Vive a vida entre o 8 e o 80 — embora confesse andar mais pelo 80. Deu os primeiros passos no mundo da música aos oito anos, ao integrar um coro infantil chamado Pequenos Cantores da Maia. Aos 14 anos, inscreveu-se “na desportiva” no The Voice Kids, onde viria a tornar-se num grande sucesso e a encantar o público e a sua mentora, Carolina Deslandes, com uma voz inesquecível acompanhada da harpa. Depois do êxito do single de estreia Mais ou Menos Isto, Rita Rocha nunca mais parou: seguiram-se palcos prestigiantes e destaques com foco nos temas Outros Planos e A Miúda do 319, que dá título ao seu EP de estreia. No ano passado, lançou 8, a primeira parte do álbum de estreia 8 e 80, e prepara-se para revelar, amanhã, dia 25 de fevereiro, a segunda parte. A apresentação oficial será feita no dia 20 de março, no Coliseu do Porto, um grande marco na carreira da artista de 19 anos.
Começou muito nova no mundo da música. Como é que surgiu o gosto pela música?
Quando era mais pequenina, participei num coro infantil na Maia, que se chamava Pequenos Cantores da Maia. Na altura, fui para lá com 8 anos — aquilo era a minha vida. Tínhamos ensaio todos os sábados e o pior castigo que os meus pais me podiam dar era não me deixarem ir. Mesmo que estivesse a arder em febre, queria ir na mesma. Ir aos ensaios e aos espetáculos dos Pequenos Cantores da Maia era mesmo a minha coisa preferida no mundo. Entretanto, os meus pais inscreveram-me numa escola de música em Costa Cabral, a Academia de Música de Costa Cabral. E foi aí que comecei a aprofundar ainda mais o meu gosto pela música. Na escola, tive de experimentar todos os instrumentos, e foi aí que comecei a tocar harpa. Quando comecei a estudar música, apaixonei-me completamente por aquilo que ela me trazia. Era como se fosse o meu refúgio para tudo: cantar, escrever ou tocar. Acabou por se tornar muito mais profundo para mim nessa altura, se bem que sempre levei a música muito “na desportiva”, até à ida ao The Voice.

Quando é que começou a olhar para a música como o seu futuro profissional?
Foi, claramente, a seguir ao The Voice. Eu inscrevi-me “na desportiva” no programa e, entretanto, correu muito bem, e foi aí que comecei a levar as coisas de uma forma muito mais séria. Com a Carolina Deslandes a dizer: “Rita, estas músicas são tão boas”, “Estás a escrever músicas tão boas”, “Porque é que não lanças estas músicas?”. Nunca tinha olhado para as minhas músicas como algo que pudesse lançar. Aquilo, para mim, era mau. Era uma coisa que nunca ia acontecer — até ela me dizer para lançar.
Como foi crescer enquanto artista e, ao mesmo tempo, ainda estar a descobrir quem é?
Cresci enquanto isto também estava a acontecer na minha vida e confesso que houve uma dualidade muito grande entre o “eu” que queria fazer as coisas de adolescente e o “eu” que queria fazer as coisas que os meus amigos todos faziam, com aquilo que eu, de facto, podia fazer e as responsabilidades que vêm com isto da música, com tudo o que ela me traz.
É um processo um bocado difícil, às vezes, fazer esta gestão de quais são as minhas prioridades. Mas sinto que, no início, era ainda mais complicado, porque estava a descobrir-me e, ao mesmo tempo, já tinha de ter muita certeza de quem era, quando não tinha.
A pressão do público, de repente com os olhos em si, foi difícil?
Claro que sim. Acho que, com toda a exposição que o The Voice me deu e as expectativas que se criaram sobre mim, principalmente depois do programa e depois de ter lançado o Mais ou Menos Isto, que foi a minha primeira canção e correu super bem, senti muito aquela pressão de: “E agora, o que é que eu vou fazer?”. Senti-me logo super encaixotada, senti-me presa numa caixa.
Eu e muitas artistas, parece que fomos todas postas assim numa caixa e deram-nos um modelo. Acho que a minha sorte, no caso de toda esta pressão que senti, principalmente muito nova, foi o facto de ter pessoas muito boas comigo, que me ajudaram muito neste processo e que sempre abriram a porta para falar. Eu falo muito da Carolina porque ela, para mim, é tipo a minha “guru” máxima. E é, sem dúvida, a pessoa que é a minha maior conselheira em tudo na minha vida, principalmente neste meio em específico. Tive muita sorte com as pessoas que me calharam, no fundo.
Rita Rocha ao lado de Carolina Deslandes
Quando recorda a Rita de 2021, do The Voice Kids, e a compara com a Rita de agora, o que mais mudou?
Honestamente, o que mais mudou foi eu ter-me tornado uma pessoa muito mais segura do que era. No The Voice, na maioria das atuações, quando falava não olhava para as pessoas. Estava sempre a olhar para baixo. Era muito insegura, não sabia bem quem era.
Comecei por levar aquilo “na desportiva” e, depois, comecei a perceber, ao longo do processo, que se calhar aquilo podia ser algo mais sério. O The Voice e todo este processo ajudaram-me a tornar-me uma pessoa muito mais segura e muito mais decidida em relação àquilo que quero fazer. E, sem dúvida, foi isso que mais mudou.
Lidar com os comentários negativos ainda é difícil?
Lembro-me bem de sair do The Voice e ficar super afetada e super triste com os comentários negativos que recebia. Chorava. Agora, é-me indiferente. E isso vem, claramente, de eu ter crescido. Porque fui para o programa com 14 anos e agora tenho 19. Já aprendi a lidar com isso.
Sente que é essa maturidade e essa confiança que a fazem manter-se fiel a si própria neste meio?
Sem dúvida. Quando lancei o meu primeiro projeto, que, graças a Deus, correu super bem, sinto que se criaram expectativas de eu vir a ser aquilo para sempre, porque as pessoas gostavam de me ver ali. E eu senti-me, quase na altura, obrigada a fazer aquele tipo de música e a ser aquela pessoa para sempre.
Neste novo disco, fiz 90 canções. E, nas primeiras canções que fiz, nota-se claramente que ainda estava muito com esse pensamento de “ah não, isso não é bem o que o meu primeiro projeto era”. Todas as canções semelhantes ao projeto antigo acabei por não as escolher, por muito que as adore também, porque sou uma pessoa diferente, estou a passar por coisas diferentes.
Estou claramente a explorar um pop diferente daquele que explorei no meu primeiro projeto. E, por muito que tenha feito essas 90 canções e 20 delas sejam parecidas, acabei por, propositadamente, não as pôr no projeto. Acabei por ser fiel a mim mesma e dizer: “Não, eu estou a crescer, esta é a nova fase da minha vida, então eu vou ser fiel a esta fase da minha vida”.
Capa do “8”, primeira parte do álbum de estreia
O seu álbum de estreia encontra-se dividido em dois, o 8 e o 80. De onde surgiu esta ideia?
Fiz, como estava a dizer, imensas canções para este disco e não encontrava um elo de ligação, porque tanto falava sobre uma relação má com a mãe de uma amiga minha, como falava sobre o amor e o desamor, ou falava sobre a ansiedade. Nesta tentativa de juntar tudo, lembrei-me de uma coisa que o meu pai me estava sempre a dizer no ano passado, que era: “Fogo, tu vais mesmo do 8 ao 80”.
Porque num momento estava a sorrir e, no outro, estava a chorar. Quando fiz este disco e estava a ouvir as canções, lembrei-me do que o meu pai me disse e percebi que este disco, claramente, ia do 8 ao 80. É um disco que remete para todas as emoções que nós, adolescentes, passamos.
Nós não sabemos o que é o 40. Nós não sabemos ser equilibrados quando estamos no pico das nossas emoções. Nós ou somos o 8 ou somos o 80. E, entretanto, este disco é um ano da minha vida em que eu fui do 8 ao 80.
O que é que é viver entre o 8 e o 80?
Viver entre o 8 e o 80 é uma loucura. Nós vivemos as coisas muito intensamente quando somos adolescentes. Sinto que acabamos por ser muito desequilibrados, até.
Estamos constantemente neste paralelo entre estarmos bem com uma coisa e, no segundo a seguir, essa mesma coisa já nos fazer toda a confusão do mundo. E parece que a nossa vida acabou e é tudo um drama gigante. É uma loucura, principalmente para as pessoas que estão à nossa volta.
Se o 8 corresponde à introspecção e o 80 a viver ao rubro, em que momento da vida diria ser mais 8 e mais 80?
Sinto que sou mais 8 a ser 80. Sinto que é muito fácil ter as minhas emoções a disparar. Diria que sou 80, maioritariamente, na minha vida. Quer na faculdade, quer na forma como lido com a música. Em tudo eu sou muito 80.
É quase desesperante querer que as coisas funcionem e que as coisas corram bem, e então as minhas emoções estão sempre lá em cima. Sou muito expressiva e quero muito as coisas. Diria que sou 8 com a minha família e com os meus amigos, por exemplo. Sou uma pessoa pacífica, relativizo sempre tudo e tento apaziguar as situações.
Sinto que é isso: nas minhas relações sou muito 8. Em tudo o que foge a relações, amizades, família, eu sou 80, completamente.

Há algum tema do álbum que goste mais?
Tenho uma música que se chama A Minha Cabeça, nesta primeira parte do disco. É uma música que eu sabia que, de todas as canções do disco, seria a que ia passar mais despercebida, mas é, sem dúvida, das minhas favoritas.
Primeiro, o processo criativo da canção foi absolutamente inacreditável. O meu produtor mandou-me um instrumental para o telemóvel e, não sei o que se passou, mas aquela canção foi a que me surgiu mais naturalmente de todas as canções do disco. Estava acabada de acordar, fiz a canção e, em 10 minutos, mandei-lha.
Ele adorou e acabou por ser uma das nossas preferidas, enquanto as outras nos demoraram muito mais tempo a fazer. Aquela foi muito natural para nós. Sinto que essa canção me diz muito, principalmente porque fala sobre os cenários que criamos na nossa cabeça quando, por exemplo, estamos apaixonadas.
Sinto que tenho imensas amigas a passar por isso, eu passei por isso. Sendo uma pessoa que pensa muito nas coisas, aquela canção diz-me muito. Além disso, ainda não tinha ouvido falar exatamente sobre este tema em específico. Fiquei muito contente de ter alcançado esse tema e de não ter ouvido ninguém falar exatamente sobre isto.
E da segunda parte do álbum, tem alguma música que se destaque?
Da segunda parte, a minha favorita é Mal Intencionado. Eu não consigo escrever canções no momento exato em que estou a passar pelas coisas. Quando estou mesmo no pico da emoção, tenho um bloqueio, porque tenho tantas coisas que quero dizer que aquilo fica uma salganhada.
Então, só consigo escrever as canções quando ultrapassei um bocadinho mais a situação e consigo ver com olhos de ver. E esta canção foi a única do disco que escrevi quando estava a passar pela situação.
Há dois anos, depois de ter tocado no Sol da Caparica, no dia a seguir estava rouquíssima, porque fiquei a ver os concertos de todos os artistas. Sei que escrevi a canção, gravei a canção rouca, e foi o único take. Nunca quis regravar, porque acho que é onde a minha voz está mais bonita.
É uma canção que fala muito de uma insegurança que tinha. Estava a conhecer uma pessoa e sentia que, como já tinha tido tantas pessoas mal-intencionadas na minha vida, parecia que já estava a pintar aquela pessoa como se ela também fosse assim. E é uma canção que fala sobre todas estas inseguranças de quando tu estás a conhecer uma pessoa e já vais traumatizada de outras situações.
As suas letras falam de emoções reais, da vulnerabilidade e da força das relações. Onde vai buscar inspiração?
A minha inspiração vem de todo o lado. Tenho imenso para dizer sobre a minha vida, mas também gosto de me distanciar, às vezes, porque se pode tornar um bocadinho repetitivo.
Gosto muito de falar sobre a vida das minhas amigas, por exemplo. Tenho uma canção no álbum que fala sobre a relação de uma amiga minha com a mãe, que não é a melhor relação do mundo. Já fiz canções baseadas em filmes, como Amigos com Benefícios, baseada no filme Friends with Benefits. Vou buscar inspiração a tudo o que conseguir.
Está prestes a pisar o palco do Coliseu do Porto, um marco enorme na sua carreira. O que sentiu quando soube que este concerto ia acontecer?
Quando me perguntavam: “Qual é o sítio onde mais queres tocar? Qual é o teu palco de sonho?”, eu dizia sempre: o Coliseu. E, na altura, até me perguntavam: “Então tu estás a pedir para te perguntarmos o teu sonho e tu não dizes o MEO Arena?”. E eu ficava assim: “Vamos ter calma. O meu primeiro sonho e o meu primeiro grande objetivo é o Coliseu. Se me perguntarem depois do Coliseu, se calhar vou dizer outra coisa”.
O Coliseu, para mim, não é só o palco mais emblemático do nosso país, como me fez sentir de uma forma que nunca senti quando fui lá tocar com a Carolina. Aquilo parece mítico. Faz-me sentir, arrepia-me.
E, quando soube que nós tínhamos a possibilidade de fazer o Coliseu, fiquei histérica, chorei. Porque, de facto, é um objetivo muito grande. E é um privilégio gigante poder pisar um palco desses numa fase tão breve da minha carreira. E, com isso, vem também um grande sentido de responsabilidade.
Estou a tentar preparar o melhor espetáculo que posso para apresentar no Coliseu. E não podia estar mais feliz por alcançar este marco na minha vida.

O que é que o público vai sentir neste espetáculo de dia 20 de março?
O meu objetivo com este espetáculo é mesmo ser uma apresentação do disco. Ou seja, quero que o público vá do 8 ao 80. E vou dividir este espetáculo em duas partes: a parte 8, que vai ser a parte inicial, e o 80, que vai ser a parte do meio para o fim.
Quero mesmo que as pessoas consigam passar por tudo, que consigam sentir-se tristes, chorar comigo, e, logo a seguir, que se consigam pôr de pé, tirar o pezinho do chão, que consigam rir-se à gargalhada. Quero mesmo que isto seja um concerto em que as pessoas saiam de lá e digam: “Isto foi mesmo do 8 ao 80”.
Quero que as pessoas consigam experienciar tudo e, para isso, os meus convidados também vão ser super importantes. Já anunciei a Carolina Deslandes e o Pedro Abrunhosa, mas ainda vou anunciar mais e estou super ansiosa.
Já fez algumas colaborações com outros artistas. Com quem gostavas de colaborar?
Já disse isto muitas vezes, mas eu amo Os Quatro e Meia. Por isso, adorava fazer uma canção com eles. E, assim, uma pessoa super irrealista, que nunca vai acontecer, seria o Slow J. Sou muito fã do trabalho dele e adorava.
Paralelamente à música, estuda Medicina na universidade. Como é que concilia estas duas paixões?
Eu não vou mentir, está a ser um caos. É muito difícil conciliar isto tudo. Sinto que tenho duas coisas que me ajudam muito.
A primeira é ser muito organizada. Na altura em que aconteceu tudo, já estava a estudar para os exames, para ver se entrava em Medicina, e estava a fazer música de uma forma muito séria, e sinto que aprendi a ser muito organizada. A minha vida está cronometrada ao segundo e fico confusa quando a minha agenda está mais desocupada.
Depois, em segundo, a minha família ajuda-me muito. Sempre que podem, são os primeiros a dizer: “Se não consegues fazer isto aqui, delega em mim, delega-me aquilo que não precisas de ser tu, obrigatoriamente, a fazer”. São os primeiros a fazer as viagens comigo e a ajudarem-me a tirar alguma pressão de cima.
E, depois, uma coisa que ajuda nesta conciliação e que me ajuda na vida em geral é: a partir do momento em que tu queres muito uma coisa — neste caso, duas coisas —, tu fazes para acontecer. Se tu queres muito, consegues ganhar tempo. E, como quero muito a música e quero, ao mesmo tempo, ter ali o meu plano B, que adoro, super assegurado, vou conseguir.
E porquê medicina?
Acho que nunca me imaginei a fazer mais nada. Não sabia bem o que queria ser dentro da Medicina, mas sei que, de alguma forma, era a coisa que mais me puxava. Principalmente a área da medicina estética. Na minha cabeça, aquilo acabava por ser a parte mais artística da Medicina.
Que sonhos estão por concretizar nos próximos anos?
Um sonho que quero muito concretizar, e em que estamos a trabalhar, é um EP com vários artistas pequeninos, internacionais. É uma coisa que quero fazer há muito tempo. Principalmente porque sinto que, de toda a gente, sou a primeira a conhecer aqueles artistas que estão a começar. Por exemplo, lembro-me de ouvir a Gracie Abrams quando ela ainda não era tão conhecida. Gosto imenso de descobrir estes artistas pequeninos e queria muito fazer um projeto em que pudesse reunir vários artistas de que sou fã, num só projeto. É um grande objetivo que tenho.
Mas o meu maior objetivo é, um dia, ser mentora do The Voice. Adorava poder contribuir da forma que contribuíram comigo.



