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Psicologia da cor: o que o seu armário diz sobre si

Vestir uma cor com intenção tem pouco de vaidade e muito de estratégia. Ao conhecer as regras do jogo, será mais fácil jogá-lo a seu favor.

Todas as mulheres têm, no armário, um elenco de personagens. A camisa que nunca falha, o vermelho que só sai em ocasiões à altura e o cinzento discreto a que se recorre nos dias em que se quer passar despercebida. Vestir é, no fundo, decidir qual delas entra em cena. E os códigos visuais que usamos dizem quase tudo.

A imagem costuma ser tratada como um assunto menor, quase como uma camada de verniz que coloca à pressa antes de sair de casa. A verdade é mais sedutora. A forma como uma mulher é percebida nos primeiros segundos nasce de tudo aquilo que ela é: a identidade, o percurso, a reputação e a maneira como comunica. Contudo, a cor que escolhe vestir é a primeira a ser vista e, por isso, está sempre adiantada em relação às palavras. Vestir uma cor com intenção tem pouco de vaidade e muito de estratégia. Ao conhecer as regras do jogo, será mais fácil jogá-lo a seu favor.

O veredicto cai antes do argumento

Imagine a cena, digna de qualquer bom episódio: entra numa sala, uma entrevista, um primeiro encontro, o casamento de uma amiga, um evento da empresa e, antes de dizer uma única palavra, já foi avaliada da cabeça aos sapatos. Injusto? Talvez. Biológico? De certeza.

Investigadores da Universidade de Princeton mostraram que basta um décimo de segundo para o cérebro formar uma primeira impressão sobre confiança, competência e simpatia. Nesse intervalo, ninguém leu currículos nem ouviu argumentos. E o veredicto provisório já foi dado.

A cor entra à frente de quase tudo, porque o olho processa a cor antes da forma, do rosto ou do gesto. A boa notícia, e existe sempre uma, é que, se o juízo se forma tão depressa, também se pode gerir. Basta escolher a cor a pensar em quem a vai receber, e não no que estava mais à mão na hora de sair à pressa.

Cada cor fala em duas línguas

Cada cor diz duas coisas ao mesmo tempo e a elegância está em pô-las de acordo. É uma espécie de relação que só corre bem quando os dois lados se entendem.

A primeira língua é física, a conversa entre a cor e aquilo que a natureza deu a cada uma: a cor dos olhos, o tom do cabelo, o subtom da pele. Uma cor harmoniza com tudo isto ou entra em discussão, e o rosto, coitado, nunca sabe disfarçar. Aquele tom divino na montra, ou na amiga de pele dourada, pode dar a outra um ar de quem não dorme há uma série de dias. Por isso, não existem cores certas em absoluto, apenas cores certas para cada pessoa.

A segunda língua é emocional, o que a cor desperta em quem olha. O azul acalma, o vermelho acelera, o branco abre espaço, os tons quentes aproximam. Escolher uma cor é decidir a emoção que se quer instalar no outro antes da primeira frase.

A imagem fica resolvida quando as duas línguas dizem o mesmo. Acertar na emoção e falhar no rosto enfraquece a presença; acertar no rosto e trair a intenção desperdiça a noite. E, convenhamos, nada disto exige um guarda-roupa caro, exige juntar o que assenta bem com o que se quer provocar em quem recebe.

Cinco cores, cinco personagens

A psicologia da cor saiu há muito do território do palpite. Décadas de neurociência e de psicologia organizacional sustentam o que é essencial saber. E, se Carl Gustav Jung nos ensinou a reconhecer arquétipos, o armário também tem os seus. Cinco, para ser exata.

O azul é o de confiança, aquele com quem se constrói algo sério. Cor preferida de cerca de 45% das pessoas, segundo o maior estudo internacional de preferência cromática, acalma, e por isso veste há décadas a banca, os seguros e a consultoria. Em entrevistas, quem chega de azul é, de forma consistente, percebido como mais fiável. A cor para os dias em que precisa que confiem em si sem ter de o pedir.

O vermelho é o caso arrebatador. O primeiro que o cérebro processa, herança antiga ligada ao sangue, ao fogo, ao fruto maduro. Acelera o coração de quem o vê e aumenta, de forma mensurável, a perceção de poder e de presença. Não passa despercebido, e aí mora o fascínio e o risco. Na dose certa, eleva a sala. Em excesso, pode ser visto como agressivo. Reserva-se para as noites, e os dias, em que faz absoluta questão de ser lembrada.

O branco é a beleza de manutenção exigente. Reflete o espetro inteiro e traz as associações mais limpas de clareza, integridade e recomeço. Não disputa atenção com o rosto nem com a voz, e dá espaço ao outro para falar, é a cor de quem ouve antes de propor. Mas existe um senão evidente. Basta um café apanhado à pressa para virar toda a narrativa e passar de impecável a distraída.

O cinzento é o inteligente que dispensa holofotes. A cor que o cérebro processa com menos esforço, libertando a atenção de quem olha para aquilo que se diz. É das menos amadas nos testes de preferência e é precisamente essa discrição que o torna esperto. Reina onde o protagonismo deve pertencer a outra pessoa, de propósito. Veste-se quando se quer que brilhe a ideia, não a roupa.

Os neutros quentes, o camel, a areia, o toupeira, são o amor maduro, daqueles com história. Falam de estabilidade, segurança e percurso. Pedem um bom corte e comunicam o que dificilmente se finge, a história e o caminho já feito. A paleta de quem não tem nada a provar e tudo a confirmar. Dizem o que se construiu, sem levantar a voz.

Coerência não é vestir sempre igual

Existe um erro persistente de confundir coerência com uniformidade, como se ter estilo obrigasse a parecer sempre a mesma fotografia. Coerência é outra coisa, mais subtil. É a arte de ajustar a presença ao registo de cada cena sem deixar de ser a mesma protagonista.

Levar a mesma imagem e a mesma postura a uma reunião decisiva e a um brunch de domingo denuncia falta de leitura do contexto. Mudar por completo de um sítio para o outro perde a personagem pelo caminho e leva atrás a confiança que a consistência constrói. A elegância vive no meio-termo de adaptar, trocar de tom sem trocar de pessoa.

Uma nota de rigor (que distingue quem sabe)

Circula por todo o lado, sobretudo em formações e legendas inspiradoras, a famosa regra dos 7, 38 e 55. A ideia de que só 7% da comunicação seria verbal, 38% vocal e 55% corporal. Soa bem. Cabe numa legenda. Mas está mal contada.

Os números nasceram de dois estudos de Albert Mehrabian, psicólogo da Universidade da Califórnia, publicados em 1967, um com Morton Wiener e outro com Susan Ferris. Ambos olhavam apenas para a comunicação de sentimentos, em laboratório, com palavras soltas como “querida” ou “terrível”. Mehrabian somou os dois resultados e chegou à célebre proporção. Anos depois, no livro “Silent Messages”, fez questão de esclarecer que ela só se aplica quando se comunicam emoções e atitudes, e nunca à comunicação em geral.

A leitura honesta é menos glamorosa e bem mais útil. O que não se diz por palavras pesa muito, mas o quanto pesa depende sempre do contexto. E a cor é uma das peças mais imediatas, e mais esquecidas, desse jogo. Separar o que a ciência demonstra do que a internet popularizou é, por si só, um sinal de quem domina o assunto. É o que distingue a mulher que sabe daquela que reencaminha a frase bonita sem a confirmar.

Um guia para guardar (e passar a uma amiga)

Reduzido ao essencial, tudo cabe num gesto de escolher a emoção antes da cor.

Decidido o que se quer despertar, a cor quase se escolhe sozinha. Nos dias em que precisa que confiem em si, uma entrevista, uma proposta, uma conversa em que pede o que merece, o azul trabalha calado a seu favor.

Para marcar e ficar na memória, o vermelho faz o serviço, na dose certa e sem pedir desculpa.

Quando o mais inteligente é ouvir e dar palco ao outro, o branco e o cinzento abrem a sala sem a ocupar. Quando a ideia tem de brilhar mais do que a roupa, o cinzento é o melhor cúmplice. E nos dias de transmitir solidez e percurso sem o anunciar, os neutros quentes dizem tudo em voz baixa.

Falta a verificação de que a cor favorece o rosto, e não apenas a montra. A cor mais elogiada do mundo deixa de servir para apagar quem a veste. O espelho é honesto, a luz do provador, nem por isso. Faça esta verificação com luz natural.

Resta uma última nota, a que liga tudo o resto, a imagem que se mostra combina com a reputação já construída e com aquilo que se é, e não se negoceia. Uma imagem que promete o que a reputação depois não confirma não reforça nada. Expõe.

A imagem constrói-se na coerência entre o que se mostra, o que se diz e o que se faz, num dia decisivo ou num dia qualquer. É essa coerência, repetida ao longo do tempo, que decide se a primeira impressão joga a favor de uma mulher ou contra ela.

A gestão de marca pessoal é uma decisão tomada todos os dias, sobretudo nos dias em que ninguém está a ver.


Raquel Soares

CEO da Love People

Personal Branding & Image Consulting

Autora do livro “Personal Branding”

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