“Aprendi imenso”: Rita Pereira estreia-se no Brasil com “Dona Beja”
A atriz portuguesa viveu seis meses intensos no Brasil para gravar Dona Beja, a nova novela brasileira da HBO Max. “Aprendi imenso”, confessa a atriz sobre um processo intensivo de preparação que incluiu workshops históricos e aulas práticas.
No início de fevereiro, estreou na plataforma de streaming HBO Max Dona Beja, uma novela brasileira que faz uma releitura contemporânea da produção criada por Wilson Aguiar Filho e exibida nos anos 1980, e conta com Grazi Massafera, David Júnior e André Luiz Miranda como protagonistas.
Grazi Massafera, David Júnior e André Luiz Miranda, os protagonistas de “Dona Beja”. Créditos: HBO Max
Inspirada na trajetória de Ana Jacinta de São José, uma das figuras mais emblemáticas da história de Minas Gerais, a novela revisita a personagem que desafiou as convenções sociais do seu tempo, tornando-se símbolo de desejo, poder e transgressão. Nesta releitura, amplia-se o olhar sobre temas como liberdade, protagonismo feminino e desigualdade social, colocando Beja no centro de conflitos políticos, afetivos e morais numa sociedade marcada por rigidez e opressão.
Rita Pereira faz parte do elenco de “Dona Beja”. Créditos HBO Max
Além do trio protagonista, a novela conta com um elenco de estrelas, entre elas encontramos Rita Pereira, que deu vida à personagem Siá Boa. Este foi o primeiro trabalho da atriz portuguesa no Brasil, experiência que afirma querer voltar a repetir.
Como surgiu o convite para integrar o elenco deDona Beja?
O convite foi feito da parte da produtora do projeto, com quem eu já tinha trabalhado anteriormente, um outro produtor com quem trabalhei em Portugal e um realizador português.
Na novela dá vida a Siá Boa. Para quem não se recorda, pode contar-nos mais sobre a sua personagem?
A Siá Boa é filha de um português e uma indígena. Nasceu no Brasil e foi levada em pequena para Portugal, mas aos 16 decide voltar para o Brasil à procura da sua mãe. Acaba por virar prostituta para sobreviver. É uma mulher inteligente, boa pessoa, ambiciosa, compreensiva, doce, alegre, que procura o amor e tem o sonho de casar.
Rita Pereira dá vida a Siá Boa em “Dona Beja”. Créditos HBO Max
Foi desafiante fazer este papel?
Só o simples facto de estar num país que não era o meu, com equipas que não me conheciam, com métodos de trabalho diferentes e outra forma de falar (apesar de ser português, é bastante distinto), já é um desafio. Depois vem o fator de ser um projeto de época, em que a linguagem é diferente, bem como os modos, as regras da sociedade e a conduta. Foi, sem dúvida, um grande desafio.
Como se preparou para interpretar a personagem? Fez parte do processo assistir a Dona Beija de 1986?
Não precisámos de assistir à novela porque a produção da HBO não se propõe a ser uma reconstrução ou reprodução literal da trama antiga, nem um retrato fiel ou documental do passado. Preparei-me como me preparo para qualquer nova personagem com a diferença de ser de época e ter em conta tudo o que isso acarreta. Mas foi tudo feito com muito mais tempo do que aquele que temos em Portugal. Além das habituais leituras em grupo com a direção de atores e preparadores, tive aulas de história do Brasil direcionada para a altura da Dona Beja, aulas de modos e costumes, aulas de costura, tricô, aulas de equitação, aulas de voz, aulas de fonoaudiologia, até um workshop com uma historiadora de Araxá (a terra da Beja) tivemos. Aprendi imenso. Foi maravilhoso.
Este foi o seu primeiro trabalho no Brasil?
Sim!
Como foi a experiência? Superou as expectativas?
Foi maravilhosa, superou as expectativas. Quero muito que se repita.
Rita Pereira em “Dona Beja”. Créditos HBO Max
Quais as principais diferenças entre filmar em Portugal e no Brasil?
Uma das grandes diferenças é, sem dúvida, a escala de investimento. No Brasil, há uma indústria audiovisual com uma dimensão muito grande, o que se reflete nos orçamentos, na tecnologia disponível e no tempo dedicado a cada detalhe. Isso permite uma produção mais ambiciosa.
Em Portugal, muitas vezes trabalhamos com menos recursos, mas com uma enorme criatividade e entrega, o que também tem um valor muito especial.
Como foi gravar ao lado de grandes nomes da televisão brasileira, como Grazi Massafera?
Foi o mesmo sentimento que trabalhar com grandes nomes da televisão portuguesa. O mais importante é o respeito e profissionalismo que temos uns pelos outros quando entramos em plateau.
O ator português Virgílio Castelo também integra elenco. Créditos: HBO Max
Quanto tempo esteve no Brasil em gravações?
Estive 6 meses.
Durante esse período foi difícil estar longe de casa, da sua família?
Claro que sim, foi bastante difícil mas geri bem pois estava ocupada a trabalhar e claro que as novas tecnologias ajudaram muito. Foram videochamadas todos os dias. Claro que existiram dias que me custaram mais, mas foi respirar fundo e relembrar-me porque é que estava ali.
Porque devem as pessoas ver Dona Beja?
As pessoas devem assistir à Dona Beja porque esta série vai muito além de uma história de época. Ela fala, de forma muito atual, sobre o poder de uma mulher que se recusa a ser silenciada, limitada ou definida pelos outros. A Dona Beja é uma personagem que transforma dor em força, preconceito em coragem e julgamento em autonomia. Ela vive num tempo em que as mulheres tinham pouquíssimo espaço de escolha e, ainda assim, decide ser dona da própria história. É uma narrativa sobre empoderamento feminino, sobre liberdade, sobre assumir quem se é, mesmo quando isso incomoda. E isso é profundamente contemporâneo. A série mostra que ser forte não é ser perfeita, é ser verdadeira. É ter voz, desejo, ambição e vulnerabilidade. Por isso, Dona Beja não fala só do passado, fala das mulheres de hoje e muitos outros temas atuais que merecem a nossa atenção.