Durante muito tempo, ser pai ou mãe era, acima de tudo, uma experiência vivida com base no instinto, na tradição e no apoio da comunidade. Contudo, hoje esse cenário mudou. Na verdade, a parentalidade transformou-se num verdadeiro projeto de alta exigência, onde cada decisão parece carregar um peso desproporcional no futuro das crianças. Há manuais, especialistas, fóruns, opiniões constantes e, no meio disso tudo, uma pressão silenciosa mas persistente: fazer sempre mais e melhor.
Aos pais contemporâneos não se pede apenas que cuidem, protejam e eduquem, esperando-se que sejam também gestores emocionais, facilitadores de aprendizagem, promotores de competências sociais e arquitetos do sucesso futuro dos filhos. Assim, a parentalidade deixou de ser apenas uma relação para se tornar numa tarefa complexa, quase profissionalizada, onde o erro parece ter consequências irreversíveis.
Este modelo, frequentemente descrito como “parentalidade intensiva”, assenta na ideia de que ser um “bom pai” ou uma “boa mãe” implica investimento total: tempo, energia, recursos e uma vigilância constante sobre o desenvolvimento da criança. Neste contexto, cada atividade é pensada, cada emoção analisada, cada oportunidade maximizada. No fundo, educar passou a significar otimizar.
Perante este cenário, impõe-se a pergunta: estaremos a exigir demasiado? E, talvez mais importante: A que custo, para os pais, para os filhos e para a própria ideia de família?
A resposta não é simples, mas alguns sinais são difíceis de ignorar. Muitos pais vivem num estado quase permanente de exaustão, divididos entre o trabalho, a vida familiar e a sensação de nunca estarem a fazer o suficiente. Paralelamente, cresce a ansiedade associada à parentalidade, alimentada pela comparação constante e pela ideia de que há sempre uma forma “melhor” de educar, agravada pela pressão das redes sociais, onde, frequentemente, nos deparamos com um ideal de maternidade ou paternidade completamente fora da realidade.
Para os filhos, o impacto também merece atenção: entre agendas cheias, expectativas elevadas e supervisão contínua, sobra menos espaço para o erro, para o tédio e para a autonomia, que são elementos essenciais ao desenvolvimento. No meio disto tudo, a família arrisca-se a tornar-se menos um lugar de vínculo espontâneo e mais um espaço de gestão e desempenho, onde o afeto se mistura, muitas vezes, com a pressão de acertar.
Se o modelo atual está a gerar desgaste, talvez seja altura de repensar o que significa, afinal, ser um “bom pai” ou uma “boa mãe”. O pediatra e psicanalista Donald Winnicott propôs uma ideia simples, mas profundamente libertadora: a da parentalidade “suficientemente boa”, não perfeita, não irrepreensível, mas apenas suficientemente boa para garantir segurança, afeto e espaço para crescer.
Efetivamente, aceitar a imperfeição não é desistir, mas reconhecer limites humanos, percebendo que falhar faz parte da relação e que reparar também é educar. Se ocorrer este deslocamento de expectativas, poderá haver um alívio enorme de pressão sobre os pais, abrindo-se espaço para uma parentalidade mais autêntica.
Talvez a verdadeira mudança não esteja em fazer mais, mas em fazer de outra forma. Isto porque as crianças não precisam de pais perfeitos, disponíveis em permanência e capazes de antecipar tudo. Pelo contrário, precisam de adultos presentes, consistentes e humanos, que amam, cuidam, falham, reparam e continuam a tentar. Não nos esqueçamos de que educar não pode ser uma tarefa solitária nem uma prova de desempenho individual, exigindo tempo, condições e redes de apoio.
Ana Catarina Mesquita

Doutorada e investigadora em Estudos Globais, com especialização nas áreas da educação, cultura e sociedade. O seu trabalho centra-se nas transformações contemporâneas, com particular atenção ao impacto da globalização, da educação e das dinâmicas culturais nas novas gerações.
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