A comida é, para os portugueses, uma forma de união e uma verdadeira linguagem do amor. Tem o poder de ditar como as relações começam e acabam, de nos fazer sentir especiais e de expressar o que sentimos sem que sejam precisas palavras. Segundo Catarina Lucas, psicóloga clínica, psicoterapeuta individual e de casal e sexóloga, “a comida é uma das mais significativas linguagens do amor, presente desde sempre em momentos românticos”. “Através dela cuidamos, demonstramos afeto, conquistamos o outro, mostramos presença e partilhamos momentos de intimidade e cumplicidade”, acrescenta.
A poucos dias de celebrar o dia mais romântico do ano — o Dia dos Namorados —, um estudo da Too Good To Go revela o que é valorizado nos encontros, quais as refeições mais escolhidas e quais os hábitos mais comuns no país quando se trata de romance à mesa.
Os dados apresentados são retirados de um estudo conduzido pela entidade Appinio para a Too Good To Go, junto de uma amostra representativa de 1.000 pessoas em Portugal, entre os 18 e os 54 anos, em dezembro de 2025
Para os portugueses, os gestos simples falam mais alto do que pratos sofisticados: 64% acredita que partilhar comida é a verdadeira linguagem do amor. Ao dividir uma refeição, não só se criam momentos de conversa e cumplicidade, especialmente úteis em primeiros encontros, onde nem sempre é fácil quebrar o gelo, como também se transmite cuidado e atenção. Não é por acaso que 5 em cada 10 sentem-se mais amados quando alguém se lembra da sua comida favorita, reforçando a importância de pequenos gestos que demonstram proximidade e cuidado.
A comida torna-se também numa linguagem própria de carinho, quando é difícil encontrar as palavras certas para expressar o que estamos a sentir: cerca de 40% acredita que preparar, partilhar ou oferecer comida é uma forma de transmitir afeto. Em Portugal, mais de metade cozinha uma refeição especial todas as semanas, sendo os adultos entre 45 e 54 anos os mais assíduos, com mais de 60% a concretizar este ato de amor regularmente.
Essa ligação emocional à comida reflete-se também na forma como os relacionamentos começam e evoluem. Nos primeiros encontros, sete em cada dez portugueses escolhem um restaurante ou bar como local preferencial, mas à medida que a intimidade cresce, 32% preferem cozinhar juntos, transformando a cozinha num espaço de cumplicidade. Além disso, “conquistar pelo estômago” continua a ser relevante, mas hoje faz-se a quatro mãos. Entre os mais jovens (25–34 anos), quase 40% vão além de partilhar a refeição: querem também partilhar a experiência de cozinhar.
Se até agora a comida era uma forma de demonstrar cuidado e carinho, o que fazemos com ela também comunica — e, por vezes, afasta-nos de quem amamos. Gestos simples, como pedir para levar as sobras ou deixar comida no prato, começam a ser avaliados num contexto de dating. Isto porque, segundo Catarina Lucas, “no amor, mais do que aquilo que dizemos, importa aquilo que os nossos gestos comunicam, e as pessoas estão cada vez mais atentas às red flags de valores desencontrados com o seu par romântico”.
Para 74% dos portugueses, deixar comida no prato após um encontro é uma “red flag”, no entanto, levar sobras para casa ainda causa algum constrangimento. Cerca de 3 em 10 ainda evitam levar as sobras para casa por receio da perceção da outra pessoa. Os adultos entre os 35 e os 65 anos são os que mais hesitam, revelando que a pressão social muitas vezes ainda pesa mais do que a consciência contra o desperdício alimentar.
No entanto, entre os mais jovens, a sensibilidade é maior em relação a este tema. Evitar desperdício passa a ser encarado como uma “green flag”, um sinal positivo de responsabilidade, consciência e cuidado, tanto com a pessoa ao nosso lado como com o mundo à volta.
E por falar em pratos, conforto, prazer e partilha são as escolhas dos portugueses num encontro. Os pratos de carne lideram as preferências (38%), seguidos do sushi (26%), das sobremesas (17%), da pizza (17%) e do risotto (16%).
Porém, as gerações mais novas estão a deixar de lado os encontros formais e a optar por momentos mais orgânicos. Entre a Geração Z, cresce a tendência do “choremance”. Mais do que jantares formais ou encontros planeados, esta geração prefere momentos românticos que surgem no decorrer das tarefas do dia-a-dia, como passear o cão, ir às compras ou cozinhar juntos. Estes encontros privilegiam a autenticidade, a cumplicidade e o contacto natural, em vez da sofisticação ou formalidade.