Faz este mês seis anos que vivemos o início da pandemia de COVID-19, um período que transformou profundamente a forma como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos. Durante meses, o mundo ficou mais silencioso: escolas fechadas, parques vazios, abraços suspensos e famílias inteiras confinadas entre quatro paredes.
Para muitos adultos, foi um período difícil. Para muitas crianças, foi um período decisivo — especialmente para aquelas que, em 2020, estavam a dar os primeiros passos no desenvolvimento da comunicação. As crianças que hoje têm seis ou sete anos tinham então entre zero e dois, precisamente a fase mais sensível para a aquisição da linguagem, do vocabulário e da interação social.
Diana Moreira, Terapeuta da Fala
Segundo a terapeuta da fala Diana Moreira, é agora que começamos verdadeiramente a perceber o impacto desse período: “A linguagem nasce da relação. Desenvolve-se no olhar, no sorriso, nas conversas improvisadas, nas brincadeiras partilhadas e na interação constante com adultos e outras crianças. É nesse espaço de troca que o cérebro infantil aprende a compreender, a imitar sons, a construir palavras e a organizar frases”.
Durante os confinamentos, muitas crianças tiveram menos contacto com pares, educadores e contextos sociais diversificados. “A utilização prolongada de máscaras em ambientes educativos e sociais também limitou o acesso às pistas visuais da fala, como os movimentos dos lábios e as expressões faciais, que são importantes no processo de aprendizagem da comunicação”, explica Diana.
Se a linguagem se constrói na interação, a redução dessa interação pode tornar o desenvolvimento comunicativo mais vulnerável. Nos últimos anos, profissionais da área da intervenção precoce e da terapia da fala têm observado um aumento do número de crianças com fragilidades na linguagem oral.
Diana Moreira refere: “Algumas crianças apresentam também maior dificuldade em manter conversas, narrar acontecimentos ou participar em trocas comunicativas mais prolongadas. Em muitos casos, surgem desafios ao nível da atenção conjunta e da comunicação social — competências fundamentais para aprendizagens futuras. Este impacto começa agora a tornar-se mais visível, à medida que estas crianças chegam ao primeiro ano de escolaridade.”
Entre os aspetos mais observados, ainda antes da entrada no primeiro ano, estão o vocabulário menos diversificado, frases mais curtas ou menos estruturadas, dificuldades na articulação de alguns sons da fala, menor iniciativa comunicativa e dificuldade em manter conversas ou narrar acontecimentos.
A terapeuta da fala explica que aprender a ler e a escrever não começa no momento em que a criança pega num lápis ou abre um manual escolar. Começa muito antes, através da linguagem oral e da capacidade de reconhecer e manipular os sons da fala. Quando existem fragilidades nesse processo, podem surgir dificuldades em competências essenciais, como a consciência fonológica — a capacidade de identificar rimas, sílabas e sons nas palavras — e na associação entre sons e letras.
Crianças que não discriminam bem os sons da fala podem ter mais dificuldade em compreender como esses sons se transformam em letras e palavras escritas. Por isso, nesta geração de crianças, professores e terapeutas da fala começam a observar com maior frequência dificuldades na aprendizagem inicial da leitura, erros persistentes na escrita, confusão entre sons ou letras e uma leitura mais lenta ou pouco fluente. Muitas vezes, estas dificuldades vêm acompanhadas de frustração ou evitamento das tarefas escolares relacionadas com a linguagem.
“No entanto, importa sublinhar que cada criança tem o seu próprio ritmo de desenvolvimento e que o cérebro infantil possui uma extraordinária capacidade de adaptação. Com estímulo adequado, acompanhamento atento e intervenção precoce, quando necessário, muitas destas dificuldades podem ser ultrapassadas ou significativamente melhoradas”, reforça.
Entre alguns sinais de alerta que podem justificar uma avaliação especializada, destacam-se:
- Crianças que falam pouco para a idade;
- Dificuldade em construir frases completas;
- Pouca iniciativa comunicativa;
- Dificuldades na compreensão de instruções;
- Frustração frequente em situações de comunicação.
“Se há algo que a experiência da pandemia nos ensinou, é que o desenvolvimento infantil depende profundamente da relação humana. Caso situações semelhantes voltem a ocorrer no futuro, será fundamental garantir que, mesmo em contextos de maior isolamento, as crianças continuem expostas a experiências ricas de comunicação e interação”, realça Diana.
Segundo a terapeuta da fala, a linguagem não cresce sozinha. Cresce nas conversas à mesa, nas histórias antes de dormir, nas perguntas inesperadas das crianças, nas brincadeiras imaginárias e nos jogos que fazem as palavras circular.
“Conversar, contar histórias, brincar e escutar são gestos simples mas poderosos. São esses momentos que alimentam o vocabulário, a compreensão e a capacidade de expressão das crianças”, conclui.
Seis anos depois da pandemia, a principal lição talvez seja esta: a linguagem precisa de relação para florescer. E a boa notícia é que essa relação pode acontecer todos os dias, nos momentos mais simples da vida em família.