O verão é provavelmente a estação do ano em que mais pessoas aumentam o stress oxidativo enquanto acreditam estar a ser mais saudáveis. Assim que chegam os dias de calor, começamos a passar mais tempo ao ar livre, a apanhar mais sol, a fazer mais atividade física e, para muitos, a viver mais momentos sociais. Tudo isto parece saudável à primeira vista, e em muitos aspetos até é. O problema é que raramente se fala sobre aquilo que está a acontecer dentro do organismo.
Como cientista, acredito que existe uma tendência para olharmos para o verão apenas pela lente da estética. Falamos sobre bronzeado, perda de peso, corpo de verão e dias de praia, mas esquecemo-nos que esta época do ano representa também um aumento significativo de stress fisiológico para o organismo. E um dos mecanismos mais importantes por trás desse fenómeno é o stress oxidativo.
Apesar de parecer um conceito complexo, o stress oxidativo é algo relativamente simples de entender. Todos os dias o nosso organismo produz radicais livres, moléculas instáveis que resultam do metabolismo normal do corpo. O problema surge quando a produção destas moléculas ultrapassa a capacidade do organismo para as neutralizar. Quando isso acontece, aumenta o risco de dano celular e de alterações em diversos processos biológicos fundamentais.
E durante o verão existem vários fatores que contribuem para isso. O mais evidente é a exposição solar. A radiação ultravioleta aumenta significativamente a produção de espécies reativas de oxigénio, promovendo aquilo que conhecemos como stress oxidativo. É precisamente por esse motivo que a exposição excessiva ao sol está associada ao envelhecimento precoce da pele. No entanto, reduzir este fenómeno apenas à questão estética é um erro. O impacto vai muito além das rugas ou manchas cutâneas.
O aumento do stress oxidativo influencia processos inflamatórios, recuperação muscular, função imunitária e até os níveis de energia. É uma das razões pelas quais muitas pessoas terminam um dia inteiro de praia com uma sensação de cansaço desproporcional à atividade física realizada. O organismo esteve horas a lidar com calor, radiação solar e desidratação, fatores que aumentam a carga fisiológica e exigem uma resposta constante dos seus mecanismos de defesa.
Mas o sol não é o único responsável. O verão traz também alterações profundas nas rotinas. Dormimos menos, viajamos mais, alteramos horários de refeição e, muitas vezes, aumentamos o consumo de álcool. Este último ponto é particularmente relevante porque continua a ser frequentemente ignorado. Quando o organismo metaboliza álcool, gera compostos que aumentam significativamente o stress oxidativo e a inflamação. Ou seja, quando combinamos dias inteiros de exposição solar com noites de menor recuperação e maior consumo de álcool, estamos a criar um cenário perfeito para aumentar a pressão sobre o organismo.
O curioso é que a maioria das pessoas nunca associa estes fatores ao seu estado de bem-estar. Limitam-se a sentir mais fadiga, menor capacidade de recuperação, menos energia ou até maior sensibilidade a infeções sem perceberem que existe uma base fisiológica comum por trás de muitos destes sintomas.
É precisamente neste contexto que a suplementação pode fazer sentido. Não como uma solução milagrosa nem como substituto de hábitos saudáveis, mas como uma ferramenta complementar. Na minha opinião, um dos maiores erros da indústria dos suplementos foi tentar vender a ideia de que uma cápsula resolve problemas criados por um estilo de vida desequilibrado. A realidade é exatamente a oposta. Quando existe uma boa base de alimentação, hidratação, sono e recuperação, determinados nutrientes e compostos com ação antioxidante podem ajudar o organismo a lidar melhor com períodos de maior exigência fisiológica, como acontece frequentemente durante o verão.
Isto significa que devemos evitar o verão? Claro que não. O verão tem inúmeros benefícios e o sol desempenha um papel importante na saúde física e mental quando existe equilíbrio. O problema não é o sol. O problema é a falta de consciência sobre o impacto cumulativo dos excessos.
Na minha opinião, precisamos de começar a olhar para o verão de uma forma mais inteligente. Proteger a pele é importante, mas proteger o organismo como um todo é ainda mais importante. Uma boa hidratação, uma alimentação rica em frutas e vegetais, um sono adequado, períodos de recuperação e uma gestão equilibrada dos excessos têm um impacto muito maior na saúde do que a maioria das pessoas imagina.
Durante anos, a indústria do bem-estar ensinou-nos a olhar para a saúde através daquilo que vemos ao espelho. Mas a verdadeira saúde acontece muito antes disso, ao nível celular. E é precisamente aí que o verão, apesar de todos os seus benefícios, merece mais respeito do que normalmente lhe damos.
Tiago Ferreira
Microbiologista, especialista em saúde e suplementos
Co-fundador e CEO da Suplendi
