista como alguém em sofrimento. Costuma ser vista como admirável. Isso faz com que sinais importantes sejam ignorados até que o corpo e a mente já estejam em exaustão.

A ansiedade feminina é muitas vezes invisível porque continua a ser mascarada por eficiência?

Sim. Existe uma ansiedade que não paralisa. Ela produz. Organiza. Resolve problemas antecipadamente. Mantém agendas a funcionar, filhos cuidados, trabalho entregue e relações sustentadas. Essa mulher raramente recebe ajuda porque a sua dor não interrompe a produtividade. O sofrimento psíquico feminino muitas vezes é silencioso justamente porque ela continua a funcionar. Só que funcionar não significa estar bem.

Como é que a pressão para “conseguir fazer tudo ” alimenta o mal-estar mental?

Quando uma mulher acredita que precisa de sustentar todas as áreas da vida sem falhar, ela entra num estado de vigilância permanente. O corpo deixa de compreender o que é repouso. A mente passa a operar em constante antecipação. Existe um medo silencioso de decepcionar, perder valor ou ser vista como insuficiente. Aos poucos, a vida deixa de ser vivida com presença e passa a ser administrada como sobrevivência emocional.

A culpa é uma emoção muito presente na vida das mulheres. Que relação tem com a ansiedade?

A culpa alimenta estados contínuos de vigilância. Muitas mulheres sentem culpa quando descansam, quando dizem não, quando se escolhem a si mesmas, quando não correspondem a todas as expectativas. Isso produz uma tensão interna permanente. A ansiedade cresce justamente nesse lugar onde a mulher acredita que precisa de estar disponível o tempo inteiro para merecer amor, reconhecimento ou pertença.

 A que sinais, do nosso corpo, devemos estar atentas?

O corpo costuma avisar muito antes do colapso. Alterações no sono, tensão muscular, fadiga constante, dificuldade de concentração, irritabilidade, problemas gastrointestinais, sensação de aperto no peito, queda de cabelo, esquecimentos frequentes e necessidade de estar sempre ocupada podem ser alguns sinais. Muitas mulheres também relatam incapacidade de relaxar sem sentir culpa ou ansiedade quando finalmente param.

Porque é que temos tendência a normalizar estes sinais de desgaste emocional?

Porque muitas cresceram a aprender que cuidar de si vem depois. Há uma construção cultural que associa o valor feminino à capacidade de suportar, acolher, resolver e permanecer disponível para todos. Com o tempo, o cansaço deixa de ser percebido como um sinal de limite e passa a ser entendido como parte da identidade. Muitas mulheres só percebem o quanto estavam doentes quando já perderam a capacidade de descansar sem culpa.

Como começar a cuidar da saúde mental sem transformar isso numa nova exigência?

Talvez o primeiro passo seja abandonar a ideia de performance emocional. Cuidar da saúde mental não deveria transformar-se em mais uma meta de produtividade. Nem todo cuidado exige grandes mudanças. Às vezes começa em pequenos movimentos de escuta interna, descanso legítimo, redução de autoexigência e construção de limites. O cuidado real não nasce da cobrança. Nasce da permissão.

Que ferramentas práticas podem ajudar no dia a dia?

Criar pausas reais ao longo do dia, reduzir estímulos excessivos, observar padrões de pensamento, estabelecer limites mais claros, diminuir a hiperconectividade e reconstruir relação com o corpo são caminhos importantes. A terapia também pode ajudar a identificar padrões antigos de funcionamento emocional. Além disso, práticas simples, como respiração consciente, caminhadas sem distrações e momentos de silêncio têm impacto importante na regulação do sistema nervoso.

Como se aprende a pedir ajuda sem sentir que se está a falhar?

Muitas mulheres associam força à capacidade de suportar tudo sozinhas. Mas pedir ajuda não representa fracasso. Representa o reconhecimento da humanidade. Nenhuma pessoa deveria atravessar a vida inteira em estado de autossuficiência emocional. Aprender a pedir apoio passa por compreender que vulnerabilidade não diminui ninguém. Pelo contrário. Relações profundas só existem quando alguém consegue sair da posição de controlo absoluto.

O que é, para si, autonomia emocional?

Autonomia emocional não significa não precisar de ninguém. Significa conseguir reconhecer o que sente sem terceirizar completamente o próprio valor, estabilidade ou identidade. É desenvolver uma relação mais honesta consigo mesma, entendendo limites, necessidades, desejos e dores sem viver apenas em função da validação externa. Uma mulher emocionalmente autónoma não é uma mulher sem vulnerabilidade. É alguém que consegue existir com verdade.

O que diria a uma mulher que se sente sempre em alerta, mas acha que “não é assim tão grave”?

Diria que o sofrimento não precisa de chegar ao limite para merecer cuidado. Muitas mulheres esperam que o corpo entre em colapso para legitimarem a própria dor. Estar sempre em alerta não é um traço natural da personalidade. É um sinal de que algo dentro dessa mulher está a tentar sobreviver há tempo demais. Escutar isso antes da exaustão talvez seja uma das formas mais profundas de autocuidado.

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