A pele do doente oncológico fica mais sensível, seca e reativa em fase de tratamentos. Contudo, manter a pele saudável é um passo importante não só para o bem-estar, mas também para garantir o sucesso do próprio tratamento. Sabia que o cuidado da pele pode ser determinante para se poder ou não levar um tratamento até ao fim? Contudo, este é frequentemente um cuidado descurado porque muitos não sabem que o mesmo pode ser interrompido se existirem efeitos adversos graves na pele.
Para quem sempre gostou de cuidar da sua pele, esta altura pode ser desafiante, porque os produtos favoritos deixam de funcionar e já não se adequam. Aqui, o desafio passa por descobrir que produtos poderá usar nesta nova fase da vida de forma a manter os seus hábitos de autocuidado. Para quem nunca teve este hábito e se vê a par com esta tarefa, a dificuldade por vezes é saber por onde começar e o que usar.
Por isso, deixo algumas regras de ouro para o autocuidado com a pele, para todas e todos aqueles que estão a passar ou já passaram por um processo oncológico:
1) Não ferir a pele:
- Secar a pele com uma toalha suave, em leves batidas, sem esfregar;
- Dormir em lençóis de materiais naturais;
- Usar roupa larga, de fibras naturais, com poucas costuras ou etiquetas;
- Reduzir a utilização de cosméticos abrasivos como exfoliantes, ácidos ou retinóides. Uma exfoliação suave nalgumas peles poderá fazer sentido, mas apenas se não provocar vermelhidão ou irritação.
2) Reforçar nutrição:
- Lavar a pele com óleo ou creme de banho nutritivos formulados para pele sensível ou atópica;
- Para prevenir a secura extrema, o doente oncológico deve apostar ainda em cremes reparadores para corpo e rosto.
- Caso os tratamentos provoquem crises acneiformes, é aconselhável optar por cuidados da pele com fórmulas suaves, mas que preservem o microbioma.
4) Atenção às gengivas, couro cabeludo e zonas íntimas:
- Apesar de não estarem visíveis, estas zonas ficam mais sensíveis e merecem cuidados especiais. No caso das gengivas, é fundamental reduzir o impacto da escovagem e os efeitos secundários como sangramentos e inflamação através do uso de uma pasta ou colutório que cuidem das gengivas.
- Para o couro cabeludo, quando o cabelo cai, este fica mais exposto e deve ser tratado com os mesmos cuidados que são usados no corpo. Quando existe cabelo, recomendo o uso de um champô transparente e calmante, para não interferir com os tratamentos e reduzir os efeitos secundários.
- A zona íntima também é tipicamente afetada durante os tratamentos. Fica mais seca e irritada e embora não seja necessário um cuidado específico, pode usar-se um cuidado nutritivo sem fragrância e adequado para pele sensível ou um cuidado íntimo hidratante, para se evitar a secura vaginal.
3) Cuidado com o sol:
- Mesmo sem estar exposto diretamente ao sol, é fundamental usar protetor solar diariamente para evitar a radiação que é pró-inflamatória e cancerígena. Na hora da escolha, é fundamental obter um aconselhamento profissional para que o produto seja o mais adequado para as necessidades reais da pele.
4) Evitar fragrâncias e produtos naturais:
- As fragrâncias e os produtos caseiros podem irritar a pele e desencadear alergias. Além disso, os aromas podem provocar náuseas, agravando a sensação de enjoo típica desta fase. A escolha de produtos para pele atópica ou sensível, já salvaguardam estes cuidados.
Sejam quais forem as necessidades, o essencial é descomplicar e procurar aconselhamento especializado. É fundamental ainda perceber que cada caso é um caso e todos os processos devem ser geridos com cautela.
Além de serem um bom aliado na gestão dos efeitos adversos, a aplicação dos cosméticos incute uma rotina favorável à auto-estima e uma sensação de regresso à normalidade. Pequenos passos que fazem uma diferença gigante, quer para o corpo, quer para a mente.
Ana Alexandre Oliveira
Formada em farmácia e especialista em cosmética na Care to Beauty
