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Eu sabia como ser uma mãe exemplar até nascer a minha primeira filha

Num mundo fóbico das emoções e voltado para questões externas aos seres humanos, é preciso conscientemente assumir as faltas e as dores que nos impedem, muitas vezes, de ter mais conexão e empatia com as mães e com os filhos.

Gerar, parir, criar, maternar. Ser mãe pode ser lindo e maravilhoso mas também é solitário, intenso, difícil e é para sempre. Eu sei disto, eu escuto isto, apesar de ser um tema tabu, como tudo o que é o “lado B” da vida, que geralmente não passa nos anúncios ou nas conversas do dia-a-dia, mas que, nas entranhas, é tão real.

Não há uma recém-mamã que eu não atenda que, de uma forma ou de outra, não esteja a viver o seu maior paradoxo existencial: amar ser mãe e ao mesmo tempo, só pensar “o que é que eu fiz com à minha vida?”.

Quando a minha primeira filha nasceu, lembro-me que o meu mundo virou de cabeça para baixo. Durante a gravidez, muitas coisas já haviam mudado, como o meu sentido de responsabilidade e de prioridade, mas a tempestade emocional e o buraco que se abriu dentro do meu peito, só apareceram efetivamente, depois dela nascer. Já se passaram cinco anos desde esse período extremamente frágil e turbulento e eu “esqueci” muito do que vivi naquela época (dizem que esquecemos para podermos ter outro filho), mas ainda me lembro de momentos de puro desespero, onde o meu único desejo era fugir dali.

Se, por um lado, algumas mulheres sonham desde criança em serem mães, por outro, a maior parte nunca se imaginou nesse papel até se tornar uma. E muito menos sabem (diferente de “saber”) o que é isso até o experienciar realmente (na pele, nos ossos, na carne e na alma). Sim, o amor de ser mãe coabita perfeitamente com a dureza desta função, especialmente, nos primeiros meses do período após o parto e puerpério. Se há a maternidade idealizada, perfeita e incrível, ela está na cabeça de todos aqueles que, ao invés de escolher apoiar uma mãe (também ela) recém-parida, decidem julgá-la, cobrá-la, compará-la, pressioná-la, hostilizá-la. Numa palavra: fragilizá-la… ainda mais.

Há uma estrutura sócio-cultural adoecedora para as mulheres, e para as mães, em particular, que desde há muito imputa ao exercício da (real) maternidade pesos desmedidos, sacrifícios e sevícias que submetem, com demasiada frequência, as mães a um constante escrutínio (público ou privado) das suas práticas maternais. Talvez sem esta estrutura, muitas mulheres não se sentissem tão sozinhas e sobrecarregadas; sendo cobradas, por um lado, mas negligenciadas e invisibilizadas por outro.

Por exemplo, em pleno 2022, quando é que podemos deixar de perguntar à mãe se o seu bebé de 3 meses (?!) já dorme a noite inteira? Afinal de contas, ela é a maior interessada em que isso aconteça, mas a pergunta em tom de julgamento, cobrança ou correcção não vai ajudar.

As mães, nesta fase, precisam de se adaptar uma nova “linguagem”, a uma nova rotina, precisam de desacelerar o seu tempo e passar a colocar-se dentro do tempo de uma outra pessoa, o bebé.

E o que é que as pessoas próximas podem fazer (mas frequente e infelizmente não fazem) diante dessa alteração de humor? Compreensão e atenção (dois bens raros à escala planetária).

A família podia ajudar sendo compreensiva e não criando expectativas como os media, por exemplo, criam em cima dessa mãe. Afinal, e em boa verdade, o que ela menos sente nesse momento é plenitude, candidez e completude! Sente-se incompleta, pois ela acabou de perder uma barriga! Ela perdeu o seu corpo de antes! Ela perdeu uma parte da sua anterior identidade e tem de se reajustar a uma totalmente nova (e desconhecida)! Empatia, atenção e compreensão são as palavras-chave para este momento.

No entanto, “olha que devias deixá-lo mais no berço”, “olha que colo a mais só faz mal”, “olha que tens de voltar a trabalhar”, “olha que só ficar em casa a cuidar dele parece mal”, “olha que tens de o desmamar”, “olha que se não amamentares não estás a ser boa”, “olha que em primeiro lugar vem a criança”, “olha que se não tomas banho nem cuidas de ti és uma desmazelada”, enfim, olha-que-tudo-isto-e-mais-um-par-de-botas para que no final do dia regresses à sensação do costume: “não és boa o suficiente, estás a falhar em alguma medida”.

Por perceber o sofrimento latente e frequente de tantas mulheres, escrevo sobre as dores e as feridas que se abrem quando nos tornamos mães. Trago assim a reflexão à tona para falar sobre o acolhimento a estas mulheres. Não, não estou a pedir para tratarmos as mães como malucas, psicopatas, que irão atirar os seus filhos pela janela. Estou aqui apenas para pedir mais respeito, compreensão e acolhimento naquela que é, quiçá, a experiência mais marcante e delicada na vida de uma mulher. Mães que entre mamadas e trocas de fraldas, não encontram tempo para entender tudo o que estão a sentir e, pior, ainda são cobradas para estarem “só” agradecidas, pacatas e permanentemente sorridentes.

As pessoas em geral necessitariam entender que quando nasce um bebé, também nasce uma mãe. Eu, por exemplo, com a chegada dos meus pequeninos, deixei de ser somente a Sara para me transformar na Mãe da B. e do D. (e é esse “mãe” o “nome” que nos ocorre à mente quando perguntamos por “nós”). É claro que ninguém nos prepara para isso, nem mesmo os cursos mais avançados de pós-parto ou parentalidade. E mesmo a quantidade absurda de livros que podemos ler sobre o tema pouco nos dizem *de facto* sobre como é isto de ser (ou melhor, tornar-se) uma mãe (real).

A maternidade chega e começam as verdadeiras mudanças, o que pode ser muito difícil. Muitas mulheres referem sentir-se absolutamente diferentes do que eram antes. E a vida nunca mais é a mesma. Não só ficamos cansadas como, por vezes, desorientadas, e algumas de nós podem entrar num profundo quadro depressivo.

O título que escolhi para este texto faz referência à forma como se esquece que, antes de tudo, mães são seres humanos. Percebo que, talvez como uma maneira de “reconhecer” todo o potencial de uma mãe, as mesmas são elevadas ao patamar de santas ou heroínas. Imortais, incansáveis e inesgotáveis. Só que esse reconhecimento, como muito do que acontece com os “reconhecimentos” à força da mulher, acaba por funcionar como uma sobrecarga, como ainda mais cobrança.

Repito, as mães são seres humanos! Possuem limites, erram, chegam à exaustão, sentem vontade de desaparecer, choram no banho… Na grande maioria das vezes, essas mulheres/mães fortes, que todo(a)s conhecemos, só deram conta (não sem sacrificarem alguns dos seus próprios sonhos, podem ter a certeza) porque não tiveram alternativa.

Para as mulheres que estão a passar por este momento, aviso que ainda não encontrei a fórmula mágica que faça evaporar toda a angústia ou que feche o buraco que parece abrir-se por dentro quando nos tornamos mães. Não vim aqui na intenção de ser uma ‘guru’ do puerpério e nem acho que existe uma preparação capaz de evitar que as mães passem pelas crises existenciais típicas após o nascimento dos filhos.

Porém, como alguém que já viveu tudo isto há cinco anos, posso dizer que toda essa controvérsia emocional (sentida, particularmente, nos primeiros meses do bebé), passa. Sim, passa, caso essa angústia esteja somente relacionada com a exaustão física e emocional causada pela maternidade. Ressalvo que se estivermos a falar da exaustão no contexto de uma depressão clínica ou depressão pós-parto, trata-se de um transtorno sério, importante, que deve ser tratado como tal, por isso deve ser procurada ajuda de um profissional para a ultrapassar.

Eu costumo dizer que, todos os dias, consigo ver beleza nas crises, seja por conta do meu trabalho, seja na minha vida pessoal. E o que é que eu faço com isso? Tento aproveitar toda a enxurrada de dor e desafios para evoluir, transcender e aprender um pouco mais sobre mim mesma, sobre a vida e sobre as pessoas. Muitas vezes, a maternidade traz à tona muitas das nossas feridas de infância e sombras mais escondidas (e silenciadas), portanto, nada mais proveitoso do que procurar, na medida do possível, trabalhar as questões que surgirem durante o processo.

Por isso, aqui peço, novamente, para que acolhamos mais e opinemos/julguemos menos as mães que estão a passar por uma fase difícil, ou de uma maneira geral. Só quem está dentro da situação sabe o que aguenta fazer e o que dá conta de elaborar.

Diante de uma mãe fragilizada, emocionalmente estropiada e exausta, não ofereça opiniões ou conselhos, ofereça uma mão para ajudar ou dois braços para abraçar.

E para as mães que, assim como eu, de uma maneira ou de outra (ainda) estão a passar pela crise existencial desta fase de adaptação da dinâmica familiar, deixo a minha solidariedade, a minha sororidade, e um pedido para que nós nos culpemos menos e entendamos que demos, damos e sempre daremos o nosso melhor. O possível. Que é o suficiente.

Sara Ferreira

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