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Hepatologistas alertam para os riscos do “Desafio do Paracetamol”

A Associação Portuguesa para o Estudo do Fígado (APEF) alerta para os perigos do “Desafio do Paracetamol”, que incentiva crianças e adolescentes a ingerir este medicamento até não aguentarem mais.

Chama-se “Desafio do Paracetamol” e tem colocado vários países da Europa – incluindo Portugal – em alerta. O desafio, que circula nas redes sociais, em particular no TikTok, incentiva crianças e adolescentes a ingerir deliberadamente doses tóxicas deste medicamento. 

Nas últimas semanas, as autoridades sanitárias de diversos países europeus têm vindo a emitir alertas urgentes. Em Espanha, o Hospital Materno-Infantil de Málaga reportou a admissão de vários adolescentes entre os 11 e os 14 anos com quadros de intoxicação grave por paracetamol. Em França, a Agência Nacional de Segurança do Medicamento (ANSM) emitiu um alerta formal aos profissionais de saúde e aos pais, recordando que a sobredosagem de paracetamol é a primeira causa de transplante hepático de origem medicamentosa naquele país. Na Alemanha, o Ministério da Saúde declarou estar a acompanhar a situação com grande preocupação. A Bélgica, a Suíça e a Eslovénia emitiram igualmente comunicados conjuntos alertando para esta tendência perigosa. No Reino Unido, onde já existem restrições à venda de paracetamol sem receita, foram reportados casos de jovens entre os 15 e os 17 anos hospitalizados após participarem neste tipo de desafio. Nos Estados Unidos, registou-se a morte trágica de um adolescente de 13 anos em 2023 na sequência de um desafio semelhante.

De acordo com Mónica Sousa, membro da direção da Associação Portuguesa para o Estudo do Fígado (APEF), “os profissionais na área do transplante hepático testemunham diariamente consequências devastadoras da insuficiência hepática aguda (destruição do fígado irreversível), provocada por vários motivos. O que para muitos jovens pode parecer uma brincadeira inofensiva pode, em poucas horas, transformar-se numa emergência médica com desfecho fatal ou na necessidade de um transplante de fígado”.

A especialista alerta para a gravidade deste fenómeno: “O paracetamol, embora seguro nas doses recomendadas, possui uma margem terapêutica estreita. Uma sobredosagem pode provocar lesões hepáticas graves, irreversíveis e potencialmente fatais”.

Mónica Sousa, membro da direção da Associação Portuguesa para o Estudo do Fígado (APEF)

Os sintomas iniciais, como náuseas ou dor abdominal, são muitas vezes ligeiros ou inexistentes. “Esta ausência de sinais cria uma falsa sensação de segurança nas primeiras 24 a 48 horas, enquanto o fígado sofre danos progressivos e, por vezes, irreversíveis. Quando os sinais clínicos se tornam evidentes, pode já ser demasiado tarde”, explica.

Nestes casos, Mónica alerta para a importância de procurar ajuda médica de emergência de imediato, mesmo que não existam sintomas aparentes, se suspeitar que alguém ingeriu uma dose excessiva de paracetamol. “A administração precoce de um antídoto disponível, é tanto mais eficaz quanto mais cedo for iniciada. O fígado é um órgão vital. Não permitamos que uma tendência irresponsável das redes sociais destrua o futuro dos nossos jovens”.

Recomendações aos pais, profissionais de saúde e plataformas digitais

A APEF apela aos pais e educadores, para que falem abertamente com os jovens sobre os perigos reais dos desafios das redes sociais; que guardem os medicamentos em locais seguros e inacessíveis, e que estejam atentos a alterações comportamentais que possam indicar a participação neste tipo de atividades.

A associação apela aos profissionais de saúde, para que reforcem a vigilância na dispensa de medicamentos a menores e que mantenham um elevado índice de suspeição perante quadros de intoxicação em adolescentes, mesmo na ausência de sintomas evidentes.

Já às plataformas digitais, a APEF apela a que assumam a sua responsabilidade na monitorização e remoção efetiva de conteúdos que incentivem comportamentos autolesivos, especialmente junto dos utilizadores mais jovens.

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