[wlm_register_Passatempos]
Siga-nos
Topo

O “Diabo Veste Prada 2” também fala sobre si

Um paralelismo entre o filme do momento e as escolhas que às vezes fazemos.

Já viu o filme? Se ainda não viu, provavelmente já ouviu falar. Foi uma das estreias mais badaladas das últimas semanas. E aposto que quem viu saiu do cinema com aquela sensação estranha — a de que aquela história tinha algo familiar. Algo que acontece consigo ou com alguém próximo.

De um lado, a que foi embora. Que deixou o mundo acelerado pela promessa de uma vida mais “normal” —  um amor, uma escolha, algo que parecesse verdadeiro. Algo semelhante ao que muitas pessoas reconhecem nas suas próprias histórias. O problema é quando essa parceria é construída com alguém que não corre atrás, que não faz as coisas acontecer. Um relacionamento que foi, desde o início, mais fuga do que encontro.

Do outro lado, a que ficou. Que construiu um império —  e foi perdendo, pelo caminho, a família, a proximidade, as noites, as manhãs. Que chegou ao topo e descobriu que o topo é muito solitário quando as mãos estão ocupadas demais para segurar alguém.

Duas histórias. Um único denominador comum: as duas abriram mão de algo. As duas pagaram um preço. E as duas olharam para a vida que escolheram — e ficaram com a mesma pergunta por responder.

Valeu a pena?

O que torna “O Diabo Veste Prada” —  tanto o primeiro quanto o segundo — um grande fenómeno cultural que não envelhece, é que, mais uma vez, fala de uma história muito comum. É um espelho da nossa sociedade.

A pergunta que o filme faz não é quem está certo, mas sim: em qual dessas duas se reconhece?

E talvez a resposta honesta, para a maioria de nós, seja incómoda. Porque não somos uma coisa nem outra — por vezes, somos as duas versões. Em momentos diferentes, em proporções diferentes. Que vão variando e mudando de acordo com a fase da vida em que estamos. O medo de cada momento influencia e o quanto cada uma de nós está realmente disposta a encarar esses desafios também.

Em alguns momentos somos as que abandonam — uma vida, uma carreira, um amor — por algo que, no fim, não estava à nossa altura.

Mas às vezes somos também a parte de nós que constrói, conquista, avança. Que faz acontecer todos os dias e que só percebe o custo quando encontra o vazio ao lado.

Esse filme acaba sendo muito forte porque não existe uma versão certa de mulher naquele ecrã. Existe um retrato honesto daquilo que a gente ainda não resolveu — seja no coletivo, seja culturalmente, seja individualmente.

E aí vem a pergunta: o que é que nos alimenta de verdade?

Não o que nos faz parecer bem. Não o que os outros esperam. Não aquilo que aprendemos que deveríamos ser — muitas vezes para agradar. A questão é o que alimenta, o que sustenta, o que vai continuar lá quando o cargo mudar, quando o relacionamento acabar, quando a vida — que insiste em mudar de forma sem avisar — nos apanhar de surpresa.

Talvez essa seja a questão que o filme deixa para cada uma de nós refletir no caminho de volta para casa.

E é também uma questão que muitas de nós passamos anos a evitar — não por falta de coragem, mas porque a resposta verdadeira exige que abdiquemos de uma narrativa que custou muito a construir. E ainda mais a sustentar.

A Miranda não é a vilã. Ela é um aviso. Talvez aquela mulher que vemos cada vez mais na sociedade — forte, brilhante, implacável, absolutamente real no seu querer fazer e acontecer e que pagou por essa autenticidade, por essa firmeza, com o tipo de solidão que o poder não consegue preencher.

A Andy também não é a heroína. Ela é um outro espelho. Da mulher que escolheu sair, abdicar de tudo — pela família, pelo amor. Mas saiu para quê? Por um amor que talvez não tenha crescido com ela? Por uma versão de si mais suave, mais aceitável, menos ameaçadora?

No final, percebemos que nenhuma das duas encontrou a sua resposta. Porque a resposta nunca está numa escolha entre carreira e amor, entre poder e afeto, entre ambição e presença.

A resposta — se é que ela existe — está em perceber o que estamos, hoje, a alimentar com as nossas escolhas.

É interessante porque este filme chega vinte anos depois — com todo o contexto real das conquistas femininas, das conversas sobre empoderamento, saúde mental e equilíbrio.

Mas este texto que acabou de ler não é sobre o filme. É sobre cada uma de nós.

E as grandes perguntas que precisamos de fazer são aquelas que talvez ainda não se responderam. E que talvez só se respondam ao longo de uma vida — a cada escolha, a cada virada, a cada momento em que a gente para e se pergunta:

Isso que estou a construir está a alimentar-me? Ou está apenas a alimentar o outro?

Não precisa de ter visto o filme para saber do que estamos a falar. Mas tenho certeza que já viveu alguma versão desta história.


Carolina Padilha 

Comunicadora de bem-estar, consciência e performance humana

Contactos

Instagram: @eusou.carolinapadilha 

Veja mais em Opinião

PUB


LuxWOMAN