Parte da cultura humana há séculos, o álcool está associado a momentos de convívio, celebração e descontração. Seja para brindar em ocasiões felizes ou “beber para esquecer” em momentos difíceis, o seu papel social tem-se mantido ao longo do tempo. Ainda assim, este cenário começa a mudar. Com um maior conhecimento sobre os efeitos negativos do álcool, as novas gerações têm vindo a optar por reduzir ou eliminar o seu consumo. Um estudo da marca de cervejas Heineken, “Bebidas 0,0% álcool em Portugal: hábitos, motivações e barreiras ao consumo”, revela que mais de metade dos portugueses procura socializar sem sentir os efeitos do álcool. Para Gustavo Jesus, médico psiquiatra e diretor do Partners in Neuroscience, não beber “deixou de ser uma exceção para passar a ser uma escolha ponderada”.
Gustavo Jesus, médico psiquiatra e diretor do Partners in Neuroscience, em entrevista
Durante muitos anos, o álcool esteve fortemente associado à socialização em Portugal. Sente que estamos a assistir a uma mudança cultural?
O álcool faz parte da cultura humana há séculos, mas hoje há muito mais conhecimento sobre os seus efeitos e isso abriu espaço para escolhas mais conscientes e flexíveis. Enquanto antes era automático associar uma saída com amigos a uma bebida alcoólica, nas novas gerações há decisões variáveis dependendo do contexto e do momento, sendo cada vez mais comum que o convívio não se associe ao consumo de álcool. Recentemente foi publicado um estudo da própria marca Heineken (Bebidas 0.0% álcool em Portugal: hábitos, motivações e barreiras ao consumo), que mostrou que em Portugal, 52% dos consumidores já optam por bebidas 0.0% álcool para socializar sem sentir os efeitos da bebida. Deixou de ser uma exceção para passar a ser uma escolha ponderada.
O que explica, do ponto de vista psicológico e social, que cada vez mais pessoas procurem momentos de convívio sem álcool?
As pessoas priorizam crescentemente aspetos diferentes na sua vida, sobretudo a saúde, o bem-estar físico e mental. O estudo também nos mostra isso, que a maioria das pessoas que reduz o consumo de álcool aponta exatamente estes motivos como principal razão. Para além disso, os seres humanos são profundamente sociais e procuram pertencer a grupos e partilhar momentos. A evolução atual é que há uma maior exposição à experiência de socializar sem o efeito do álcool no cérebro, com manutenção de uma experiência de convívio autêntica e satisfatória. Isso faz com que a ideia de o fazer esteja a ganhar aceitabilidade e popularidade.
O facto de mais de metade dos consumidores portugueses já se sentirem motivados para socializar sem álcool revela uma mudança geracional ou é transversal a várias idades?
É uma tendência transversal, embora mais visível entre os jovens adultos (18-34 anos). Este grupo está mais exposto à pressão social e às redes, mas também valoriza mais o equilíbrio e a saúde. Por isso, optar por uma bebida 0.0% álcool, mesmo em contextos sociais está a tornar-se parte do comportamento social habitual, sendo cada vez mais aceite e integrado na cultura do convívio.
A socialização sem álcool ainda enfrenta algum estigma social em Portugal?
Sim, a socialização sem álcool ainda enfrenta algum preconceito e dá origem a comentários nos grupos, sobretudo entre pessoas do sexo masculino. Aliás, segundo o mesmo estudo, quase metade dos consumidores de cerveja 0.0% sente que precisa de justificar a sua escolha e 37% já experienciaram pressão para beber álcool. Estes números mostram que, socialmente, continua a existir a perceção de que beber álcool é que é o comportamento “normal”, e quem opta por alternativas sem álcool pode sentir que tem de explicar a sua decisão para não quebrar a dinâmica do grupo. O ato de beber em sociedade é ritualizado e, muitas vezes, o grupo reage de forma automática quando alguém decide não beber. Por exemplo, 11% dos consumidores já inventaram desculpas para justificar a não ingestão de álcool.
Que impacto pode ter a redução do consumo de álcool na saúde mental e emocional das pessoas?
Muitas pessoas acreditam que o álcool ajuda a gerir o stress, a ansiedade ou a tristeza. Na realidade, fá-lo apenas de forma temporária, à custa de desregular os próprios mecanismos cerebrais que controlam as emoções. Reduzir o consumo permite ao cérebro recuperar a sua capacidade natural de regular o humor, melhora a qualidade do sono, diminui a ansiedade, aumenta a clareza mental e favorece relações mais saudáveis. No fundo, não se trata apenas de beber menos; trata-se de devolver ao cérebro a capacidade de fazer sozinho aquilo que o álcool apenas simulava durante algumas horas.
Sente que existe hoje uma maior preocupação com equilíbrio, autocuidado e bem-estar, e que isso influencia as escolhas de consumo?
Sem dúvida, e os estudos recentes nesta área mostram exatamente isso. Mais de 60% das pessoas que decidiram moderar ou reduzir o álcool fizeram-no por saúde, e metade refere diretamente a procura de uma vida mais equilibrada. O autocuidado deixou de ser uma tendência passageira e passou a ditar o consumo.
Muitas pessoas associam o álcool à desinibição social. É possível alcançar essa sensação de conforto e pertença sem recorrer ao álcool?
Sim e é necessário separar isto. O álcool provoca uma desinibição rápida, mas o verdadeiro conforto e a sensação de pertença vêm da nossa ligação real com as pessoas. Muitas vezes sentimos que o álcool ajuda a tolerar melhor um convívio que nos deixa ansiosos, até porque estamos preocupados com o que os outros pensam de nós. Mas na verdade, as pessoas num grupo estão muito mais focadas nelas mesmas e na imagem que estão a passar do que naquilo que nós estamos a fazer. Isso também é válido para o que estamos a beber – até podem comentar mas não vai ser um assunto central das preocupações daquela pessoa. Deve ser um objetivo deixarmos de nos focar tanto no julgamento alheio, e nessa altura a desinibição acontece de forma natural e mais autêntica.
O aumento da oferta de bebidas 0.0% pode ajudar pessoas que querem moderar o consumo sem abdicar da vida social?
A diversidade desse tipo de produtos permite que as pessoas participem nos rituais sociais de forma natural, reduzindo a sensação de exclusão e normalizando a escolha.
Como pode a sociedade tornar mais natural a escolha de não consumir álcool?
Tem que ser normalizada essa opção. Oferecer alternativas sem álcool, evitar comentários ou julgamentos, e criar contextos sociais centrados no convívio, não na bebida. O objetivo é que a escolha seja natural e integrada.
Que papel têm os grupos de amigos e as redes sociais na normalização destes novos hábitos?
Os grupos de amigos e as redes sociais têm um papel central na normalização destes hábitos. As pessoas tendem a seguir exemplos próximos. Se o grupo de amigos adota escolhas conscientes, como bebidas 0.0%, isso cria uma referência social direta que facilita que outros façam o mesmo. As redes sociais amplificam este efeito, mostrando que não beber álcool ou optar por alternativas 0.0% é normal, socialmente aceite e até valorizado. Isto ajuda a criar uma cultura de convívio em que os rituais de grupo e a diversão não dependem do consumo de álcool, mas sim da partilha de momentos e da pertença ao grupo.
Acredita que a socialização sem álcool será cada vez mais comum nos próximos anos?
As tendências de comportamento apontam para aí. A preocupação com o bem-estar, a procura por um estilo de vida mais equilibrado e um consumidor que quer estar mais consciente das suas decisões.



