Janeiro chega sempre carregado de intenções. É o mês das resoluções, das listas mentais e das promessas feitas a nós próprios. Entre elas, destaca-se, ano após ano, sobretudo entre os fumadores, o desejo de deixar de fumar. A vontade é genuína e a motivação é real; contudo, os números mostram que, infelizmente, esta resolução tende a desvanecer-se nos primeiros dias de janeiro do novo ano.
A pergunta que se impõe é: por que falham tantas tentativas?
Durante muito tempo, acreditou-se que deixar de fumar dependia apenas da força de vontade. Hoje sabemos que essa ideia não só é incorreta, como também alimenta a culpa e o desânimo de quem tenta parar, levando, muitas vezes, à desistência. Fumar não é apenas um hábito: é uma dependência com raízes neurofisiológicas profundas.
A nicotina é uma das drogas mais eficazes a criar dependência, sobretudo pela forma como atua no cérebro e pela frequência com que é administrada. Ao entrar rapidamente na corrente sanguínea, estimula a libertação de dopamina, um neurotransmissor intimamente ligado à motivação, à sensação de recompensa e ao alívio do desconforto. Com o consumo repetido, o cérebro adapta-se à presença constante da nicotina e reorganiza o seu funcionamento em torno dela.
Neste processo, o ato de fumar deixa de estar associado ao prazer e passa a funcionar, sobretudo, como uma forma de evitar os sintomas da abstinência. O fumador torna-se escravo do cigarro. O cigarro transforma-se numa resposta automática a um estado de desequilíbrio, assumindo simultaneamente uma dimensão química e emocional.
É por isso que, quando alguém não consegue manter-se sem fumar, a culpa não reside na fragilidade pessoal nem na falta de força de vontade. Trata-se, antes, de uma dependência real, com mecanismos neurofisiológicos semelhantes aos de outras adições reconhecidas, que requer compreensão, tempo e apoio adequado para ser superada.
Além da componente química, existe uma forte componente comportamental e emocional. O cérebro cria uma verdadeira memória do cigarro. Certos momentos do dia, como o café da manhã, as pausas no trabalho ou os encontros sociais, ficam associados ao ato de fumar. Emoções como stress, frustração ou cansaço funcionam como “triggers” poderosos.
Não é por acaso que muitas pessoas fumam mais em períodos de cansaço, frustração e stress. E é também por isso que tentar deixar de fumar nesta fase, sem apoio adequado, pode ser particularmente desafiante.
Janeiro é, paradoxalmente, um dos meses mais exigentes a nível emocional. Há expetativas elevadas, mudanças de rotina, pressão para “fazer melhor” e, muitas vezes, sentimentos de culpa acumulados. Para muitas pessoas, o cigarro funciona como um regulador emocional. É pausa, recompensa, companhia e, supostamente, calmante. Quando se tenta deixar de fumar, não se perde apenas a nicotina. Perde-se uma estratégia de gestão emocional, ainda que disfuncional. O problema é que o cigarro nunca resolveu o stress, apenas o mascarou, perpetuando o ciclo de dependência.
Importa também compreender que deixar de fumar não é um evento isolado, marcado num calendário. É por isso que parar “a frio”, apenas com base na força de vontade, raramente resulta. As estatísticas mostram-nos que apenas cerca de 5 % dos fumadores que tentam deixar de fumar o conseguem fazer com êxito sem ajuda médica ou de apoio. A decisão racional está tomada, mas o cérebro continua dependente. A verdade é que deixar de fumar requer método, é um processo e uma habilidade treinável!
Abordagens integradas, que atuam também ao nível neurológico e emocional, tornam o processo mais equilibrado. A auriculoterapia é um exemplo dessas abordagens, ajudando a eliminar ou reduzir sintomas de abstinência, ansiedade e compulsão.
Janeiro pode ser o mês certo e o mais difícil para deixar de fumar. A motivação está alta, mas a pressão também. A diferença está no apoio. Quem não enfrenta este caminho sozinho aumenta significativamente as probabilidades de sucesso. A ciência mostra-nos que o cérebro é capaz de mudar, reaprender e recuperar. Quando esse processo é acompanhado, o impossível torna-se alcançável.
Deixar de fumar não é uma batalha contra o vício, é o caminho de regresso ao equilíbrio e à liberdade.
Cristiana Machado
Fundadora da Viver Sem Fumo

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