Muitas vezes negligenciada, a questão da terapia da fala tem impacto profundo no desenvolvimento das crianças. Sem um diagnóstico real ou sem saberem o que se passa com as crianças, são muitos os pais que vivem na incerteza e na consequente dor. Gabriela Machado é terapeuta da fala e responsável pela clínica Desenhar Futuros, em Mondim de Basto. Com ela, falámos sobre a importância de um diagnóstico precoce.
Quais são os sinais de alerta? Quando devem os pais procurar um especialista?
Precisamos de desmistificar a ideia de que a terapia da fala serve apenas para “corrigir problemas”. A minha sugestão é que os pais a incluam nas rotinas de saúde, tal como fazem com a pediatria ou a medicina dentária. Numa avaliação preventiva, não olhamos só para a fala, avaliamos funções vitais, como a respiração, a mastigação e a alimentação (incluindo a amamentação).
No entanto, deixo alguns sinais de alerta que devem motivar uma consulta imediata:
- No primeiro ano: Dificuldades persistentes na amamentação ou na aceitação de novas texturas;
- Até aos 2 anos: Ausência de contacto visual, não apontar para o que quer ou usar menos de 50 palavras;
- Aos 3-4 anos: Fala difícil de entender por desconhecidos, trocas de vários sons ou respirar, habitualmente, pela boca;
- Idade escolar: Dificuldades na aprendizagem da leitura e escrita.
Intervir precocemente é o maior ato de cuidado. Às vezes, uma simples orientação aos pais sobre como estimular a criança em casa, é algo que muda todo o seu percurso de desenvolvimento. Em caso de dúvida, não devem hesitar e procurar um profissional.
O que diferencia uma ida à terapia da fala de uma dificuldade simples?
A grande diferença não está apenas na dificuldade, mas no impacto que ela tem no bem–estar da criança. Uma dificuldade simples faz parte do crescimento e acaba por passar, de forma subtil, na vida da criança. Uma necessidade terapêutica, prolonga-se no tempo, pode gerar frustração, isolamento ou um esforço invisível e excessivo. Devemos, por isso, estar atentos se uma troca na fala ou uma dificuldade na escrita persiste além da idade em que deveria estar maturada, devendo ser avaliada imediatamente. A criança, aos 3 anos, ainda troca sons na fala, mas, se isso a impede de ser compreendida pelos amigos e familiares, merece a nossa atenção. Se ela deixa de querer falar para não ser julgada, a dificuldade deixou de ser simples. Muitas vezes, a criança até consegue falar, ler ou comer, mas fá-lo com esforço e cansaço, e não é suposto. Diferenciar uma “fase” de um desafio real é um trabalho de equipa. Por isso, o olhar atento dos pais e professores/educadores e a valorização do seu instinto são o primeiro passo para uma intervenção precoce e de sucesso.
Que impactos tem a dificuldade da fala na vida escolar e social da criança?