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Portugal Fashion: entre a herança e a próxima geração

Durante muitos anos, o Portugal Fashion foi, para mim, um lugar de trabalho. Regressar agora, também na qualidade de media partner da LuxWoman, permitiu-me olhar para o evento com outra perspetiva.

Durante muitos anos, o Portugal Fashion foi, para mim, um lugar de trabalho. Enquanto compradora internacional e, mais tarde, consultora de negócios de moda, foi também a partir daqui que observava coleções, avaliava marcas e procurava perceber quais tinham maturidade suficiente para chegar aos mercados internacionais.

Regressar agora, também na qualidade de media partner da LuxWoman, permitiu-me olhar para o evento com outra perspetiva. Menos operacional, mais analítica. Menos centrada na compra e mais focada naquilo que um calendário de moda efetivamente representa para um país.

Portugal Fashion Experience, M-ODU, Porto, julho 2026

Segundo nota de imprensa da organização Associação Nacional dos Jovens Empresários – ANJE,  a pretensão para esta edição prendia-se com o “afirmar a moda portuguesa enquanto ecossistema vivo, contemporâneo e internacional, desenhando um mapa de criação, indústria, inovação e lifestyle, no qual designers, marcas, jovens talentos, compradores, imprensa, parceiros, indústria, start-ups, especialistas e convidados nacionais e internacionais, se tornam a unir numa semana de moda portuguesa, que extravasa o próprio projeto, consolidando-se estrategicamente como uma plataforma de comunicação, negócio e inovação, capaz de ligar criadores, indústria, comunidade criativa e mercados internacionais”.

Apresentado entre 1 e 4 de julho, a Luxwoman testemunhou os dias 3 e 4 desta edição do Portugal Fashion Experience.

Após uma incursão por Paços de Ferreira, Ílhavo e Matosinhos, durante estes dois dias, o evento regressou ao Porto, ao antigo matadouro, agora denominado M-ODU, realizando desfiles e apresentações na plataforma principal, onde se integraram nomes consagrados, marcas emergentes, projetos do Portugal Fashion Incubator e Portuguese Shoes, este último uma apresentação de calçado português.

Algumas dos nomes fazem parte da memória coletiva da moda portuguesa. Outros, como o franco-português De Pino, radicado em Paris, ou a marca de autor Malteza fundada por Joana Maltez, deram os primeiros passos nesta plataforma. E, talvez seja precisamente essa convivência que melhor define a atual fase do Portugal Fashion.

Apresentação De Pino, Portugal Fashion Experience, Porto, julho 2026.

Hoje, o calendário já não parece dividir apenas “nomes consagrados” e “novos talentos”. Pelo contrário, procura construir uma narrativa onde ambos coexistem, permitindo que a experiência dos primeiros valorize a chegada dos segundos e que a energia das novas gerações mantenha o evento relevante.

Entre as marcas que mais despertaram a minha atenção destaco a Malteza. O projeto, fundado por uma antiga aluna do Modatex, estreia-se no Portugal Fashion depois de desenvolver uma identidade própria entre os Países Baixos e Portugal. A marca representa uma realidade cada vez mais frequente: criativos que escolhem viver, comunicar ou comercializar a partir de diferentes geografias, mas que continuam a reconhecer no “made in Portugal” uma vantagem competitiva.

Desfile Malteza, Portugal Fashion Experience, Porto, julho 2026.

Enquanto consultora, encontro neste tipo de projetos uma tendência particularmente interessante. O talento tornou-se global, mas a produção portuguesa continua a ser um dos argumentos mais sólidos para construir marcas com credibilidade internacional.

Depois de treze anos a viver e trabalhar no Médio Oriente, é inevitável olhar para a participação da Daneh, marca saudita sediada no Dubai, além da coleção apresentada. Vejo nela uma oportunidade de aproximação entre dois ecossistemas criativos que, apesar da distância geográfica, podem beneficiar mutuamente.

Desfile da marca saudita Daneh, Portugal Fashion Experience, Porto, julho 2026.

O Golfo tem vindo a afirmar-se como um mercado cada vez mais sofisticado para a moda, investindo fortemente em criatividade, cultura e luxo. Portugal, por sua vez, dispõe de conhecimento industrial, capacidade produtiva e um património criativo reconhecido. Sempre acreditei que existem mais pontos de encontro entre estas duas realidades do que normalmente imaginamos.

Ernest W. Baker merece uma referência. A instalação apresentada recordou-nos que a construção de uma marca contemporânea vai muito além do desfile tradicional.

Apresentação Ernest W. Baker, Portugal Fashion Experience, Porto, julho 2026.

Num momento em que tantas etiquetas competem pela atenção do consumidor, criar universo, linguagem visual e consistência tornou-se tão importante quanto desenhar uma coleção. E poucas marcas portuguesas têm conseguido afirmar uma identidade internacional tão reconhecível.

Naturalmente, houve espaço para rever nomes cuja consistência conheço há vários anos.

Pé de Chumbo continua fiel à sofisticação que caracteriza o seu percurso.

Desfile Pé de Chumbo, Portugal Fashion Experience, Porto, julho 2026.

Susana Bettencourt mantém a capacidade de transformar inovação têxtil em linguagem criativa própria com as suas malhas.

Desfile Susana Bettencourt, Portugal Fashion Experience, Porto, julho 2026.

Miguel Vieira voltou a demonstrar porque permanece uma das referências da moda nacional, apresentando uma coleção segura, coerente e tecnicamente muito bem conseguida.

Desfile Miguel Vieira, Portugal Fashion Experience, Porto, julho 2026.

Já a estreia, no evento, da A Line evidencia uma abordagem mais comercial, aproximando-se de um consumidor contemporâneo que procura moda utilizável sem abdicar de identidade. Identidade essa é agora conduzida pelas mãos de Diogo Miranda.

Estreia da marca A Line no Portugal Fashion Experience, Porto, julho 2026.

No final destes dois dias fiquei com a sensação de que o Portugal Fashion está, ele próprio, em processo de transformação. Talvez seja esse o maior desafio de qualquer semana de moda na atualidade: continuar a celebrar a criatividade sem perder de vista a sustentabilidade económica das marcas, a internacionalização e a necessidade de atrair novos públicos corroborando, efetivamente, a nota de imprensa da ANJE:  “a moda continua a ser o ponto de partida, mas o programa expande-se para uma leitura mais ampla do setor, onde entram o território, a tecnologia, a sustentabilidade, o pensamento crítico, a gastronomia, a hospitalidade, o turismo e a cultura”.

Mais do que escrutinar coleções, interessa perceber que indústria queremos construir nos próximos anos.

Se o Portugal Fashion conseguir continuar a ser um espaço onde convivem experiência, inovação, produção nacional e abertura internacional, então estará não apenas a apresentar coleções, mas também a desenhar o futuro da moda portuguesa.

Esta foi sim uma edição que materializou os objetivos adiantados na referida nota de imprensa, a saber, incluir momentos especiais e formatos pensados para ampliar a relação entre criadores, convidados, imprensa e público profissional, reforçando a capacidade do Portugal Fashion de cruzar criação, indústria, produto e projeção internacional”,  justificando que, ao longo da história, o evento tem vindo a eleger “localizações emblemáticas, industriais, culturais e patrimoniais como parte integrante da sua linguagem”.

Até à próxima edição Portugal Fashion Experience (M-ODU, Porto, julho 2026).


Elsa Dionísio

-Contactos-

Site de Consultoria de Moda

Linkedin: Elsa Dionísio

Instagram: @elsadionisio

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