O cancro colorretal é atualmente o tumor mais frequentemente diagnosticado em Portugal quando se consideram ambos os sexos (feminino e masculino) em conjunto, sendo também a segunda principal causa de morte por cancro no país. No contexto europeu, Portugal surge entre os países com maior incidência desta doença, e, a nível global, o cancro colorretal ocupa o terceiro lugar em número de casos e continua a ser uma das principais causas de mortalidade oncológica.
Particularmente alarmante tem sido o aumento de casos em pessoas com menos de 50 anos: estima‑se que cerca de 10% dos novos diagnósticos ocorram neste grupo etário, perspetivando‑se que, na próxima década, até um quarto dos casos de cancro do reto e cerca de 10 a 12% dos casos de cancro do cólon sejam detetados antes dos 50 anos. Nesta população mais jovem, a exclusão dos programas de rastreio, a desvalorização de queixas e a menor suspeita clínica contribuem para diagnósticos mais tardios e pior prognóstico.
Apesar de o programa de rastreio com pesquisa de sangue oculto nas fezes, seguida de colonoscopia quando indicada, estar disponível em Portugal desde 2009, as taxas de adesão continuam abaixo do desejável, em grande parte por falta de informação, dificuldades de acesso e constrangimentos na medicina preventiva nos cuidados de saúde primários. Ao mesmo tempo, sintomas como alterações persistentes dos hábitos intestinais, sangue nas fezes, anemia, fadiga, perda de peso ou dor abdominal são muitas vezes encarados como “banais”, atrasando a procura de ajuda médica.
Para aprofundar estes desafios e perceber o que está a ser feito, sobretudo no contexto do Mês de Sensibilização para o Cancro Colorretal, conversámos com Anabela Barros, diretora do Serviço de Oncologia do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC), que nos ajudou a compreender a realidade atual, as lacunas no rastreio e as prioridades na prevenção e diagnóstico precoce desta doença.
Anabela Barros, diretora do Serviço de Oncologia do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC)
O Cancro Colorretal é o mais frequente em Portugal em ambos os sexos e a segunda causa de morte por cancro; como comenta esta realidade comparada à média europeia e global?
A frequência do Cancro Colorretal em Portugal é de cerca de 10 000 a 11 000 novos casos por ano, o que corresponde a um aumento significativo que acreditamos resultar,pelo menos em parte, do diagnóstico associado ao programa de rastreio que tem vindo a ser implementado, progressivamente, a nível nacional. Ocupa o primeiro lugar quando consideramos os dois sexos em conjunto e o segundo lugar quando consideramos o sexo feminino, em que surge após o Cancro da Mama, e no sexo masculino, ultrapassado pelo Cancro da Próstata. Em relação à mortalidade, está em segundo lugar em relação às mortes por cancro em Portugal. Relativamente à Europa, estamos em sexto lugar em incidência (depois da Dinamarca, Noruega, Hungria, Países Baixos e Croácia) e estamos sensivelmente no mesmo lugar em termos de mortalidade. A nível global, o Cancro Colorretal situa-se em terceiro lugar a nível de incidência com uma distribuição muito heterogénea pelos vários continentes.
Preocupa-a o aumento significativo de casos em pessoas com menos de 50 anos? A que se deve este aumento?
Cerca de 10% dos novos casos de Cancro Colorretal são diagnosticados antes dos 50 anos, a maioria casos esporádicos, ou seja, não associados a risco familiar. Na próxima década estima-se que cerca de 25% dos casos de Cancro do Reto e 10-12% dos casos de Cancro do Cólon sejam diagnosticados antes dos 50 anos. As hipóteses explicativas deste fenómeno integram fatores genéticos, o estilo de vida, incluindo dieta e exercício físico, o uso de antibióticos, a obesidade, os síndromes metabólicos e a diabetes, o tabagismo e o consumo de álcool. Alguns destes fatores influenciam o microbioma intestinal, ou seja, o ecossistema de microrganismos com potencial para interferir com o sistema imunitário do indivíduo, influenciando a resposta imune antitumoral e aumentando a inflamação intestinal crónica, podendo, assim, promover a formação de tumores.
Assiste-se a um aumento da mortalidade neste grupo etário em parte porque estão excluídos do rastreio e, por outro lado, porque, não constituindo as idades de maior incidência da doença, os doentes não valorizam as queixas e os próprios clínicos não colocam esta hipótese diagnóstica.
O programa de rastreio com pesquisa de sangue oculto nas fezes existe desde 2009, mas as taxas de adesão são baixas; quais os principais obstáculos ao acesso e participação?
Na verdade, a pesquisa de sangue oculto nas fezes é muito simples de realizar, mas a baixa adesão ao programa deve-se, em parte, à falta de informação dos destinatários e, por outro lado, à realidade da prática clínica, em que os médicos de clínica geral e familiar enfrentam listas de doentes muito extensas e dispõem de tempo limitado para a medicina preventiva e os diferentes rastreios nacionais. Não esquecer, por outro lado, que há muitos doentes sem médico de família e, portanto, sem acesso a este rastreio.
A Sociedade Portuguesa de Gastroenterologia recomenda antecipar o rastreio para os 45 anos; nos CHUC, como está a ser implementada esta mudança e qual o impacto esperado?
A proposta de antecipar o rastreio para os 45 anos, que abrangerá apenas uma pequena parte da população de que falámos, já está a ser implementada em alguns países. No entanto, persistem desafios semelhantes aos observados na população mais idosa, nomeadamente no que diz respeito ao acesso aos exames de rastreio. Por outro lado, este grupo etário poderá ser particularmente sensível às iniciativas de sensibilização e divulgação que venham a ser desenvolvidas, o que poderá contribuir para aumentar a adesão da população aos programas de rastreio.
Que sintomas não devem ser ignorados?
Os principais sintomas incluem alteração dos hábitos intestinais – tanto no sentido da diarreia como da obstipação, às vezes alternância dos mesmos -, a presença de sangue nas fezes, a dor ou desconforto abdominal (por vezes tipo cólica), associada a distensão abdominal, perda de peso, falta de apetite e cansaço.
Como sensibilizar para não desvalorizar esses sintomas?
Penso que será fundamental divulgar esses mesmos sintomas e, na dúvida, procurar o médico. O conceito de “ficar à espera que passe” não é um bom método, sendo necessário, por parte da população, uma atitude mais proativa. Penso que, mesmo nos nossos dias, alguns doentes têm receio de más notícias e vão adiando a consulta com o seu médico.
No contexto do Mês de Sensibilização, que desafios persistem nas Unidade local de saúde (ULS) em referenciação atempada e recursos para colonoscopias?
Os doentes que chegam à Oncologia Médica, já após o diagnóstico, podem ter vários trajetos dentro da ULS: podem ser referenciados pelo respetivo médico assistente ao Serviço de Urgência ou à consulta de Cirurgia, já com a colonoscopia e biópsia realizadas; os doentes podem recorrer ao serviço de Urgência aquando de perdas de sangue nas fezes e, por vezes, fazem a colonoscopia esquerda no serviço de urgência; ou podem ser seguidos em consulta externa e, perante uma suspeita diagnóstica, o médico solicita a realização da colonoscopia. O tempo até à realização da colonoscopia é variável e, por vezes, o doente socorre-se do respetivo médico de família para realizar o exame no exterior de forma mais célere.
Que papel devem os médicos de família e a população assumir na adesão ao rastreio, para reduzir as mortes anuais em Portugal?
Os médicos de família deverão estar atentos aos doentes que cumprem critérios para o rastreio do Cancro Colorretal, solicitar a pesquisa de sangue oculto nas fezes e sensibilizar os seus utentes para a importância da sua realização e impacto no prognóstico no caso do diagnóstico da doença. Por seu lado, os doentes deverão ter a noção da importância de um diagnóstico precoce, que se associa a uma probabilidade de cura elevada, ao contrário das fases avançadas da doença, com tratamentos mais penosos e demorados, que se associam a sobrevivências significativamente mais baixas.
Além do rastreio, que fatores de risco devem ser priorizados na prevenção, especialmente em jovens?
Os fatores dietéticos mais referidos incluem a redução da ingestão de carnes vermelhas, sobretudo processadas, de refrigerantes com alto teor de açúcar, ou seja, o consumo de açúcares e cereais processados, privilegiar a ingestão de vegetais e frutos frescos e evitar o consumo de álcool. O tabagismo é outro fator envolvido que, à semelhança da dieta, tem muitas outras implicações na saúde da população, desde outras patologias oncológicas até às doenças cardiovasculares e diabetes, por exemplo.



