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O problema dos suplementos para conseguir um “summer body”

A maioria das pessoas não precisa de um suplemento extremo, precisa de dormir melhor, comer melhor, mover-se mais e parar de procurar soluções milagrosas para problemas que são comportamentais.

Todos os anos, assim que começa a chegar o verão, acontece exatamente o mesmo fenómeno: pessoas desesperadas para perder gordura em três semanas começam a consumir autênticas bombas químicas vendidas como “suplementos”. E o mais preocupante? Muitas nem sabem o que estão realmente a tomar.

Como alguém que trabalha há anos na indústria dos suplementos e que passou grande parte da carreira dentro de fábricas GMP, controlo de qualidade e desenvolvimento de formulações, acho que está na altura de dizer isto sem filtros: o mercado dos suplementos para “summer body” tornou-se, em muitos casos, um negócio construído em cima da insegurança das pessoas.

Basta abrir o Instagram durante cinco minutos para perceber isso: “Perde 7 kg em 2 semanas”; “Barriga lisa antes das férias”; “Detox milagroso” e “Queima gordura enquanto dormes”.

A verdade é que o corpo humano não funciona assim. E qualquer pessoa da área, que perceba minimamente de fisiologia, sabe disso. Não existe perda de gordura sustentável em duas semanas, não existe um detox milagroso e não existe um suplemento capaz de compensar meses, ou anos, de maus hábitos.

O problema é que muitos já nem procuram saúde. Procuram urgência estética.

E é precisamente aí que entram os suplementos mais agressivos do mercado: fat burners carregados de cafeína, misturas estimulantes absurdas, diuréticos disfarçados de produtos “naturais” e fórmulas feitas para criar sensação imediata no corpo, mesmo que isso venha à custa de stress fisiológico.

Muitas pessoas confundem efeitos secundários com eficácia. Se sentem ansiedade, tremores, coração acelerado, suor excessivo ou falta de apetite, assumem automaticamente que “está a funcionar”. Não está. Na maioria dos casos, o que está a acontecer é apenas uma sobrecarga do sistema nervoso.

E o mais grave é que muitos destes produtos vivem numa zona cinzenta da transparência. Proprietary blends (misturas proprietárias) sem doses claras, ingredientes utilizados porque estão “na moda” e fórmulas construídas mais para marketing do que para resultados reais.

Na minha opinião, a indústria da suplementação precisa urgentemente de mudar de direção. Precisamos de menos promessas agressivas e mais educação, menos marketing de choque e mais ciência, menos pressão estética e mais foco em saúde metabólica, recuperação, sono, hidratação e consistência.

Porque a verdade é esta: a maioria das pessoas não precisa de um suplemento extremo. Precisa de dormir melhor, comer melhor, mover-se mais e parar de procurar soluções milagrosas para problemas que são comportamentais.

Os suplementos podem ter utilidade? Claro que sim. Alguns ingredientes têm evidência científica muito interessante quando bem formulados e corretamente utilizados. Mas suplemento nenhum devia ser vendido como substituto de disciplina, saúde ou equilíbrio.

O mais irónico no meio disto tudo é que o verdadeiro “summer body” nunca devia ser um corpo destruído por restrições extremas, desidratação e estimulantes só para parecer melhor durante duas semanas na praia. Devia ser, simplesmente, um corpo saudável. E isso não se constrói em 14 dias.


Tiago Ferreira

Microbiologista, especialista em saúde e suplementos

Co-fundador e CEO da Suplendi

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