Eduarda Dias cresceu num ambiente onde o vinho, mais do que um produto, era presença à mesa, partilha e ligação entre pessoas. Neta dos fundadores do Empório Casa dos Frios, pioneiro na promoção de vinhos de qualidade no Nordeste do Brasil, e filha de Licínio Dias, pioneiro na importação e distribuição de vinhos no Brasil, sabia desde cedo que o seu futuro estaria ligado a este setor. Formada em Ciência Política e Relações Internacionais, trabalhou na empresa da família, Épice, antes de se instalar em Portugal em 2007. Em 2005, numa altura em que a Bairrada enfrentava descrédito e a casta Baga era considerada difícil, rústica e pouco consensual, fundou com o marido Luís Patrão a Vadio Wines. O projeto familiar, iniciado numa parcela de meio hectare no Vale D. Pedro, celebrou em 2025 os seus 20 anos, com forte vocação exportadora e crescimento notável no mercado português.
A Eduarda Dias é…
Sou mãe, filha, irmã e esposa. Uma pessoa que gosta muito de estar com a família e com os amigos, de receber pessoas em casa, de viajar, de comer bem e de beber bons vinhos.
Sou também co-fundadora do Vadio, um projeto familiar que construí com o meu marido, Luís Patrão. Nasci em Pernambuco, no Brasil, sou neta de um beirão de Lafões e vivo em Portugal desde 2007.
Descrevo-me como uma pessoa muito ligada às pessoas, às origens e aos detalhes. Sou também bastante determinada. Quando acredito numa ideia ou num projeto, vou até ao fim e faço acontecer. No Vadio isso reflete-se muito no meu dia a dia. Faço um pouco de tudo, acompanho a gestão, a comunicação e as relações comerciais, procurando garantir que cada decisão respeita aquilo que somos, um pequeno projeto familiar com enorme dedicação à Bairrada.
Eduarda Dias
Quando se começou a apaixonar pelo mundo dos vinhos?
O vinho sempre fez parte da minha vida. Cresci num ambiente onde o vinho não era apenas um produto, mas presença à mesa, partilha e ligação entre pessoas. Os meus avós fundaram o Empório Casa dos Frios, pioneiro na promoção de vinhos de qualidade no Nordeste do Brasil, e foi aí que comecei a perceber a importância da origem e do trabalho por trás de cada garrafa.
Mas foi também através do meu pai, Licínio Dias, que essa ligação se tornou ainda mais profunda. Ele foi um pioneiro na importação e distribuição de vinhos no Brasil e cresci a vê-lo receber enólogos e produtores de todo o mundo. Participar nesses momentos marcou-me muito. Aprendi, sobretudo com o exemplo dele, a importância do lado comercial do vinho, a dedicação ao trabalho e, acima de tudo, o valor das relações.
O meu pai sempre prezou muito a relação que construía com clientes e parceiros. Tinha um dom especial para promover e construir marcas, mas fazia-o com verdade, proximidade e visão de longo prazo. Foi e continua a ser uma grande inspiração para mim.
Como foi o seu percurso profissional?
A minha formação é em Ciência Política e Relações Internacionais, uma base que utilizo muito no dia a dia. Acredito que a política está presente em todos os setores da nossa vida e tem um impacto direto na forma como os negócios se constroem e evoluem. Essa visão ajuda-me a interpretar contextos e a compreender melhor o mundo em que trabalhamos.
Trabalhei também na empresa da minha família no Brasil, a Épice, uma importadora e distribuidora de vinhos, onde tive contacto com o vinho do ponto de vista comercial e com a construção de relações entre produtores, marcas e mercados.
Mas a minha maior escola foi o próprio percurso no Vadio. Em 2025, o Vadio completou 20 anos e, desde o início, teve uma forte vocação exportadora. Viajar, apresentar os nossos vinhos e construir relações em diferentes mercados foi sempre uma parte muito importante do meu trabalho.
Esse contacto com produtores, profissionais da gastronomia, distribuidores e lojas especializadas ajudou-me a construir o conhecimento e a confiança que tenho hoje para representar e promover os nossos vinhos. Foi um percurso feito de relações, escuta e aprendizagem contínua.
Eduarda Dias com o marido Luís Patrão
Como nasceu o Vadio Wines?
O Vadio nasceu em 2005, a partir de uma pequena parcela familiar de meio hectare e do propósito muito claro de trabalhar a Baga de uma forma diferente. Numa altura em que a Bairrada estava bastante desacreditada e a própria Baga era vista como uma casta difícil, rústica e pouco consensual, decidimos acreditar no seu potencial de elegância, frescura e longevidade.
Grande parte desse trabalho começou na vinha. Percebemos que, para alcançar melhores maturações e maior equilíbrio, era essencial intervir ao nível da viticultura. Alterámos o sistema de poda tradicional da região, optando pelo cordão unilateral com copas mais altas, o que permite melhor ventilação, melhor exposição solar, menores produções e maturações fenólicas mais consistentes.
Paralelamente, evoluímos para uma abordagem de viticultura regenerativa, com foco na saúde do solo, biodiversidade, compostagem própria, coberturas vegetais e respeito profundo pelo ecossistema.
Que desafios enfrentaram inicialmente?
O maior desafio, curiosamente, foi promover os vinhos em Portugal. Quando viajávamos e apresentávamos a Baga fora do país, havia muitas vezes curiosidade e abertura para descobrir algo novo. Em Portugal, no início, era mais difícil contrariar a perceção negativa que existia em relação à região e à casta.
Felizmente, esse cenário mudou. A Baga é hoje cada vez mais reconhecida como uma das grandes castas portuguesas e, com muito orgulho, o mercado onde mais crescemos atualmente é Portugal.
Fazemos também parte do grupo Baga Friends, um coletivo de produtores que promove e celebra esta casta. O Dia Internacional da Baga acontece sempre no primeiro sábado de maio. Este ano será celebrado no dia 2 de maio, com portas abertas nas adegas — um momento muito importante para reforçar a imagem, a qualidade e a identidade da região junto do público.
Que papel desempenha na empresa?
Coordeno o dia a dia da empresa, desde a gestão à comunicação e relação com mercados. Sendo um projeto familiar, todos fazemos um pouco de tudo, mas cabe-me garantir que a visão se mantém coerente e que cada detalhe reflete o cuidado que colocamos na vinha e na adega.
Nos últimos anos, tenho-me dedicado com especial carinho ao Clube Perpetuum. Criámo-lo como uma forma de aproximar o nosso pequeno projeto familiar das pessoas que bebem os nossos vinhos e acompanham o nosso percurso.
O que é este Clube Perpetuum?
Mais do que um clube de vinhos, é um espaço de encontro. Organizamos momentos especiais na adega, provas, almoços e experiências que nos permitem partilhar o vinho de forma mais próxima. Para mim, criar esses momentos é muito especial, porque nos permite construir relações verdadeiras com quem gosta do Vadio e vive o projeto connosco.
O que distingue os vinhos Vadio — e a vossa filosofia — dos restantes produtores da Bairrada?
A nossa abordagem começa na vinha. Trabalhamos exclusivamente no Vale D. Pedro, em solos argilo-calcários, com foco na viticultura regenerativa. Acreditamos que grandes vinhos nascem de vinhas vivas. Compostagem própria, biodiversidade, dry farming, uso de infusões naturais e respeito absoluto pelo ecossistema fazem parte do nosso dia a dia.
Temos também um grande foco na forma como conduzimos a vinha. Na Bairrada, o sistema de poda tradicional permite produções muito elevadas e muitas vezes não favorece a melhor exposição solar das uvas. No nosso caso, optámos por trabalhar a Baga em cordão unilateral com copas mais altas. Este sistema permite reduzir naturalmente a produção, melhorar a ventilação da planta e garantir maior exposição solar dos cachos, o que contribui para maturações mais equilibradas e uvas mais saudáveis.
Trabalhamos apenas com castas autóctones da região, com especial foco na Baga, uma casta pela qual temos uma enorme paixão e na qual acreditamos profundamente.
Depois, há a obsessão pelo detalhe e pela identidade de cada parcela. Cada vinho tem um propósito claro. Procuramos elegância, frescura, tensão e capacidade de envelhecimento. E adotámos também práticas conscientes, como o uso de garrafas leves, reduzindo a nossa pegada ecológica.

Qual é o vinho da Vadio de que mais se orgulha? Porquê?
O Espumante Perpetuum ocupa um lugar muito especial. Iniciado em 2007, pelo método Solera, representa a nossa visão de continuidade e respeito pelo tempo. É um vinho que integra várias colheitas e que traduz bem a nossa filosofia: paciência, consistência e profundidade. Mas também sinto que o Vadio Tinto expressa de forma muito clara o caráter atlântico da Bairrada e a elegância da Baga que procuramos.
Para si, o que faz um bom vinho?
Um bom vinho é aquele que tem identidade e verdade. Que reflete o lugar de onde vem, que respeita o tempo e que emociona. Pode ser simples ou complexo, mas precisa de ter equilíbrio, frescura e coerência.
Com que vinho brindaria a um momento especial da vida?
Brindaria com o Perpetuum. Porque simboliza continuidade, memória e construção ao longo do tempo. Para mim, os momentos especiais têm sempre essa dimensão de percurso.
Enquanto mulher, sente que alguma vez a trataram de forma diferente nesta área profissional?
Claro que, como mulher, no vinho ou em qualquer outra área, existem sempre algumas barreiras. Mas sinto que tive o privilégio de crescer rodeada de exemplos muito fortes de mulheres que nunca viram isso como um obstáculo.
Na minha família tive grandes referências. A minha avó, Fernanda Dias, que hoje com 92 anos continua todos os dias na Casa dos Frios, a receber clientes, a vender vinho e a partilhar aquilo que sabe. É uma figura extremamente respeitada no setor gastronómico no Brasil. A minha mãe, Márcia Dias, também sempre foi um grande exemplo de dedicação ao trabalho, mas com um enorme equilíbrio com a vida familiar. Sempre colocou a família muito presente, sem nunca deixar de lado a sua realização profissional.
No mundo do vinho também tive referências importantes. Um exemplo é a Jancis Robinson, que hoje é provavelmente a crítica de vinhos mais respeitada do mundo. Lembro-me de, ainda muito jovem, lhe ter escrito um e-mail sem qualquer expectativa de resposta. Ela não me conhecia de lado nenhum nem conhecia o projeto, e respondeu-me poucos minutos depois. Esse gesto marcou-me muito e mostrou-me um enorme profissionalismo. O mais impressionante é que, passados tantos anos, continua a manter exatamente essa postura.
Felizmente hoje existem cada vez mais mulheres muito bem-sucedidas no mundo do vinho. Aliás, muitos dos projetos que mais admiro atualmente em Portugal são liderados por mulheres, o que mostra bem a competência e a força que temos neste setor.
Considera que Portugal consegue oferecer vinhos de qualidade a um preço competitivo?
Sem dúvida. Portugal tem uma diversidade incrível de castas, regiões e estilos, e oferece vinhos com uma excelente relação qualidade-preço em praticamente todos os segmentos.
Mas acredito que estamos também num momento importante de mudança. Durante muitos anos, Portugal foi muito vendido lá fora sobretudo pelo preço, como um país onde se encontram bons vinhos a preços mais baixos. Embora isso seja uma realidade, penso que o próximo passo é valorizar cada vez mais Portugal pela qualidade extraordinária que tem.
Hoje temos vinhos que estão claramente entre os melhores do mundo, e o nosso trabalho vai muito nesse sentido: ajudar a contar essa história, tanto em Portugal como nos mercados internacionais. É importante que Portugal deixe de ser visto apenas como um país de vinhos acessíveis e passe a ser reconhecido pelo valor e pela qualidade dos seus vinhos.
Regiões como a Bairrada mostram bem esse potencial. Com solos argilo-calcários, um clima atlântico fresco e uma casta tão singular como a Baga, existe aqui uma identidade muito forte. É precisamente essa autenticidade e diferenciação que precisamos saber comunicar e valorizar, para que os vinhos portugueses sejam reconhecidos não apenas pelo preço, mas pela sua identidade e qualidade.
Quais são, para si, os principais desafios atuais do setor vitivinícola português?
As alterações climáticas, a necessidade de maior sustentabilidade real e não apenas comunicada, a valorização do produto e a consolidação de marca nos mercados internacionais. Precisamos de continuar a investir em identidade e diferenciação.
Portugal ainda tem caminho a percorrer na sua reputação internacional? O que tem de mudar?
Tem evoluído muito, mas ainda existe uma perceção de país de bom valor e não necessariamente de grande vinho. É preciso comunicar melhor as nossas castas autóctones, os terroirs e a história. E trabalhar de forma mais estratégica enquanto país.

É difícil atrair e fidelizar consumidores mais jovens? Como se pode conquistar esse público?
Os consumidores mais jovens procuram autenticidade e propósito. Precisamos de comunicar de forma transparente, aproximar o vinho de momentos descontraídos e mostrar que pode fazer parte do quotidiano, sem formalismos excessivos.
Que vinho recomendaria a quem está a começar a descobrir este universo?
Recomendaria o Vadio Branco ou o Espumante Rosé. São vinhos frescos, elegantes, com boa acidez e muito versáteis à mesa. Mostram bem o perfil da Bairrada sem intimidar quem está a começar.
Que sonhos estão ainda gostaria de concretizar neste mundo do vinho?
Tenho uma convicção muito grande de que a Bairrada e a Baga têm todo o potencial para estar entre as grandes regiões vitivinícolas do mundo. Ao longo dos últimos anos já vimos uma evolução muito grande, mas acredito que ainda há um caminho importante a percorrer para comunicar melhor essa identidade e esse valor.
Nesse sentido, o trabalho coletivo tem sido fundamental. Um exemplo disso é o grupo Baga Friends, um conjunto de oito produtores da região que se juntaram com o objetivo de promover a Baga e mostrar a diversidade e a qualidade que esta casta pode expressar na Bairrada. Fazem parte deste grupo produtores como Luís Pato, Filipa Pato, Niepoort, Quinta das Bágeiras, Quinta da Vacariça, Vadio, Sidónio de Sousa e Giz. Através de provas conjuntas, eventos e iniciativas como o Dia Internacional da Baga, temos procurado mostrar ao mundo o enorme potencial desta casta e desta região.
Acredito muito que este tipo de trabalho conjunto é essencial. É preciso que todos tenhamos um objetivo comum: valorizar a região, trabalhar com as castas autóctones, respeitar aquilo que é autêntico e continuar a elevar a qualidade dos vinhos que produzimos.
Tenho mesmo a convicção de que a Bairrada, em algum momento, estará entre as grandes regiões do mundo e que os seus vinhos serão cada vez mais reconhecidos e valorizados. Gostava muito de ver isso acontecer ainda em vida, não sei se será já nesta geração ou na próxima, mas acredito que estamos a trabalhar nesse caminho.
Para isso, é essencial continuarmos a evoluir nas práticas de viticultura, aprofundar abordagens mais sustentáveis e regenerativas e manter sempre o foco naquilo que é mais importante: produzir uvas de grande qualidade. É esse o ponto de partida para tudo. E, se conseguirmos trabalhar com esse espírito coletivo e com essa ambição, acredito que a Bairrada tem um futuro extraordinário pela frente.


