Para muitas mulheres, o fim do tratamento do cancro do ovário não significa que a jornada da doença tenha chegado ao fim. Ou não deveria significar. Mesmo quando a cirurgia e a quimioterapia decorrem com bons resultados, a verdade é que estamos perante uma doença com elevado risco de recidiva. Os dados mostram que cerca de 70 a 80% das mulheres com o tipo mais comum de cancro do ovário acabam por enfrentar um reaparecimento da doença [i].
Paradoxalmente, trata-se de um cancro que tende a responder bem ao tratamento inicial. Contudo, essa resposta não garante estabilidade duradoura. Regra geral, cada recidiva torna-se mais difícil de tratar e responder de forma menos eficaz à terapêutica, o que evidencia a necessidade de uma abordagem que não se esgote no momento em que termina a quimioterapia. A isto soma‑se outra realidade preocupante: cerca de três quartos dos casos continuam a ser diagnosticados em estádio avançado, aumentando o risco de recorrência e reduzindo as hipóteses de sobrevivência a longo prazo [ii].
Abordar a necessidade de vigilância não é apenas uma opção, mas uma resposta racional e necessária a uma doença que exige continuidade de cuidados, acompanhamento próximo e capacidade de agir rapidamente perante qualquer sinal de alerta. A vigilância salva tempo. E, numa doença como esta, o tempo faz a diferença.
Mas vigilância não pode significar apenas exames espaçados no tempo ou consultas formais. Deve traduzir‑se num seguimento estruturado, com planos claros, comunicação eficaz entre profissionais de saúde e doentes, e um papel ativo das próprias mulheres no reconhecimento de sintomas. Sabemos que, em muitos casos, são as próprias doentes as primeiras a notar que algo não está bem. Isso exige que as suas queixas sejam escutadas com atenção e que exista uma resposta célere por parte do sistema de saúde.
A vigilância torna‑se, assim, uma responsabilidade partilhada. Entre médicos, doentes, famílias e instituições. Porque quando uma mulher com antecedentes de cancro do ovário manifesta novos sintomas [iii], não pode ficar refém de atrasos, burocracias ou falta de referenciação adequada. Um sistema verdadeiramente eficaz é aquele que transforma a vigilância em ação concreta.
Neste contexto, importa também reconhecer o papel cada vez mais relevante das estratégias de manutenção, que procuram prolongar o período de controlo da doença após o tratamento inicial. A investigação científica tem permitido avanços significativos, introduzindo abordagens que ajudam a atrasar a recorrência e a transformar o cancro do ovário numa doença que, cada vez mais, se aprende a gerir ao longo do tempo. Garantir que estas opções chegam às mulheres que delas podem beneficiar é uma questão de equidade e de justiça, não um privilégio.
No entanto, viver em vigilância ou em manutenção não implica viver sem peso emocional. Muitas mulheres descrevem este período como um tempo suspenso, uma permanente linha fina entre esperança e incerteza: sem sintomas evidentes, mas sempre com o receio do que pode regressar. Esse impacto psicológico tem de ser reconhecido e acompanhado. Cuidar do cancro do ovário não é apenas tratar a doença, mas também cuidar da pessoa como um todo.
No Dia Mundial do Cancro do Ovário, importa reforçar esta mensagem essencial: quando o tratamento acaba, os cuidados não terminam. A vigilância não constitui um sinal de medo, mas antes uma atitude de conhecimento e compromisso com a vida.
Cláudia Fraga
Presidente da Associação MOG

[ii] 1. Ferlay J; Ervik M; Lam F; Laversanne M; Colombet M; Mery L; Piñeros M; Znaor A; Soerjomataram I; Bray F. Global Cancer Observatory: Cancer Today 2022 [OVARY]. 2024.