Com a simpatia que lhe parece ser traço característico e um sorriso constante no rosto, Caroline dos Reis Biazin — mais conhecida por Carol Biazin — chegou aos escritórios da Universal Music Portugal, em Lisboa, por volta das 16h30 da passada quinta-feira. Rodeada pela sua equipa, cumprimentou calorosamente todos os que se juntaram para a receber. Alguns rostos já lhe eram familiares: tinha-os conhecido aquando da sua primeira vinda a Portugal, no ano anterior. Minutos depois, numa sala de reuniões, a nossa conversa começou.
Como é que a música entrou na sua vida?
Acho que tinha 8 anos. Lembro-me de ter crescido num ambiente com muita música, apesar de não termos musicistas na família. O meu avô tinha sempre o rádio ligado com aquelas músicas antigas e eu ficava a ouvir com ele. Os meus brinquedos eram guitarras de brincar. Então, tive alguém que me empurrou, na infância. Recordo-me de que, desde pequena, dizia que queria ser cantora, apesar de nem saber como é que aquilo se fazia. Aos 8 anos, comecei a aprender a tocar guitarra. Pedi à minha mãe, disse-lhe que queria tocar um instrumento. Ela achava que era uma coisa passageira, de criança. Mas não passou [risos]. Continuei nas aulas até aos 13 anos.
Recorda-se da primeira vez que cantou?
A primeira vez que me apresentei devia ter uns 9/10 anos. Foi num recital na minha cidade, no interior do Brasil. Foi a primeira vez que senti o que é cantar e ver as pessoas a aplaudir. Não era suposto cantar nesse recital, mas durante a aula o meu professor não conseguiu ouvir a música que eu queria tocar naquele dia – a internet não estava a funcionar. Era uma música que passava numa novela, muito antiga. Então, ele pediu-me para cantar a música e tirou os acordes. Porém, ficou muito surpreendido e chamou os outros professores da escola para me ouvirem cantar. Depois disso, disse-me para cantar essa música no recital. Fiquei nervosa, porque tinha de conseguir cantar e tocar ao mesmo tempo. Lembro-me de estudar dia e noite para conseguir fazer boa figura. No recital, tive de cantar para mais ou menos 500 pessoas. Estavam lá os pais de todos os alunos, mais convidados. Até a minha mãe ficou surpreendida.
Porquê a surpresa?
A minha mãe trabalhava muito e chegava a casa mais tarde. Eu ficava com o meu irmão mais velho e era ele que ia acompanhando. Então, quando os meus pais me viram cantar daquela forma no recital, ficaram em choque. Foi nessa altura que ganhei a minha primeira guitarra. Antes, praticava com a do meu vizinho — ele emprestou-ma.
Foi depois desse recital que soube que queria seguir a carreira de cantora?
No recital, quando vi as pessoas a aplaudirem-me e a apoiarem-me, fiquei com uma vontade de voltar a sentir aquilo. Então, fui fazendo vários recitais, até não dar mais. Comecei também a participar em alguns festivais mais pequenos na minha cidade. Num desses festivais, quando eu tinha 14/15 anos, havia um concurso em que um dos prémios era gravar uma música autoral. Só que, nessa altura, ainda estava muito voltada para o sertanejo, um género musical muito consumido no interior. Apesar de ter nascido lá, eu não tinha esse apreço — hoje é diferente, já tenho muito mais, aprendi a entender essas raízes. Eu queria fazer outras coisas, queria ser diferente. Quando ganhei esse concurso, quem ia produzir era uma dupla sertaneja, o Cleber e o Fernando. Eles acabaram por me apoiar imenso, fizemos mais músicas juntos e até gravámos um concerto meu em DVD. Distribuí panfletos pela minha cidade, o meu pai ajudou, e todas as pessoas que convidei apareceram por lá. As minhas amigas apareceram a cantar as músicas que eu já tinha lançado. Teve imenso significado para mim. Foi o meu primeiro contacto profissional com a música.

Frequentar uma universidade de música fez parte dos planos?
Dos 18 para os 19 anos, mudei-me para Curitiba para ir para a universidade. Esse foi outro grande dilema na minha vida, porque não sabia o que queria seguir. No início, não queria seguir nada relacionado com a música, porque sabia que não ia ser fácil. Além disso, via os outros a desistirem dos seus sonhos, e isso não era muito encorajador. Mas, no final das contas, eu queria fazer alguma coisa que me tirasse da minha cidade, porque sabia que era pequena demais para mim. A minha mãe chamou-me à razão, disse-me que eu devia seguir alguma coisa que quisesse fazer. Acabei por aceitar o meu destino e inscrevi-me numa universidade de música. Frequentei durante dois anos, até 2017.
Foi por essa altura que entrou no The Voice Brasil?
O The Voice Brasil foi, assim, um meteoro que entrou na minha vida. Eu não estava à espera — inscrevi-me, fiz a audição e passei. Eu já tinha feito várias audições para o programa e nunca me tinham chamado. Acho que esta tinha sido a minha quarta. Os meus amigos insistiram comigo, faltava uma semana para encerrarem as inscrições e eu mandei um vídeo. Tinha gravado vários covers para o YouTube e aproveitei para mandar um desses. Fui chamada para fazer a audição e tive de ir até São Paulo. Apanhei um autocarro com a minha mãe, ela acompanhou-me. Fiz a audição, mas não criei grandes expectativas. Até que, passado pouco tempo, recebi um e-mail para ir para o Rio de Janeiro fazer as provas cegas. Eu fui, mas estava sempre a tentar não criar esperanças. A minha mãe estava super entusiasmada — para ela, eu já tinha ganho [risos]. No Rio de Janeiro, foi incrível, conheci vários participantes e pude falar com várias pessoas que estavam ali na mesma situação que eu. Acho que nunca tinha visto tanta gente que partilhasse o mesmo sonho. Eu passei nas provas cegas, os quatro viraram as cadeiras. E eu escolhi a equipa da Ivete Sangalo.
Porquê a Ivete?
Foi o primeiro ano dela no The Voice, achei que me ia dar sorte. Além disso, tinha muita admiração por ela.
Apesar de teres sido uma das finalistas, não ganhaste o programa. Querias ter ganho?
Ao longo do programa, tentei sempre não criar expectativas. Quando cheguei à final, disse à minha mãe que não sabia se queria ganhar, que tinha medo. Acho que havia um peso em cima dos vencedores do programa. Então, disse à minha família (e não só) para não votarem em mim [risos]. Quando anunciaram o vencedor — e eu soube que tinha ficado em segundo lugar —, fiquei aliviada. Não estava pronta para ganhar.
E depois do programa, como seguiste no mundo da música?
Continuei a fazer as minhas coisas no YouTube. Já tinha alguns contactos da Universal, por causa do The Voice, mas ainda não era nada concreto. Acabei por ficar mais algum tempo em Curitiba e fui conhecendo algumas pessoas dentro do meio. Fui entender mais sobre composição e mergulhei mais nesse lado autoral. Foi nessa altura que me mudei para São Paulo, para casa de uma prima. Nessa altura, já tinha um contacto da Head Media — que hoje em dia também trabalha comigo e é o selo da Universal —, eles estavam muito no início. Assinavam nomes como o Jão ou o Vitão e trouxeram-me para a roda. Começámos a fazer coisas juntos. Lancei o meu primeiro EP e as músicas começaram a chegar a várias pessoas. Porém, o ponto de viragem foi quando atuei em São Paulo para três mil pessoas. Foi a primeira vez que tive um concerto esgotado. Reparei aí que já não estava no mesmo lugar.
“No Escuro, Quem É Você?” é o nome do seu terceiro álbum de estúdio. Quais foram as inspirações para este projeto que une batidas dançantes com letras profundas?
Acho que isso foi algo muito consciente. Quando nos sentámos para pensar no projeto, eu disse que queria trazer algo que fosse muito sentido, mas que, ao mesmo tempo, tivesse nuances. Porque isso foi sempre algo que gostei de trazer para o meu trabalho. Queria criar um álbum que fosse uma espécie de roda-gigante e trouxesse vários altos e baixos. Neste projeto, começámos a estudar isso, começámos a testar. Não nos sentámos para ouvir referências, fomos buscá-las às nossas vivências. E, ao mesmo tempo, um dos produtores, o Donato, trouxe muitas visões mais atuais para o projeto. Ele começou a mostrar-me e fiquei entusiasmada. Fomos experimentando e testando. A cada música íamos tentando entender o que era preciso, que sentimento queríamos passar. Para mim, é muito sensorial.
Que mensagem queria passar?
Fiz este álbum a pensar em despertar nas pessoas a vontade de viver. Queria que ouvissem e tivessem vontade de arriscar, de se “jogarem no mundo”. Mesmo que, em algumas músicas, me coloque nessa posição de medo ou receio, ainda quero viver as coisas. É essa a sensação que queria passar para as pessoas. Também queria partilhar um pouco do meu ponto de vista em relação ao amor. Falo muito sobre amor no álbum. Falo sobre amores leves e coisas que não são rasas.
Como assim, “coisas que não são rasas”?
Comecei a observar os meus fãs nos concertos. E, quando falavam comigo depois, vi que não estavam ali para ouvir qualquer coisa. Querem entender a vida deles, onde estão, querem respostas. No fundo, somos iguais. Acho que percebi isso quando lancei a música “Ligações de Alma”, com o Baco Exu do Blues. A música teve imenso sucesso. Senti que me conectei ainda mais com o público quando falei sobre as coisas, quando aprofundei. Decidi aí que este álbum ia ser assim também: verdadeiro.
Capa do Álbum “No Escuro, Quem É Você?”
O álbum foi dividido em duas partes — “No Escuro” e “No Escuro, Quem É Você?” —, porquê?
Decidimos fazer o álbum dividido em duas partes, porque, na parte um, a ideia era trazer esse sentimento de uma menina que estava muito perdida ainda, sem entender muito por onde estava a ir — tanto que a capa do álbum sou eu a correr no meio do nada. Acho que o futuro é isso, no final das contas, porque não fazemos ideia do que vai acontecer a seguir. Essa ansiedade estava sempre comigo: não saber o dia de amanhã, não saber para onde ir, não saber se ia dar certo. E a primeira parte do álbum fala disso, expõe o que estava a sentir e a perguntar-me. O mais engraçado é que este álbum acompanhou as diferentes fases da minha vida. Na segunda parte, quando fui ouvir algumas músicas que já tinha escrito, percebi que já não me sentia daquela forma. Já via a luz ao fundo do túnel. Que merecia viver um amor leve, estar perto da minha família, trabalhar e conciliar as minhas vontades e desejos.
Quais são as suas músicas favoritas do álbum?
Há duas músicas que me tocam especialmente. Uma delas é “Bagunça”. Nesta música, falo sobre encontrar alguém no meio do caos. Acho que, hoje em dia, o mundo está cheio de informação, cheio de muitas vontades, mas poucas ações. Depois, uma que me surpreendeu foi “Amor Traumatizando”. Até hoje, acho que foi uma das minhas melhores letras. As pessoas conectaram-se com a música — ela é muito direta. Porém, fiquei surpreendida porque é uma música experimental, em que temos um beat de trap com harmonias de pop e r&b, e eu estou a cantar com uma voz doce. Até então, foi a minha música a solo mais ouvida.
Já colaborou com o artista português David Carreira. Com que outros nomes da música portuguesa gostaria de fazer uma música?
Gosto imenso do Bispo — acho que as letras dele são muito potentes —, do Ivandro, do Diogo Piçarra, da Bárbara Bandeira… há muitos. Também estou a gostar imenso das músicas dos Napa. Conheci recentemente a música “Deslocado” e fui ouvir outras músicas.
Em Portugal, pela segunda vez, atuou em Águeda, no Festival MEO Marés Vivas, e esgotou o Monsanto Open Air. Sentiu-se acarinhada por cá?
Tenho visto isso nos concertos que tenho feito. Sempre vi comentários nas minhas publicações a pedirem para vir a Portugal, mas achava que eram brasileiros que moravam cá. Mas descobri que não — que eram mesmo portugueses. Vi isso quando muita gente, depois dos concertos, me pediu para tirar fotos. Além disso, quando anunciámos as datas dos concertos, fiquei muito surpreendida quando o concerto de Lisboa esgotou.
Carol Biazin atuou em Águeda no dia 16 de julho
O que está ainda por conquistar? Como vê o seu futuro?
Quero lançar feats com artistas portugueses. Quero, antes de partir para um próximo projeto, absorver histórias e viver a minha vida pessoal. Quero conseguir conciliar estes dois mundos — pessoal e profissional — para ter mais bagagem para conseguir fazer um novo álbum. Mas o meu maior objetivo é conseguir dar concertos em sítios, principalmente naqueles em que ainda não fui. Há muitos sítios no Brasil onde ainda não consegui fazer concertos. No final das contas, estou a aproveitar.



