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Não adianta acelerar quando a vida quer que a gente pare

Para é um dever. Quem nos disso lembra é a psicóloga Sara Ferreira, num artigo de opinião, hoje com a revista Luxwoman, em banca. Leia abaixo a versão integral.

A tensão e ansiedade nos dias que correm são pólvora no nosso sistema de disparo, de alerta, autênticas balas de canhão que nos impelem a marchar, marchar, porém, fazendo-nos esquecer de uma arma (secreta) chamada saber parar

Parar para pensar. Parar para sentir. Para ver e não mais ‘desver’. E com isso resgatar o fio de uma conexão interrompida à central de cada um(a).

São em momentos acasos de desprazer que os olhos ficam mais límpidos. Aqui não fingimos não ver, pois a solução do problema passa por encarar a realidade. A dor, com tudo o que traz de desagradável – e talvez exatamente por isso –, parece fazer-nos desacelerar… Há um detalhe que pouco nos damos conta: a alienação emocional que alimentamos em forma de pressa e a hiperestimulação sobrecarrega a nossa perceção. Então, o descompasso causado por uma ameaça ou perda emocional desacelera bruscamente o ritmo maluco a que nos impomos.

Sim, saber parar também é Saúde Mental. E, justamente por não sabermos parar, sofremos todos os efeitos colaterais do parar sem desejar parar. Isto significa que é importante aprendermos a saborear as pausas necessárias que por vezes a vida nos pede, voltando-nos sem medo (e antes com curiosidade) para a nossa interioridade, desfrutando das sensações positivas que essa postura pode trazer-nos. Porque uma vida desequilibrada, na maioria dos casos, leva ao adoecimento.

A dor escancara os nossos condicionamentos, os nossos padrões destrutivos, em última instância, é uma denúncia manifesta de uma interioridade que foi sendo depauperada pelo empobrecimento afetivo geral dos dias que nos escorrem. Por exemplo, a “esquiva medicamentosa” ocorre nos casos em que a pessoa, fugindo da dor que poderia ser enfrentada em “penosos”, a seu ver, processos psicoterapêuticos, opta, cansada, apenas pelo – não raras vezes – precipitado, artificial e imaturo caminho da química farmacológica.

Na minha prática clínica, em consultório, o que eu vejo é que uma das razões para muitas pessoas se terem agarrado durante anos a fio à ideia de que as suas depressões ou ansiedades eram “apenas” o resultado de algo errado com os seus cérebros, era para não terem que pensar sobre isso. No entanto, tenho encontrado uma infinidade de evidências científicas de que a depressão e a ansiedade não são causadas na nossa cabeça, mas pela forma como muitos de nós estão a viver ou pela forma como fomos criados. Se formos analisar os dados dos estudos epidemiológicos acerca das possíveis causas da depressão ou ansiedade, e olhando para os números que são reunidos, podemos ter uma certeza: os traumas de infância fizeram com que o risco de depressão ou ansiedade na fase adulta explodisse.

Sim, existem fatores biológicos reais, como os seus genes, que podem fazer com que você seja significativamente mais sensível a essas causas, mas não são os principais condutores (a epigenética está aí para comprovar-nos isso).

E todas estas coisas levam-me à evidência científica de que precisamos tentar solucionar as nossas crises de depressão e de ansiedade de uma forma muito diferente (além de remédios antidepressivos, que obviamente, e em certas situações e alturas, devem ser opções a considerar).

Estes têm sido tempos de muito luto, de muita perda, de muito medo, de muita tensão. Sem querer demonizar o uso de medicamentos, nem quem encontra alívio no seu uso, não podemos negar que eles dão conta de tratar as “consequências” de determinado tipo de vivências. É claro que para uma série de quadros clínicos, recorrermos à medicação pode ser sem dúvida um mais-valia, contando que isso signifique sobretudo o alavancar ou o reestruturar das condições minimamente necessárias, ou pelo menos mais favoráveis, para uma empreitada psicoterapêutica a montante, tal como sabemos, pela clara evidência científica, ser esta a abordagem terapêutica (combinada) que melhores resultados traz no tratamento e acompanhamento de um infindável número de questões que podem afectar a nossa saúde mental.

Sabe qual é a maior ilusão humana? A ilusão do controlo. E esse é um dos motivos pelos quais ficamos tão incomodado(a)s por parar: parar aguça, calibra, afina o nosso olhar. Parar é como que desvestir-se, desnudar-se das fantasias com que nos auto-enganamos enquanto nos movimentamos (e estar em movimento não é o mesmo que estar em ação), frenética e automaticamente. Parar é benção, assim como o silêncio é prece e o auto-conhecimento é a bússola para toda a orientação. Antes parado(a)s, a aprender alguma coisa, do que eternamente perdido(a)s e a andar em círculos, inconscientes.

Não se iluda: não adianta acelerar quando a vida quer que a gente pare. Querida leitora, a dor é lupa. Então, aproveite-a e examine. Seja “médica” de si mesma, “psicóloga” de si mesma e, depois, despida de ilusões, pele na pele com a sua alma, seja arquiteta, engenheira e decoradora de interiores de si própria. Quem sabe, aí finalmente, você terá a sua casa arrumada, acolhedora e aconchegante para mais visitas ao coração?

Tirando as ilusões, o que sobra é a realidade: aquilo que poucas pessoas estão dispostas a ver. Exatamente aquilo que, mais cedo ou mais tarde, nos encontra nos sintomas, nos leitos de hospital, nos consultórios médicos, nas esquadras ou nas esquinas da vida. Quem cuida da mente cuida da vida. E só uma mente desperta, que sabe parar, será capaz de compreender que “viver” é mais que “ter”, que “crescer” é mais que “acumular”, que “evoluir” não é “enriquecer” e que “amar” não é “possuir”. Para além disso, face a situações de vida mais desafiantes, em que a nossa perceção de controlo fique diminuída e em que de alguma maneira nos sintamos ameaçado(a)s, é natural que surja uma resposta de medo mais intensa e que os nossos níveis de stress cresçam a olhos vistos. Sermos capazes de regular essa intensidade é essencial e para isso precisamos (re)assumir a liderança do nosso corpo. A fatura de não o fazermos pode ser demasiado elevada (sistema imunitário debilitado, tensão arterial elevada, alterações gastrointestinais, insónia, exaustão física e psíquica, ataques de pânico, compulsão ou processos aditivos, taquicardia ou outros problemas cardíacos, entre outras possibilidades).

Você, que está desse lado, precisa ganhar perspetiva sobre a mente pré-ocupada e criar espaço para desacelerar ao longo do dia, para se permitir e focar-se no momento presente. Esta tem-se revelado uma estratégia simples mas muitíssimo poderosa na contenção de níveis elevados de stress. Quando nos conectamos à nossa mente e ao nosso corpo no presente, fazendo da respiração uma âncora, temos muito mais possibilidade de encontrar soluções, de encarar o que nos rodeia por outra perspetiva. Após alguns minutos de uma prática regular, este trabalho de (re)centramento permite-nos sentir mais aliviados e conseguimos pensar com clareza novamente.

Vamos a um exercício prático.

Esta é uma prática que pode introduzir no seu dia-a-dia para ganhar espaço entre os estímulos que surgem e a sua resposta: S T O P

S – Stop. Pare por uns instantes. Interrompa o que está a fazer.

T – Traga-se ao presente, respirando. Inspire pelo nariz e deite o dobro do ar pela boca.

O – Observe o que está presente. Identifique pensamentos, dê nome às emoções, explore as suas sensações físicas.

P – Priorize uma ação produtiva que o ajude a regular as suas emoções.

A sobrecarga que as pessoas sentem não vem do peso das suas vidas e atribuições, mas da necessidade onipotente de querer carregar cargas que não são suas de pessoas que não estão muito preocupadas em fazer a sua parte na construção de um mundo melhor. Para conseguir sustentar o avanço e o crescimento, faz-se necessária a pausa. É através dela que nos permitimos refletir sobre o sentido do que estamos a desenvolver e sobre as necessidades envolvidas nessa movimentação. Com isso, passamos a entender que direção é muito mais importante do que a simples velocidade.

Assim, lembre-se sempre: não adianta acelerar quando a vida quer que a gente pare.

 

 

Sara Ferreira

facebook.com/apsicologasara

apsicologasara.com

 

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