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“Este álbum é sobre a minha transformação”: Matilda entregou-se “De Corpo Inteiro”

A artista portuguesa lançou na semana passada, 22 de maio, o seu álbum de estreia. Numa viagem pela sua transformação, “De Corpo Inteiro” nasce de verdade, maturidade e sensibilidade, onde nos deixa entrar no seu quarto e nos mostra o seu lado mais vulnerável.

Rodeada de música e de arte, começou desde cedo a subir aos palcos, ao lado da irmã mais velha e do avô, o fadista Carlos do Carmo. Cheia de sonhos, decidiu que, antes de se dedicar a cem por cento à música, queria experimentar o jornalismo, movida pelo gosto pela escrita e pelo interesse por áreas como a política. Ainda assim, a música falou sempre mais alto e tornou-se inevitável entregar-se de corpo e alma a esta paixão.

Na semana passada, lançou o seu álbum de estreia, no qual nos conduz por uma viagem de transformação pessoal, que, segundo a própria, só foi possível graças ao seu percurso. Em “De Corpo Inteiro”, Matilda entrega-se por completo e revela ao público o seu lado mais vulnerável, convidando-o a sentir-se igualmente livre para ser quem é. Entre homenagens a quem já partiu e desabafos íntimos, o novo disco afirma-se como um convite à descoberta da artista.

Hoje, apresenta-o ao vivo, pela primeira vez, no Gracinha, em Lisboa. O concerto começa às 18h30 e a entrada é gratuita.

Matilda em entrevista

Cresceu rodeada de música e arte, para si foi natural enveredar pela área da música? 

Apesar de ter crescido rodeada de música e de artistas, sinto que, quando és chamada para o teu talento, é inevitável. Portanto, acho que, desde miúda, sentia que queria cantar, apesar de não ter experiência nenhuma. Só queria ir para o palco. Adorava o palco, adorava as câmaras e, aliás, achava que também ia ser atriz. Gosto muito de escrever, mesmo muito. Desde miúda que escrevo poemas. A música chamou sempre por mim. Em casa também, claro, e tenho uma grande sorte, porque podia vivê-la ainda mais intensamente. Quando tinha 13/14 anos, comecei a fazer concertos em discotecas com a minha irmã, que toca guitarra muito bem. Foi uma altura incrível. Nem sequer tinha idade para ir às discotecas, portanto ia lá cantar e depois ia-me embora. [risos] Acho que evoluí muito como artista. E, antes, já tinha cantado com o meu avô no Cruzeiro do Fado; aliás, fui cantar sozinha e ele chamou-me. Depois houve uma fase em que tinha de decidir se estava pronta para fazer isto ou não, ou se queria estudar, e o jornalismo chamou por mim. Acho que queria só ter a certeza de que estava tudo feito para poder vir fazer música com verdade, com honestidade e com maturidade.

O afastamento de que fala, dá-se após ter conseguido a bolsa na Berklee College of Music, em Boston?

Tive a bolsa, mas foi para um curso de dois meses. Estive lá a fazer um curso de verão, que concluí. Mas, em vez de ficar lá — fui convidada a ficar mais tempo —, como tinha entrado na universidade, voltei. Não me arrependo; o meu avô também estudou até aos 25 anos, hotelaria, e eu queria muito ter a certeza de que estava com os pés no chão e de que só fazia isto porque sabia quem era. Acho que o meu álbum é mesmo isso. Traduz a minha maturidade, a minha honestidade e a minha verdade. E acho que, se não tivesse tomado esta decisão, o álbum não seria este. Estudei em Londres. Ainda fui para Nova Iorque fazer um curso de teatro e estive um ano na Grécia a trabalhar num campo de refugiados. Foi nesse ano na Grécia que só escrevia, cantava e tomei a decisão de vir fazer música. Ao mesmo tempo, voltei para o jornalismo, mas comecei a trabalhar no meu álbum, até que me dediquei a cem por cento.

Estava a conciliar as duas coisas? Nunca deixou realmente a música?

Não, nunca deixei a música de lado. Mas afastei-me muito dos palcos e acho que se evolui muito enquanto artista quando damos a conhecer ao público aquilo que fazemos. E, portanto, sinto que só quando deixei o jornalismo é que voltei a agarrar isto de corpo inteiro e a assumir realmente as minhas vulnerabilidades e aquilo que sinto, conseguindo escrever e fazer música com toda a verdade e da forma certa.

Houve um momento concreto em que percebeu “tenho mesmo de voltar”?

Acho que sempre senti que era a música. Só que sou uma pessoa cheia de sonhos — acho que somos todos. E eu tinha esta ideia de que queria ser jornalista, mais precisamente pivô. Além disso, também sou muito realista em relação às artes, porque cresci rodeada de artistas. E, portanto, queria ter a certeza de que não ia duvidar de mim própria quando estivesse a fazer isto. Queria ter a certeza de que tinha experimentado tudo e de que os meus sonhos estavam para trás. E sinto, como já disse, que o meu álbum vem de um lugar a que nunca teria chegado se não tivesse passado por tudo o que passei. Acho que o meu álbum vem mesmo da minha verdade e das minhas experiências.

Tudo tem um propósito, não é verdade?

Eu também acho. Muita gente pergunta se me arrependo, mas não me arrependo de nada. Acho que evoluí muito como pessoa e estou feliz por fazer música de forma honesta e com o coração. Este álbum é um diário da minha vida; é como se estivesse no meu quarto a ver-me escrever as minhas tristezas, as minhas felicidades, tudo… Acho que não teria esta maturidade há 10 anos.

Como foi expor essa vulnerabilidade? 

Antes de fazer este álbum, achava que era difícil expor-me assim. Porque, durante muitos anos, tive a tendência — que acho que muitas pessoas têm — de esconder certas partes de mim, de diminuir emocionalmente, para caber nos padrões. E acho que este álbum me obrigou a olhar para mim com mais verdade. Tenho músicas vulneráveis e isso assusta sempre um bocadinho. Mas, ao mesmo tempo, sinto que é a primeira vez que faço música exatamente como quero e completamente como sou.

Alguma vez sentiu pressão por ser neta de Carlos do Carmo? 

Tenho muito respeito e muita admiração e uma herança inacreditável. Tenho muito orgulho no legado do meu avô. É impossível separar a música da minha história familiar, mas, ao mesmo tempo, sinto que encontrei a minha própria linguagem, o meu próprio espaço. Sinto que só podia fazer isto agora, porque não sinto que esteja no mesmo universo que ele, nem me atreveria a estar. Tenho muito orgulho nele; era o meu melhor amigo e acho que estaria orgulhoso do que estou a fazer, porque o que ele queria era que eu fizesse um projeto que nascesse de quem sou enquanto mulher e artista.

Lançou no dia 22 de maio “De Corpo Inteiro”, o seu álbum de estreia. Porquê agora? Este era o momento certo?

Porque finalmente senti que precisava e que tinha algo verdadeiro para dizer. Durante muito tempo, como disse, vivi muito para os outros, para corresponder às expectativas, e não sabia bem quem era. Hoje sinto-me muito mais consciente de mim própria. E, portanto, não vejo isto como tarde; vejo como o momento certo e acho que este álbum não existiria da mesma forma se tivesse sido feito há dez anos.

Como foi selecionar as músicas que iriam entrar no álbum? Foi um processo complicado?

Não foi muito difícil. Acho que este processo todo, para mim, foi terapêutico. E, portanto, se ouvirem o álbum do início ao fim, as pessoas vão sentir a minha transformação e que cada música que fazia me fazia evoluir para a próxima. E, portanto, não tive de excluir músicas. As que não entraram, na verdade, para mim nunca foram uma opção. Foi muito fácil escolher as músicas e a ordem pela qual as ia colocar. Acho que as pessoas me vão conhecer melhor ao ouvir.

Quais são as suas músicas favoritas do álbum? Porquê?

Todas têm um lugar especial. E acho que há fases em que estou mais próxima de umas e agora de outras. Mas a mais difícil de escrever, porque isso tem um impacto claro, foi talvez “Espelho”. Foi uma carta que escrevi para mim. Peguei no que já tinha escrito e fiz a música. Fala muito sobre a autoestima, as falhas e a aceitação. Acho que a mais divertida talvez seja “Fama e Proveito”, porque tem muita atitude. Surge no fim do álbum, onde já pudemos ver a minha transformação. “O Mar nos Meus Olhos” e “Recado” são duas músicas de que gosto muito, pois são homenagens a pessoas de quem gosto muito. A primeira foi uma homenagem à minha avó. Ela era professora de Português e, desde sempre, nos lia o poema “Mar nos Meus Olhos”, de Sophia de Mello Breyner Andresen. Inspirei-me nisso e escrevi esta música sem perceber que é um tema muito maior do que eu. Nasceu da necessidade de lembrar a coisa mais importante, que é a liberdade. “Recado” é uma homenagem a dois melhores amigos que perdi quando era muito nova. E, no fundo, escrevi e cantei para eles.

Quando compõe, inspira-se nas suas vivências? Utiliza a música para poder desabafar?

Sim. Acho que, até agora, é só sobre desabafos. Gostava de não dar tanto da minha vida. Admito que me comecei a assustar quando dei por mim a escrever um poema profundo sobre os meus sentimentos. Mas, quando a música chama por ti, tu não controlas. E sinto muito que aquilo que sou como artista é quem eu sou.

De onde surge o título “De Corpo Inteiro”?

Eu não tinha o nome “De Corpo Inteiro”. Tinha muitas palavras próximas e tinha a ideia do que queria dizer. Coincidência ou não, a última música que fiz, “Mulher de Corpo Inteiro”, acabou por dar o nome ao álbum. Quando acabámos de escrever a letra, ficou logo decidido.

O que gostava que as pessoas retirassem deste álbum?

Gostava que as pessoas sentissem liberdade para existir exatamente como são, sem pedir desculpa por sentir demasiado, por amar demasiado ou por serem demasiado. Quero que, quando acabem de ouvir o álbum, sintam alguma transformação emocional, que foi o que senti. Este álbum é sobre a minha transformação e gostava que as pessoas se sentissem livres para se poderem transformar também.

Num futuro, com quem gostava de colaborar?

Sou muito fã de hip hop. Portanto, o meu sonho seria fazer uma música com o Sam The Kid, com o Ivandro, com a Nenny e com o Slow J. Gostava imenso.

Que sonhos estão por concretizar nos próximos anos?

Se eu fizer uma pessoa, durante uma hora, esquecer-se dos seus problemas, isso já é um sonho realizado. Faço música para tentar dar aos outros o que sinto.

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