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Lado B

Há sempre um lado B, em tudo. Aquele que se apresenta invisível aos olhos, mas coerente à alma. Aquele que assume uma essência mais verdadeira, ainda que, muitas vezes, dura.

Neste que é Dia Internacional do Enfermeiro, mostramos-lhe a outra face da pandemia, pelos olhos de Marli Vitorino, enfermeira de Cuidados Intensivos no Hospital de Santa Maria, em Lisboa.

Os desabafos dos dias duros, expressou-os num caderno branco e transportou-os, depois, para um livro. ‘O Outro Lado da Pandemia’ alberga os medos, as tristezas, as angústias, mas também as vitórias desta luta maior que hoje conhecemos. Em formato poema e ilustração, o trabalho tem, ainda, direito a uma página no Facebook com o mesmo nome, bem como no Instagram.

Falámos com a enfermeira, hoje que se assinala o Dia Internacional do Enfermeiro.

Como nasceu este livro e porquê?

Este projeto nasceu em março de 2020, onde o desenho surgiu como ‘refúgio’ nos primeiros dias de pandemia vivida enquanto enfermeira de Cuidados Intensivos, alguém que cuidava de pessoas com COVID-19, em estado grave. De um dia para outro, fomos desafiados a recolher os medos e a enfrentar as dificuldades que surgiram em catadupa, para fazermos aquilo que melhor sabemos: cuidar! Inicialmente, a permanência na zona vermelha e a adaptação aos equipamentos de proteção individual (EPI’s) testaram as capacidades ao limite, sentido uma necessidade emergente de procurar apaziguar o stress, o desconforto, a ansiedade, as dificuldades e os medos… Foi nesse momento que peguei numa caneta e numa folha de papel e comecei a desenhar o que via, para me tentar abstrair da sensação de sufoco! Após terminar, fixei o desenho no vidro da porta, que separava a zona vermelha da zona não contaminada, com o objetivo de encorajar os colegas que viriam a seguir. Do primeiro desenho, surgiu outro e mais outro, aparecendo, assim, a minha terapia em tempo de pandemia! Aos desenhos, juntam-se poemas que dão sentido às emoções e sentimentos vividos em cada situação, desvendando experiências de resiliência, resistência e superação que suportam esta batalha entre quem cuida e de quem é cuidado, desmistificando uma realidade, que poucos conhecessem, sobre aquilo que se vive para lá da porta dos Cuidados Intensivos!

A transição dos desenhos para as redes sociais foi quase intuitiva, surgindo como oportunidade de transmitir uma mensagem às famílias das pessoas de quem cuidava, uma vez que se encontram distanciadas pelo elevado risco de contágio. Incentivada por colegas e amigos, criei a página O Outro Lado da Pandemia no Facebook e no Instagram, onde partilho um pouco do dia-a-dia vivido na UCI, seja na minha perspetiva enquanto enfermeiro, como de um médico, assistente operacional, na até com base nas vivências da pessoa com COVID-19 e da sua família.

Um ano depois, desta arte traduzida em desenhos e dos poemas, resultou a concretização de um sonho, a publicação do livro: “O Outro Lado da Pandemia: o que se vive para lá dos Cuidados Intensivos”, como homenagem a todos os profissionais de saúde e pessoas com CODIV-19 que lutam diariamente contra esta pandemia.

Tem tido um feedback positivo do livro?

O feedback tem sido fantástico e muito gratificante! Tem sido uma oportunidade das pessoas conhecerem um pouco da realidade que se vive para lá de uma Unidade de Cuidados Intensivos e de desconstruir alguns mitos relacionados com a UCI, no sentido de não ser um serviço de fim de linha, mas de segundas oportunidades, em que o sucesso reside no espírito de equipa, na cumplicidade, na relação de ajuda e na vontade de nunca desistir por mais desafios que surjam! Com esta partilha de vivências. O feedback tem sido emocionante! Tenho recebido muitas mensagens de agradecimento por partilhar as experiências por que passamos, os desafios que superamos e a forma como lidamos com o sofrimento, mas, essencialmente, a partilha de testemunhos das pessoas cuidadas, daqueles que se ‘agarram’ e que lutam pela vida, independentemente das adversidades e dos contratempos! São verdadeiros exemplos que me fazem acreditar no impacto da força interior, no recomeçar, na importância das relações para ultrapassar as dificuldades e na inércia da simplicidade das coisas, em como pequenos gestos podem tornar o dia de quem é cuidado mais brilhante, transformando os momentos mais difíceis em experiências de resiliência, coragem e superação!

É enfermeira nos Cuidados Intensivos. É duro, o dia-a-dia? Como é um dia na UCI?

Os dias na UCI são uma constante aprendizagem e um constante desafio! O facto de cuidarmos na mira da imprevisibilidade, faz com que o planeamento e a priorização dos cuidados seja fundamental! O ambiente na UCI é sempre vivido na iminência do risco, na identificação de sinais de alerta, na vigilância constante e na exposição de muitas necessidades em simultâneo, o que se torna muito exigente e desafiante! Entre o alarme de uma seringa que nos alerta que a medicação está prestes a terminar (o que pode colocar a vida da pessoa em risco), um colega que nos chama, uma campainha que ressoa, uma pessoa que está ventilada tosse, observando-se secreções no tubo que a ajuda a respirar, sabendo que nos temos de apressar a aspirar que para não obstrua, um monitor que nos alerta que a tensão arterial de outra pessoa está elevada porque está assustada… Este é um pequeno cenário característico da corrida contra o tempo de quem cuida numa UCI!

Depois, há sempre cuidados que são prestados de forma rotineira, como a prestação de cuidados de higiene e a alternância de posicionamentos! Mas até num simples procedimento como esses, é importante avaliar minuciosamente a pessoa que cuidamos, ponderar se tem estabilidade hemodinâmica para os cuidados de higiene ou se esse esforço adicional vão comprometer todo o processo evolutivo por exaustão respiratória. Para além dos cuidados mais simples, o dia na UCI é gerido consoante as necessidades das pessoas internadas, de sinais de agravamento que motivem a realização de procedimentos de urgência, da realização de um transporte fora da unidade, por necessidade de se fazer um exame complementar de diagnóstico, etc.

Face à ‘rotina’ típica da UCI, acrescenta-se esta realidade inerente a esta pandemia, cuja exigência nos forçou a agir e a adotar estratégias de cuidados de forma rápida, segura e eficiente. Os dias são cansativos e muito, muito exigentes, tendo em conta a elevada complexidade dos cuidados e responsabilidade, no sentido em que tudo o que fazemos tem impacto na evolução da situação clínica de cada pessoa.

Psicologicamente, como fica, depois de um dia na UCI?

Há dias muitos desgastantes, pela exigência constante e pelo sentido de responsabilidade que é necessária na prestação de cuidados. Por outro lado, apesar de estarmos como enfermeiros, não deixamos de carregar a nossa bagagem pessoal, os nossos medos, dúvidas e preocupações, o stress, o sentido de responsabilidade, o risco de sermos infetados e/ou infetar os que vivem diariamente connosco.

Os dias de luta, geralmente, são longos para quem é admitido na UCI, testando todas as suas capacidades de resistência física e psicológica. O que por sua vez, se torna mentalmente exigente para quem cuida, também! É uma luta compartilhada e desafiante para quem cuida e para quem é cuidado; mas, sair com a sensação de dever cumprido, no sentido de que tudo fizemos para cuidar da melhor possível, faz com que seja um cansaço mais saudável, que nos liberta a mente para nos dedicarmos à vida pessoal, após fechar a porta da Unidade. No entanto, a ‘receita’ nem sempre é fácil de colocar em prática e há situações particularmente marcantes, que não são fáceis de me desprender e de deixar de me preocupar com quem está lá dentro, mesmo depois de terminar o turno.

Fisicamente, é exaustivo?

Enfermagem, por si, já é uma profissão muito exigente fisicamente, juntando-se, depois, o facto de trabalhar numa UCI, em que pela condição clínica instável da pessoa e pelo seu grau de dependência elevado. Geralmente, devido ao internamento prolongado, a pessoa internada na UCI perde muito peso e força muscular, necessitando de ajuda para muitas atividades, como mobilização na cama, ajuda na higiene, a levantar-se, a comer, a vestir-se, a pentear-se, a lavar os dentes, aumentando ainda mais a exaustão física dos profissionais de saúde.

Se acrescentarmos o desconforto e o desgaste físico relacionado com a utilização permanente de equipamentos de proteção individual para prestar cuidados a estas pessoas são claramente das maiores dificuldades no dia-a-dia. A utilização destes equipamentos exige um cumprimento de precauções obrigatórias e indispensáveis para a nossa segurança, de forma a evitar o risco de sermos contaminados. Como tal, os equipamentos são vestidos e despidos por uma ordem específica, intercalados por vários momentos de desinfeção das mãos. Antes de entrarmos, temos de nos certificar que estamos bem equipados, com a máscara devidamente selada, de modo a evitar ao máximo as fugas de ar. Para que tal aconteça, temos de a ajustar à cara, o que acaba por se tornar desconfortável, por sentirmos a máscara apertada e a provocar zonas de pressão no nariz e nas orelhas. Ao fim de duas-três horas de utilização, a dificuldade em respirar e as dores de cabeça manifestam-se, e a pressão dos óculos sobre as orelhas chega a tornar-se insuportável. Com o aumento da temperatura atmosférica, na Primavera e nos Verão, a utilização dos fatos torna-se insuportável pelo calor que causam, provocando, em determinadas situações, sensação de mau estar, náuseas, tonturas, sendo ainda mais difícil tolerar o tempo na zona vermelha.

Como se consegue lidar com a morte, diariamente?

Lidar com a morte é um processo duro e complexo, não se consegue criar uma ‘barreira’ imune ao sofrimento da pessoa ou à perda. Desenvolvemos, sim, a capacidade de sermos empáticos, de nos colocarmos no lugar do outro, tentando compreender a perspetiva da pessoa e da família, estando o mais presente e disponível possível. Cabe-nos o desafio de adaptar o cuidar às suas caraterísticas e necessidades, mesmo em fim de vida! Há situações que nos são particularmente sensíveis e tentamos, da forma como podemos, aliviar o seu sofrimento, através de medidas farmacológicas e não farmacológicas ou simplesmente acompanhando a pessoa num dos momentos mais difíceis.

Em situações súbitas e inesperadas, pode ser difícil lidar com a perda, pelo sentimento de impotência, de tristeza, de insucesso. Nestas situações, é essencial a comunicação e o apoio da equipa, com a qual desabafamos aquilo que sentimos e partilhamos perspetivas ou estratégias que nos ajudam a ultrapassar a situação. Quando a pessoa tem um prognóstico reservado e estamos cientes que o tratamento pode não ser o curativo, o papel do enfermeiro centra-se, sobretudo, em dar o melhor conforto possível e em preservar a dignidade da pessoa, promovendo a proximidade da família, tendo em conta as limitações inerentes às restrições de visitas. Apesar de muito exigente, a disponibilidade e o suporte emocional à família também é extremamente importante. É das áreas mais difíceis, mas também das mais gratificantes, pois, frequentemente, somos nós, enfermeiros, que ajudamos a família a despedir-se e a encontrar estratégias para superar o luto e para readaptar os seus papeis familiares.

Tem algum ‘escape’ psicológico? Qual?

Os ‘escapes’ que tenho para gerir o stress inerente ao contexto profissional são, essencialmente, o exercício físico, um ritual que não abdico. Efetivamente, não o pratico com a mesma frequência fazia que antes da pandemia, contudo é essencial para o meu equilíbrio e bem-estar físico, mental e emocional.

Sem dúvida que o desenho tem sido uma terapia para mim, desde março de 2020. Além de desenhar, também gosto de escrever. Gosto de tirar partido da sensação de ‘ser chamada’ a escrever, a refletir sobre coisas do dia-a-dia, a expressar as emoções vividas, a retribuir e reconhecer o trabalho em equipa, a retratar e a ‘digerir’ os sentimentos relacionados com situações que, de alguma forma, foram marcantes.

Nos dias de sol, gosto de fazer caminhas, ir até à praia, ou, simplesmente, sentar-me num banco de jardim, fechar os olhos e desfrutar do som da natureza. Nos dias cinzentos, gosto de fazer trabalhos manuais ou de me sentar no sofá, ver um filme e relaxar!

E durante a pandemia, tem sido mais difícil? Porquê?

Efetivamente, as saudades têm sido o mais difícil de gerir. Custa-me estar longe da minha família alargada, dos meus amigos e das minhas rotinas sociais. De combinar uma jantarada e estarmos, tranquilamente, a desfrutar da companhia uns dos outros. Apesar do distanciamento social, o carinho e a união tornaram-se ainda mais fortes.

As pessoas hoje olham para os enfermeiros como heróis. Não o faziam antes? Os enfermeiros eram, de certa forma, ‘esquecidos’?

Não considero que sejamos heróis, mas acredito que a sociedade comece a olhar para os enfermeiros como uma classe de profissionais que tem um sentido de responsabilidade muito grande e que são verdadeiros aliados de quem cuidam, do primeiro ao último segundo, atenta a todas as necessidades sejam elas físicas, psicológicas, religiosas, familiares, económicas ou sociais!

Acredito que esta pandemia tenha ajudado os portugueses a refletir sobre o verdadeiro papel do enfermeiro, sobre quem está em todas as horas e circunstâncias pronto a ajudar o outro, mesmo que isso implique deixarmos os que amamos para cuidar de alguém que nem conhecemos. No entanto, para lá da perceção mais sensível do nosso trabalho, existe um longo percurso de luta pelo reconhecimento e valorização profissional, pelos direitos e proteção que não temos, como a falta de progressão de carreira e reconhecimento de profissão de risco por todas as adversidades que vivemos, não só em tempo de pandemia, mas inerentes à nossa profissão.

Porque escolheu ser enfermeira?

Como costumo dizer, acho que nasci a querer ser enfermeira. Recordo-me de frequentar a escola primária e de, certo dia, uma amiga cair e fazer uma ferida num joelho. Com sete anos, na altura, senti-me muito corajosa em querer ajudar e tentar fazer-lhe um penso para tratar a ferida. Nesse dia, quando cheguei a casa, perguntei à minha mãe quem é que cuidava das pessoas quando elas não se sentiam bem e ela respondeu que eram os enfermeiros. Então, desde essa altura, que a paixão surgiu, permanecendo até aos dias de hoje. Mais do que uma profissão, é senti-la como vocação, um desejo inato de querer ajudar os que me rodeiam!

É preciso paixão pela profissão? Porquê?

Quando trabalhamos com paixão, não há a sensação de simplesmente ter de trabalhar. É ter o privilégio de fazer o que dá prazer, do que verdadeiramente se gosta, todos os dias! Ser enfermeiro é uma profissão muito exigente e desgastante, física e psicologicamente, mas se for feito com dedicação, com entrega, com paixão, a forma como se lida com os desafios do dia-a-dia é complemente diferente! Ainda que haja dias difíceis e stressantes, há sempre a âncora da vocação que, mesmo cansada, me faz lutar por procurar melhorar o dia da pessoa que cuido, em função de lhe proporcionar tudo o que estiver ao meu alcance para minimizar o seu sofrimento, a sua solidão, tristeza ou desânimo! E é tão, mas tão gratificante, quando vemos aquele brilho no olhar timidamente a rejuvenescer, o quando se rasga um sorriso porque foi o primeiro dia que se levantou para o cadeirão e passou a ver “um mundo na vertical”, como costumo dizer! Ou quando, simplesmente, a família traz uns ténis e proporcionamos, finalmente, aquela sensação de calçar uns ténis de corrida e estar de pé. São pequenos gestos que reanimam as forças que, muitas vezes, estão camufladas com inseguranças e medos, de quem perdeu a esperança ao ser atingindo de uma forma tão grave e limitante consequente da doença.

O que é ser-se um bom enfermeiro?

Ser bom enfermeiro é conjugar as competências técnico-científicas: o conhecimento, o saber, com o saber ser e estar, inerente às competências relacionais e humanas! Para ser bom enfermeiro, essencialmente é necessário estar com a pessoa cuidada, escutá-la, sair da rotina, ir para além do espectável, da rotina standartizada, da monitorização dos sinais vitais e da vigilância de sinais de alerta, que também é fundamental! É sair da zona de conforto e deixarmo-nos surpreender com a individualidade de cada pessoa, é conhecer as suas preferências, necessidades, preocupações, dúvidas e medos! Mais do que a competência técnica e a capacidade de executar tarefas, é intersetar os conhecimentos científicos com a individualidade de cada pessoa e adotar a melhor atitude e as melhores estratégias terapêuticas para uma prestação de cuidados segurança, efetiva e de qualidade.

Os hospitais portugueses e o serviço nacional de saúde… estão mais fortes hoje, depois desta pandemia?

Trabalhar tantas horas seguidas num ambiente condicionado e, por vezes, hostil e stressante não é fácil… É muito exigente e cansativo, mas, acima de tudo, fazemo-lo com zelo por quem cuidamos, com dedicação e com sentido de missão. Apesar de todas as dificuldades, estamos sempre lá. Gostava que os portugueses continuassem a confiar no nosso trabalho e a reconhecer o nosso esforço diário em cuidar da melhor forma possível de cada pessoa como um ser único, com as suas características, dificuldades e capacidades. Que não se esqueçam que, apesar de ainda não poderem visitar os seus familiares, que não nos esquecemos de cada família. Apesar de não a conhecermos, sensibiliza-nos o seu sofrimento e medo do desconhecido.

Respondendo à pergunta: acredito que sim, uma vez que se tem unido muitos esforços para conseguir dar respostas às necessidades identificadas. Contudo, continuo a defender que uma das maiores aprendizagens se centra na identificação de problemas e no planeamento atempado de soluções, de forma a evitar a reincidência de casos de forma descontrolada. Planear significa, não só delinear um plano de atuação a nível hospitalar e de comunidade, mas também noutras frentes, como na sensibilização para o problema e na implementação de medidas de precaução, de um desconfinamento progressivo, planeamento de vacinação em massa… todos têm de trabalhar para o mesmo foco, seja na prevenção, no tratamento da COVID-19, como no pós-doença, em que tantas pessoas continuam a necessitar de recursos e ajuda para a sua recuperação efetiva! É um dever cívico de cada pessoa contribuir para a resolução deste problema, mas parte do exemplo e da coerência na tomada de decisão e comportamento das figuras de referência como chefes de estado, representantes da gestão da saúde, profissionais de saúde, etc. Neste sentido, pela experiência após vários picos da pandemia, por conhecermos um pouco melhor a expressão desta doença e pela atuação do plano de vacinação, sinto que estamos mais fortes e mais detentores de conhecimento que nos ajudará a retomar alguma normalidade das nossas rotinas do quotidiano, mas sempre cientes na necessidade de zelo e de medidas de precaução!

E a Marli, como está, psicologicamente? Mais forte? É hoje uma pessoa diferente?

Face às experiências desafiantes e enriquecedoras vividas ao longo desta pandemia, sinto que cresci muito a nível pessoa e profissional! Estou uma pessoa diferente, que valoriza mais o amor próprio, a estabilidade emocional, as relações, o tempo em família, os afetos e as segundas oportunidades!

Estas aprendizagens nutrem, também e cada vez mais, esta paixão de ser enfermeira como uma oportunidade de abraçar novos desafios a cada dia que passa, numa relação extraordinária que se estabelece com quem se cuida, cheia de aprendizagens, partilhas, conhecimentos, experiências, de sorrisos e de lágrimas, de momentos alegres, outros difíceis e sempre desafiantes!

Uma realidade jamais imaginada que me forçou a refletir sobre a importância da readaptação face aos desafios e necessidades e sobre a essência do cuidar com humanidade, que pressupõe ingredientes essenciais como o espírito de equipa, a comunicação, o respeito e o companheirismo!

Essencialmente, esta pandemia tem-me ajudado, sobretudo, a ser mais humana, mais enfermeira, valorizando o que realmente importa na vida, as relações humanas, os afetos, a proximidade… sobre a cumplicidade e a relação de ajuda que fazem com que as pequenas coisas tornem o dia de quem é cuidado mais brilhante, transformando os momentos mais difíceis em experiências de resiliência, coragem e superação!

Algum dia pensou que teria de lidar com um ‘tsunami’ destes..?

Não, nunca pensei que vivêssemos uma situação desta, muito menos tão prolongada no tempo! Ao fim de meses a fio a cuidar de pessoas com COVID-19, nas mesmas circunstâncias, a exaustão e o cansaço tornam-se cada vez mais evidentes, sobre a necessidade de descanso efetivo há muito desejado, exacerbando-se, particularmente, com o aumento descontrolado de casos face à escassez de recursos do Sistema Nacional de Saúde. Aos sinais de cansaço, por vezes, juntam-se, também, sentimentos de frustração, quando a sede de quebrar as medidas de precaução falam mais alto, por parte de pessoas com ideias deturpadas desta pandemia rotulada como uma ‘simples gripe’.

Houve um dia particularmente difícil? Porquê? O que aconteceu?

O facto de se tratar de uma doença altamente contagiosa, a restrição do contacto do doente com a família é das situações mais difíceis. No entanto, apesar de não poderem visitar, as famílias são informadas diariamente do estado clínico do seu familiar, tentamos transmitir as suas mensagens aos doentes e, sempre que possível, utilizamos recursos tecnológicos para estabelecer a ligação, como a realização de videochamadas. De facto, quando recebem notícias das suas famílias, ficam mais tranquilos e ganham mais força para ultrapassar as dificuldades do dia.

Quanto a situações específicas, houve uma particularmente difícil, um doente com 85 anos que não resistiu após várias medidas de tratamento. O senhor decidiu que não queria mais medidas invasivas que lhe causassem sofrimento, estava exausto de lutar contra a doença, apenas queria ver a sua família e morrer com dignidade e sem sofrimento. Esta situação marcou porque foi um doente com o qual estabeleci uma empatia imediata pela sua forma de encarar as dificuldades, pelo seu temperamento divertido que, apesar do cansaço, estava sempre pronto para contar mais uma história da sua longa vida! Consegui ter força para animar todos os que o rodeavam, até mesmo nos últimos momentos da sua vida, em que ainda nos chamava e carinhosamente nos pegava na mão e acariciava, até adormecer. Outra situação particularmente difícil relaciona-se com uma senhora que tinha acabado de ser mãe, mas o seu estado clínico agravou, forçando-a a ser transferida para a UCI. Quando acordou do coma, para além de ser difícil compreender tudo o que lhe tinha acontecido, sentir que faltava algo do seu ventre foi um momento de grande ansiedade, o qual tentamos gerir da melhor forma possível! Ao longo do tempo, houve a possibilidade de realizar uma videochamada para ver o bebé, e foi um momento emocionalmente arrebatador!

Alguma história que gostasse de partilhar, para além dessas duas?

Existem muitas histórias marcantes, recordo-me do primeiro doente quando retirámos o tubo que o ajudava a respirar através do ventilador. Sensibilizou-me, primeiramente, a forma como nos compreendia e nos distinguia pelo nome. Apesar de nos apresentarmos sempre que prestamos cuidados, não é fácil decifrar quem está por baixo de um fato igual a todos os outros que estão na sala. Contudo, ele distinguia-nos pelo timbre da voz, pela atitude, pelo comportamento e pela forma de falar, confiando no nosso trabalho. A segunda coisa que me marcou nesta situação, foram as primeiras palavras que nos disse. Com os olhos mergulhados em lágrimas afirmou: “obrigada, muito obrigada”.

Outra situação marcante relaciona-se com o corresponder às necessidades culturais e religiosas de cada pessoa, neste caso a concretização do batismo de um doente na zona vermelha. Ameaçado pelo prognóstico reservado que apresentava, foi manifestado pelo doente e pela família a vontade de ser batizado! Chamámos o capelão e, ali mesmo, o senhor foi batizado!

Outra situação relaciona-se com a admissão de uma pessoa com leucemia aguda e COVID-19, que deu entrada na UCI com prognóstico muito reservado e em coma induzido. Teve dias e semanas em coma induzido pela vulnerabilidade e instabilidade hemodinâmica, contudo perdi a conta às vezes em que me questionei sobre quem era aquela pessoa de quem cuidava e tanta esperança me transmitia?! Tantas pessoas que já cuidei, tantos rostos que já conheci, tantas lágrimas e sorrisos que já partilhei, como podia ser, alguém que nem tive a oportunidade de conhecer acordado, transmitir-me tanta serenidade e esperança?! Ao fim de longos dias de luta, aquela áurea de esperança permanecia intacta e, finalmente, os tempos de bonança começaram a surgir. Após sair do coma, confirmei aquilo que senti desde o primeiro instante, que se conjugava com a sua maneira otimista e sedenta de viver a vida. Foi uma grande aprendizagem para mim, quantas vezes andamos rabugentos, a reclamar por tudo e por nada, parecendo que nada corre bem, sem motivos concretos para nos queixarmos… e contra todas as adversidades e obstáculos, conseguiu ver o lado positivo e viver cada oportunidade com esperança e coragem, preservando o segredo de acreditar na força inspiradora para superar o que der e vier!

Como vai ficar o mundo depois disto?

Apesar das sequelas a vários níveis consequentes desta pandemia, seja nível económico, emocional, psicológico e físico, espero que fique um mundo melhor! Quando falamos em pandemia, normalmente associamos a um caráter mais negativo, mais ‘pesado’, mas há um lado positivo deste ‘Outro Lado da Pandemia’, no sentido de refletir sobre o que aprendemos: que partido é que tiramos da pandemia? Espero que seja um mundo melhor, mais tolerante e responsável, consciente de que o comportamento de uma pessoa, que influencia o comportamento de outra e que a responsabilidade de zelar por mundo melhor depende precisamente de cada um de nós! Espero que com esta pandemia, o facto das pessoas estarem mais restritas daquilo que gostam, passem a dar mais valor ao que realmente lhes é importante, e compreendam o impacto das relações humanas nas suas vidas, bem como a necessidade de cultivar afetos, de cultivar o amor próprio e a capacidade de aceitar os desafios que possam surgir, sem nunca desistir por mais difíceis que possam parecer!

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