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“Cuide bem do seu coração”: Cardiologista alerta para os riscos da doença coronária

No sábado passado, 14 de fevereiro, assinalou-se o Dia Nacional do Doente Coronário. A propósito desta data, a LuxWoman esteve à conversa com a cardiologista Joana Rodrigues.

Em Portugal, a doença coronária continua a ser uma das principais causas de morbilidade e mortalidade. No passado dia 14 de fevereiro assinalou-se o Dia Nacional do Doente Coronário, uma data instituída pela Fundação Portuguesa de Cardiologia para alertar para a importância da prevenção e do controlo dos fatores de risco. Este ano, a Fundação lançou a campanha “55 é a sua linha vermelha”, que chama a atenção para um número que pode fazer a diferença: manter o colesterol LDL abaixo dos 55 mg/dL para reduzir o risco de novos eventos cardíacos em quem já teve um enfarte.

Para perceber melhor o que está em causa, e como é que este “55” pode mesmo salvar vidas, conversámos com Joana Rodrigues, cardiologista no Hospital de São João, no Porto, e membro da Direção da Sociedade Portuguesa de Aterosclerose, sobre sinais de alerta, risco cardiovascular e o papel desta campanha na literacia em saúde dos portugueses.

O que é a doença coronária?

É uma condição que afeta as artérias coronárias — responsáveis por levar sangue e oxigénio ao músculo cardíaco — onde estas ficam estreitadas ou bloqueadas, geralmente por uma acumulação de placas de gordura, processo designado de aterosclerose.

Joana Rodrigues, cardiologista no Hospital de São João e membro da Direção da Sociedade Portuguesa de Aterosclerose

Quais os principais sinais de alerta que as pessoas não devem ignorar?

Na doença coronária os sinais que não devem ser ignorados, pois podem indicar risco de enfarte agudo do miocárdio, são: dor ou sensação de pressão no peito, que pode surgir em repouso e geralmente agrava com os esforços, dor irradiada para o braço esquerdo (ou ambos), pescoço, mandíbula ou costas, podendo ser acompanhada de uma sensação de falta de ar, suores, náuseas ou vómitos. Uma atenção especial para as mulheres, pessoas diabéticas ou com idade mais avançada, que podem apresentar sintomas atípicos como cansaço ou apenas um leve desconforto no peito.

Quem está mais em risco de desenvolver esta doença e porquê?

As pessoas com maior probabilidade de desenvolverem doença coronária são aquelas que apresentam fatores de risco cardiovasculares, nomeadamente, pessoas com colesterol alto, uma vez que o excesso de LDL (“colesterol mau”) é responsável pela formação de placas de aterosclerose. Além disso, pessoas com pressão alta (hipertensão arterial), diabéticas, fumadoras, obesas ou sedentárias, são mais propensas à acumulação de placas de gordura nas artérias. Adicionalmente, pessoas com historial de doença coronária na família (fatores genéticos), homens com mais de 55 anos e mulheres após a menopausa também estão em maior risco de desenvolver esta doença pelo envelhecimento da parede arterial e queda dos estrogénios nas mulheres após a menopausa, que tem efeito protetor cardiovascular, respetivamente.

Qual o impacto do colesterol LDL no risco cardiovascular?

O colesterol LDL (lipoproteína de baixa densidade) é conhecido como “colesterol mau” porque é o principal responsável pela formação das placas de aterosclerose nas artérias — incluindo as coronárias. O LDL penetra na parede das artérias, onde sofre uma série de transformações que levam, com o tempo, à obstrução das artérias. Quando uma placa se rompe, forma-se um coágulo de sangue e uma oclusão aguda das artérias, responsável pelo enfarte agudo do miocárdio. Este pode apresentar-se tipicamente com a dor forte no peito, mas a primeira manifestação desta doença pode ser a morte súbita.

Existe uma relação direta entre o valor de LDL e o risco de doença coronária aterosclerótica, sendo que quanto mais alto o LDL, maior o risco, e quanto mais tempo ele permanece elevado, maior a probabilidade de doença, sendo o risco progressivo.

Por que razão o devemos controlar rigorosamente, especialmente após um evento coronário?

A razão pela qual devemos controlar rigorosamente o colesterol LDL após um evento coronário, prende-se com o facto de a pessoa já ter doença aterosclerótica estabelecida, o que significa que o risco de recorrência de eventos é mais elevado. Assim, as diretrizes nacionais e internacionais recomendam um valor de LDL quanto mais baixo melhor, mas sempre inferior a 55 mg/dL.

O que mudou nos últimos anos e como é feito o diagnóstico da doença coronária? 

Para o diagnóstico de doença coronária, temos tido ferramentas de imagem cada vez mais precisas na deteção das placas de gordura, permitindo fazer o diagnóstico numa fase mais precoce da doença, idealmente quando o vaso ainda não se encontra ocluído (doença sub-clínica), permitindo iniciar e intensificar medidas de controlo agressivas dos fatores de risco cardiovasculares, sobretudo do colesterol LDL. São exemplos o Score de cálcio, o Angio-TAC das coronárias e a ressonância magnética cardíaca de perfusão.

E o tratamento?

Para o tratamento da doença coronária, o enfoque atual centra-se na otimização do controlo dos fatores de risco cardiovasculares, nomeadamente, na redução de colesterol LDL para o qual existem terapêuticas cada vez mais eficazes nessa redução, para além das tradicionais estatinas que continuam a ser o pilar de tratamento na redução do LDL. Igualmente importante, no tratamento de um evento agudo, temos também terapêuticas antitrombóticas (para tornar o sangue mais “fluido”) mais eficientes e stents com tecnologia que reduz a probabilidade de oclusão.

Como podem os doentes coronários viver melhor e com mais qualidade de vida após um evento cardíaco?

Viver melhor após um evento cardíaco é possível — e hoje sabemos que muitos doentes coronários conseguem ter uma vida ativa, produtiva e com boa qualidade, desde que adotem uma estratégia consistente de prevenção secundária. Essa estratégia assenta em pilares fundamentais como: cumprimento rigoroso da medicação, participar em programas de reabilitação cardíaca, alcançar as metas de controlo dos fatores de risco vasculares, ter uma alimentação saudável, praticar regularmente exercício físico, deixar de fumar (se aplicável) e cuidar da saúde mental

O que é a “55 é a sua linha vermelha” da Fundação Portuguesa de Cardiologia? Como é que ajuda os portugueses a avaliarem o seu risco?

A campanha “55 é a sua linha vermelha”, promovida pela Fundação Portuguesa de Cardiologia (FPC) em Portugal, é uma iniciativa de consciencialização e educação em saúde que tem por objetivo ajudar as pessoas — em especial quem já sofreu um evento cardiovascular — a avaliar o seu risco e a gerir melhor os fatores de risco, sobretudo o colesterol LDL. Sendo que a expressão “55” refere-se ao valor de 55 mg/dL de colesterol LDL. Para pessoas que já tiveram um enfarte agudo do miocárdio ou outro episódio vascular grave, manter o colesterol LDL sempre abaixo desse valor é considerado essencial para reduzir o risco de um novo evento cardiovascular.

É importante salientar que não se trata apenas de um valor numérico, ele traduz as recomendações de diretrizes clínicas europeias que estabelecem metas agressivas de redução de colesterol LDL para quem tem risco cardiovascular muito elevado, como um sinónimo de redução do risco de recorrência de eventos cardiovasculares. Trata-se assim de uma “linha vermelha” para orientar as pessoas sobre o objetivo terapêutico que deve ser perseguido, especialmente na prevenção secundária (depois de já ter ocorrido um problema cardíaco).

Esta campanha ajuda as pessoas a compreenderem o seu risco cardiovascular e a interpretar o seu valor de LDL (ou seja, se estão acima ou abaixo da linha vermelha), sensibilizando-as para a importância da redução do LDL, sobretudo em contextos de prevenção secundária (após um enfarte).

Que conselhos dá à população para participar nesta campanha e melhorar a literacia sobre saúde cardiovascular?

Para participar ativamente na campanha “55 é a sua linha vermelha” da Fundação Portuguesa de Cardiologia e melhorar a literacia em saúde cardiovascular, as pessoas podem aceder ao site da iniciativa em www.55linhavermelha.pt. É necessário preencher um questionário simples para avaliar o risco cardiovascular e introduzir os valores de colesterol LDL. Esta iniciativa incentiva a realização de análises ao colesterol LDL e não apenas “colesterol total”, e tem ao dispor um conjunto de materiais educativos para uma melhor compreensão do risco cardiovascular, envolvendo o doente no processo de decisão e atuação na gestão do seu risco.

As ferramentas disponibilizadas assentam numa informação credível, para que as pessoas que já sofreram de um enfarte ou de outro evento cardiovascular sejam motivadas a assumir um papel ativo na prevenção a longo prazo. A melhoria da literacia cardiovascular também salva-vidas na medida em que transforma números em boas práticas.

A propósito do Dia Nacional do Doente Coronário, assinalado no dia 14 de fevereiro, que mensagem importa transmitir?

No Dia Nacional do Doente Coronário, a principal mensagem que gostaria de transmitir é que a doença coronária continua a ser uma das principais causas de morbilidade e mortalidade em Portugal. Contudo, sabemos hoje que uma parte significativa destes eventos pode ser prevenida através do controlo rigoroso dos fatores de risco e da adoção de estilos de vida saudáveis.

Este dia não deve ser apenas simbólico, deve ser um momento de responsabilização, prevenção e de compromisso. Compromisso com a prevenção, através do conhecimento dos principais fatores de risco, como o colesterol LDL, a pressão arterial e a glicemia. Compromisso com a adesão terapêutica, especialmente para quem já sofreu um evento coronário, e compromisso com a promoção de literacia em saúde cardiovascular junto de todos os portugueses.

A evidência científica é clara e mostra-nos que controlar de forma adequada o colesterol, manter a pressão arterial dentro dos valores recomendados, não fumar, praticar atividade física regular e adotar uma alimentação equilibrada reduz significativamente o risco de novos eventos cardíacos e melhora a qualidade de vida. Conhecer o risco cardiovascular de cada um através dos seus números é o primeiro passo para proteger o seu coração.

Para que não haja nenhum batimento perdido, cuide bem do seu coração.

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