Já deu por si a aumentar o volume da televisão ou dos fones, mesmo no máximo, a ter dificuldades em acompanhar conversas num café animado, a perguntar vezes sem conta “O que disseste? Não percebi!” ou a não reconhecer sons familiares como a campainha? Estes são sinais de perda auditiva, alerta Ana Pedro, audiologista da Widex.
Geralmente, as pessoas demoram, em média, cerca de sete anos até tomarem medidas para resolver um problema de perda auditiva. Esta condição desenvolve-se de forma gradual e, muitas vezes, são as pessoas ao redor, como os parceiros, que notam e incentivam a procura de ajuda. Por vezes, esse incentivo não é visto com bons olhos, fruto da negação de um problema que não se quer enfrentar, e pode trazer problemas ao casal.
Porém, esta condição não está restrita a um nicho. Na verdade, a perda auditiva incapacitante é um problema global que afeta aproximadamente 466 milhões de pessoas e, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), cerca de 20% da população mundial vive com algum grau de perda auditiva e, até 2050, este número pode crescer significativamente.
Ana Pedro, audiologista da Widex, em entrevista
Segundo a OMS, cerca de 20% da população mundial vive com algum grau de perda auditiva e, até 2050, este número pode crescer significativamente. A que se deve este possível crescimento?
O crescimento do número de indivíduos com perda auditiva deve-se a hábitos auditivos cada vez mais comprometedores da saúde auditiva como, por exemplo, a exposição constante a ruído recreacional por parte da maioria da população entre os 12 e os 35 anos. Portanto, os jovens estão cada vez mais em risco de perda auditiva precoce.
Qual a faixa etária mais afetada?
A maior prevalência de perda auditiva no mundo é a faixa etária dos idosos, especificamente acima dos 60 anos. Estima-se que mais de 25% a 30% das pessoas nesta faixa etária sofram de perda auditiva incapacitante, taxa que aumenta significativamente com a idade. Desta forma, 60% das pessoas com 70 anos e 80% das pessoas com mais de 80 anos apresentam presbiacusia, a perda auditiva irreversível, decorrente do envelhecimento natural do sistema auditivo interno. Assim, o próprio aumento da esperança média de vida faz aumentar a percentagem de indivíduos surdos.
Contudo, só uma pequena parte destes indivíduos recorrem efetivamente à reabilitação auditiva, o que é um dado preocupante e que, como profissionais de saúde, temos como missão reverter esta tendência. Daqueles que avançam com um processo de reabilitação auditiva, 71% acreditam que deveriam ter começado a usar o seu aparelho auditivo mais cedo, uma vez que verificaram melhorias significativas na sua vida social, saúde mental e emocional e desempenho no trabalho, entre outros benefícios.
Porque é que as pessoas demoram tanto tempo até finalmente tomarem medidas para resolver um problema de perda auditiva?
A perda auditiva é tendencialmente progressiva e a audição não tem referências de normalidade no nosso dia-a-dia. Logo, só por comparação entre o que antes éramos capazes de ouvir e o que ouvimos agora, é que é possível estabelecer a autoconsciência de que há algo de errado. Muitas vezes quem se apercebe primeiro das diferenças antes e agora são os familiares e amigos de quem ouve mal. Desta forma, o primeiro atraso começa logo em colocar a hipótese que existe um problema.
Todavia, quando se começa a falar deste tema, mesmo entre as pessoas mais íntimas existe uma tendência para desvalorizar as queixas, tentando remeter o problema aos outros. É mais fácil acreditar que são os outros que falam baixo demais ou “para dentro”, que as colunas da palestra ou da missa não devem ser boas, que o telefone está estragado ou não tem rede, entre outras desculpas aparentemente plausíveis. Assim, nesta fase de negação perde-se muito tempo antes sequer de avançar para um diagnóstico.
Outro fator ainda está relacionado com o estigma de, se for identificada perda auditiva, ter de usar uma prótese auditiva. Há quem considere a prótese como sinal de envelhecimento. Já não ocorre essa associação com os óculos, e gradualmente está a ser quebrada também esta ideia nas próteses auditivas. Até porque estas são cada vez mais discretas esteticamente e mais práticas de utilizar com a generalização dos sistemas recarregáveis, aplicações no telemóvel para controlo do utilizador em tempo real e bluetooth integrado para streaming direto para chamadas, música e vídeos. Mas acima de tudo, as próteses estão cada vez mais evoluídas a nível da qualidade sonora, recorrendo a inputs de inteligência artificial para tornar o processador de som digital cada vez mais natural e dinâmico conforme o ambiente, o que transforma as primeiras adaptações num processo de reabilitação mais simples.
Contudo, a falta de clareza da informação que existe nesta área da reabilitação auditiva, com anúncios televisivos constantes misturando informação sobre amplificadores auditivos com aparelhos auditivos, contribui para uma desinformação e as vezes descredibilização do processo de reabilitação auditiva, o que também contribui para o atraso da procura de ajuda.
O atraso no diagnóstico pode ter um impacto profundo nas pessoas? Estamos a falar de que consequências?
Sim. Evidente que a profundidade do impacto está relacionada com a o tipo e grau de perda auditiva. A consequência mais primária é a segurança do próprio indivíduo. Ao não ouvir corretamente os sons pode, igualmente, pôr em causa a sua segurança, uma vez que pode não ser capaz de ouvir sinais de alarme, ou até mesmo o telefone ou telemóvel. Este é um dos fatores de preocupação mais recorrentes dos familiares.
No entanto, qualquer perda auditiva tem consequências diretamente na qualidade de vida (comunicacional, social e relacional), visto que a dificuldade de perceção da voz promove o isolamento, uma vez que necessita de maior concentração para ouvir e entender o que é dito e essa situação leva-o a sentir-se cansado e com dores de cabeça e, assim, a evitar esses ambientes de conversação. Também o facto de ter necessidade de pedir para repetir o que lhe é dito, o poderá levar a afastar-se de conversas ou mesmo jantares família e outros ambientes sociais.
Assim, sabemos que há um efeito negativo da perda de audição na memória auditiva, na memória operacional e nas capacidades cognitivas. Isto porque há uma relação significativa entre a perda de audição e o declínio de funções cognitivas – como a concentração e a memória – o que leva a um maior cansaço e a sentir-se mais distraído. Portanto, todas estas situações anteriormente descritas podem ser um ponto de partida para o declínio cognitivo.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico da perda auditiva é feito após a realização de uma bateria de testes audiológicos, nomeadamente a otoscopia (observação do canal auditivo externo), a audiometria tonal e a audiometria vocal. A audiometria consiste num exame realizado em cabine insonorizada, em que o indivíduo está dentro da cabine com fones respondendo ao audiologista. Na audiometria tonal, o paciente escuta sons de diferentes intensidades devendo assinalar sempre os que conseguir ouvir. É então realizado um traçado com os sons mais baixos que o indivíduo conseguiu detetar nas diferentes frequências de som, podendo o mesmo estar dentro da normalidade ou em algum grau de perda. Na audiometria vocal, o paciente repete as palavras que o audiologista diz também em diferentes intensidades, de modo a verificar a percentagem de palavras percebidas.
Poderão ser adicionados mais testes audiológicos para completar a informação do quadro audiológico e respetivo diagnóstico ou no caso de existirem outros sintomas associados como zumbidos ou tonturas.
Quais os sinais da perda auditiva que não devemos ignorar?
Existem vários sinais de que em geral nos leva a tomar consciência que poderá existir uma perda auditiva. São eles a necessidade de aumentar o volume da televisão ou dos fones; a dificuldade em acompanhar conversas em ambiente ruidoso; o aumento do número de repetições mesmo em ambiente silencioso; e não identificar ou localizar alguns sons do dia-a-dia como o telefone ou campainha tocar;
Contudo, cada um de nós tem um perfil auditivo específico e portanto, reconhecermos que as nossas referências acústicas anteriores já não estão iguais pode ser a pista mais relevante ou como referido anteriormente, esse reconhecimento comparativo ser feito pelo familiar/amigo mais próximo que nota que já não respondemos da mesma maneira a alguns estímulos de sons e fala.
Como é que a perda de audição pode afetar o casal?
A perda de audição torna qualquer tentativa de comunicação mais desafiante e a base de uma relação a dois saudável é uma boa comunicação. Assim, podemos dizer que o desafio será constante entre o casal, caso um dos membros tenha perda auditiva não reabilitada. Isto porque estar sempre a repetir a mesma informação, ter de alterar o tom de voz sempre que quer comunicar, ter de aceitar sons demasiados altos da televisão ou música, ter de ajudar a identificar o telefone a tocar ou outros sons do ambiente, ter de traduzir uma conversa de grupo ou de terceiros são situações tipo que desgastam muito o parceiro que ouve bem face ao que não ouve. Todavia, quando estão ambos a ouvir mal, as consequências usualmente serão piores, sendo que é difícil terem o mesmo grau de perda, pelo que existirá sempre um que faz mais esforço, apesar dos seus próprios recetores de informação também serem deficitários e gerar mais desentendimentos e perceções erradas do que foi dito.
Como é que o parceiro pode ajudar?
O parceiro deverá sempre promover a disponibilidade para repetir a informação, mesmo que seja mais do que uma vez. Parece algo simples, mas é desafiante no dia-a-dia conseguirmos ser pacientes de forma persistente.
A segunda dica é tentar moldar o tom de voz projetando-a sem a elevar demasiado, isto é, muitas vezes o repetir alto demais pode levar a uma captação mais difícil da fala, por fenómenos de distorção da fala nos sons altos, o que parece um contrassenso, mas é muito frequente. Por isso, o repetir devagar e falar sempre de frente para o parceiro são as técnicas mais eficazes para uma boa comunicação.
Outra noção importante é a gestão da expetativa do que o parceiro deverá ou não deverá ouvir, conforme o ambiente. Ou seja, se o parceiro não ouve bem na mesma divisão da casa, não podemos ter a expetativa de que ouvirá de um andar da casa para o outro e exigir-lhe isso. É preferível aproximarmo-nos, chamar o nome e só depois transmitir a mensagem, principalmente se identificarmos que está muito concentrado numa tarefa ou há ruído competitivo no ambiente.
Além destas dicas sobre formas de comunicar no dia-a-dia aplicáveis com ou sem ajudas, o parceiro é quem mais facilmente poderá promover o primeiro passo: o diagnóstico. É aconselhável realizar o diagnóstico completo com o médico otorrinolaringologista ou o despiste auditivo com o audiologista credenciado.
Quais os tratamentos disponíveis?
Dependendo do tipo de perda auditiva esta pode ser reversível ou irreversível. Caso se trate de uma perda auditiva, condutiva ou mista, esta pode ter causas reversíveis por tratamento de médico otorrinolaringologia e/ou cirurgia. Existem inúmeras causas possíveis e cada qual tem o seu tratamento específico. Por exemplo, as conhecidas otites (infeções de ouvido) são tratadas com medicação tópica ou oral mediante a localização da otite e podem também ter uma abordagem cirúrgica, colocando tubos transtimpânicos na membrana timpânica para uma drenagem constante do líquido acumulado no ouvido médio. Outras doenças como a otosclerose, em que ocorre a calcificação de um dos ossículos do ouvido médio, impedindo a passagem correta da vibração mecânica de um dos ossos do ouvido para o ouvido interno, pode ter indicação cirúrgica substituindo esse ossículo por uma prótese artificial.
Contudo, caso se trate de uma perda auditiva neurossensorial, as causas são irreversíveis, não sendo possível recuperar a perda auditiva. São nestas situações em que o especialista remete para um processo de reabilitação através de próteses ou implantes auditivos. A solução ideal é aquela que lhe garante uma audição o mais próxima possível do normal e a melhoria da sua qualidade de vida, logo esta deve ser estudada, conforme o exame audiométrico, características individuais e até exigências comunicacionais de cada pessoa. O processo de reabilitação em si é gradual e envolve a aprendizagem de novos sons que remetem a novos mapas mentais. Por isso, é muito importante o apoio dos familiares para ajudar na integração de todas as novas informações e incentivar o uso frequente. Também é importante salientar que a reabilitação auditiva é contínua, devendo ser realizadas consultas periódicas de manutenção do equipamento auditivo e atualização dos dados da audiometria para uma correção eficaz.
Existe algum tipo de prevenção? Que medidas podem e devem ser tomadas?
Qualquer pessoa a partir dos 30/35 anos entra num processo de envelhecimento onde as células do ouvido interno incorrem em morte celular irrecuperável. Sabendo que existem cerca de 20 mil células ciliadas em cada cóclea (ouvido interno), é matematicamente diferente apresentar um rácio de 1 célula morta em 20 mil ou 10 mil células mortas em 20 mil. Esse rácio e a velocidade da morte celular dependem de fatores genéticos, portanto, quem tem antecedentes familiares terá maior probabilidade de ter perda auditiva, e cardiovasculares, como a diabetes ou a hipertensão, que devem também ser tratados com um estilo de vida saudável.
Porém existem também fatores mais controláveis como a limitação da exposição a ruídos altos, tanto em tempo, idealmente menos de 1 hora consecutiva, como em intensidade, não sendo recomendada a exposição acima de 85 dB HL. Interessa também a forma do emissor de som alto, visto que se se tratar de uns fones de inserção no canal auditivo é mais prejudicial do que se for através de colunas, desde que respeite as duas cláusulas acima do tempo e intensidade.
Outro fator menos falado é o efeito positivo de nos expormos a sons de fala sem imagem visual, como ouvir podcasts ou ler em voz alta. A riqueza de estímulo de fala, mesmo que através da música, vai enriquecendo a nossa memória auditiva e ativando habilidades de processamento auditivo central, que podem ser muito úteis aquando o aparecimento de perda auditiva. Quem vive completamente no silêncio e sem interação social apresenta uma menor capacidade de adaptação a um futuro processo de reabilitação auditiva.



