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A raiva é uma oração (e eu aprendi a rezá-la em voz alta)

Descobri, com o tempo e com a clínica, que a linguagem cura. Que quando uma mulher se cala, o corpo fala — e adoece. Hoje escrevo sobre mim, sobre si, sobre todas nós: sobre a raiva, o silêncio e a coragem de voltar a ter voz antes que o fogo se torne febre

Um dia, quando me quis defender de alguns abusos que se insinuavam pelos corredores familiares, onde, por vezes, a violência vestia pantufas, chamaram-me ‘”nervosa”, “temperamental”, “resingona”, “difícil”, “de mau feitio”.

Especialmente naquele tempo, defender-me não foi uma escolha: foi instinto de sobrevivência. O que vivi, vindo de quem menos se esperava, foi de uma insensibilidade tão funda que quase me fez desabar. Eu era, então, uma ferida aberta com uma recém-nascida ao colo, tentar manter-me inteira — e ainda assim, foi de pé que decidi ficar.

E durante anos — no palco doméstico onde tive de ser sempre “madura” e aprendi a não incomodar — fui a boazinha, a pacificadora, a menina sempre alegre e sorridente, um ponto de luz e calor, a alma da casa. Tudo isso enquanto enterrava velhas dores que só um parto e o (re)nascer para a maternidade haveriam de trazer à tona.

Além do mais, a verdade é que durante anos temi ser essa mulher: a que fala alto, a que não abaixa a cabeça, a que diz “não” com voz firme. Até perceber que tentar ser o contrário disso quase me apagou.

Quando era mais nova, disseram-me que tinha “proa”, que sentia e falava “demais”. Que devia ter mais “jeitinho” nas palavras. Que as pessoas gostavam mais de quem “fiava (ou melhor, piava?) mais fino”. E eu, ingénua e educadinha e sempre muito atenta às dores e aos quereres dos outros, fui acreditando. Fui limando as arestas, domesticando o tom, anestesiando o corpo. Fui deixando de falar. E quanto menos falava, mais me afastava de mim.

Com o tempo e com a experiência clínica, percebi que a linguagem é o sistema imunitário da alma. Quando não comunicamos, adoecemos. Ensinaram-nos que a mulher boa é a que compreende sempre, a que cede, a que fala baixo e sorri enquanto engole o que lhe arde por dentro. E é assim que o fogo se torna febre.

A raiva que engolimos não desaparece — fermenta. Transforma-se em ansiedade, em exaustão, volta como depressão mascarada de “boa disposição forçada”.

E eu fiquei muito boa nisso: a enxugar lágrimas alheias enquanto as minhas nem chegavam a escorrer, sorrir quando queria chorar, calar quando precisava refutar, sair quando precisei proteger-me, respirar fundo quando era arrastada em confusões que não criei, parecer ponderada enquanto implodia em silêncio. Que alguém se interessasse por mim de verdade, perguntando como eu (realmente) estava, era raridade estelar.

Até que um dia percebi que não era eu que “andava nervosa”. Era o mundo daqueles que tinham aprendido a chamar “desequilíbrio” à raiva feminina.

Conveniente, não? Porque uma mulher com raiva é “perigosa”. E não porque vá partir alguma coisa — mas porque começa a ver as coisas com clareza. Porque reconhece, nomeia e denuncia as agressões. Porque confronta, enfrenta, faz frente ao que não é tão lindo e maravilhoso assim.

A raiva é um radar. Ela denuncia o que nos fere, o que nos ultrapassa, o que já não dá mais. É o sinal de que certos limites nossos foram violados. Mas fomos ensinadas a achar que o limite é feio. Que o amor é aceitar tudo. Que ser “madura” é respirar fundo e falar bonito — mesmo quando nos estão a pisar o pescoço com um sorriso.

E é assim que a passividade se mascara de virtude. Fizeram-nos acreditar que ser “equilibrada” é nunca perder o tom de voz. Que “comunicar bem” é não incomodar.

E enquanto nos pedem para manter a calma, continuam a gritar connosco — só que com maneiras. Fomos ensinadas a acreditar que a mulher boa é a que abdica de tudo, a que é quieta, a que perdoa depressa. E assim seguimos, aguentando. Aguentando chefes abusivos, famílias tóxicas, dinâmicas narcísicas de muito julgamento para pouca empatia, companheiros egoístas, amizades unilaterais. Aguentando até me abater.

Eu quase adoeci da minha docilidade. Da minha natural espontaneidade, da minha sucessória lisura. Fui dócil até me desintegrar. Fui demasiado simpática até ficar irreconhecivelmente cândida para mim própria. E descobri — a muito custo — que o verdadeiro equilíbrio é o que permite sentir tudo: o amor e o desamor, o perdão e o limite, a benquerença e o desalento, o afecto e a raiva.

A raiva é uma força vital. É a energia que nos levanta da cadeira, que diz “basta”, que traça uma linha entre o que é aceitável e o que é abuso.

Hoje, digo sem culpa: prefiro ser vista como “difícil” a ser instrumentalizada. Prefiro ser mal interpretada do que ser destratada. E se isso me faz “nervosa”, então que me chamem o que quiserem — mas chamem-me viva. A verdade é que o mundo tolera mal uma mulher que não tolera. Querem-nos constantemente cordiais e compreensivas, mas não exigentes. Gentis, mas nunca assertivas. Educadas, mas jamais firmes. Querem-nos amenas e suaves até à submissão.

Oh! E pensar eu que a raiva feminina é o motor das maiores transformações. Foi raiva que fez mulheres saírem de casas abusivas. Foi raiva que levou outras a denunciar injustiças. Foi raiva que empurrou gerações a dizerem: “já chega”. E talvez seja isso que tanto assusta — porque uma mulher em contacto com a sua raiva deixa de ser manipulável. Quando a usamos bem, a raiva é uma bússola moral, não um veneno. Ela não destrói — desperta.

Sinto que a minha raiva tem agora um sentido quase espiritual. Não é fúria cega, é lucidez. É oração. É corpo em movimento a dizer “eu também existo” e “eu também sou filha de Deus”, “eu mereço respeito”. É a minha alma a levantar a voz depois de anos de silêncio lapidado. A raiva, quando amadurece, deixa de querer ferir. Só quer existir.

Hoje, quando sinto a raiva a subir, não a emudeço ou reprimo — ouço-a. Ela, pacificamente, fala comigo. Diz-me: “aqui há abuso”, “aqui estás a desaparecer”, “aqui estás a ceder demais”, “aqui já não há espaço — nem vontade — para te verem realmente”… E eu agradeço. Por incrível que pareça, até agradeço. Porque a raiva, quando escutada com atenção, não destrói. Constrói, reconstrói, edifica. Liberta.

Hoje sei equilibrar melhor a minha assertividade com a doçura que sempre me habitou. Já não me obrigo a ser só simpática, nem a sorrir quando o corpo me pede distância. Há dias em que a firmeza é a forma mais bonita de amor. Calibro o meu tom conforme o que a vida ou a pessoa à frente de mim me pedem — ora maciez, ora fronteira. Não preciso escolher entre ser amável ou ser verdadeira — posso ser ambas. Já não me forço a agradar, a sorrir indiscriminadamente, a apagar-me para caber. Ajusto o tom conforme o coração me sopra: às vezes ternura, às vezes limite. Descobri que há uma beleza quase sagrada num “foda-se” bem dado, dito na hora certa, com a serenidade de quem finalmente se escolhe e se acolhe.

Quando tentei ser a fofinha de serviço, para tudo e todos, o corpo começou a gritar no lugar da voz. Algumas enfermidades começaram a aparecer como cartas que o inconsciente escreve quando já ninguém o escuta. Ansiedade social, humor deprimido, cansaço crónico, tensão muscular, inflamações inexplicáveis, problemas na pele, e para muitas pessoas que conheço ou que atendo o que vejo é ainda o expoente máximo de tudo isto: até o sistema imunitário começa a entrar em guerra com elas mesmas. Como se o corpo tivesse internalizado a lógica da repressão: combater o que é interno, combater o próprio impulso vital.

E isto não é apenas poético. É clínico. Na terapia, vejo-o diariamente: corpos de mulheres adoecidos por anos de contenção emocional. A raiva engolida transforma-se em inflamação. O que é reprimido, o corpo tenta expulsar por outros meios. Doenças auto-imunes, distúrbios de ansiedade, de pânico, compulsões alimentares, depressões mascaradas de produtividade, fadiga sem causa aparente. Não há milagre — há mensagens. O corpo fala o que a boca não ousou dizer.

Durante muito tempo achei que a minha raiva era um defeito. Hoje vejo-a como um instinto de auto-preservação que, quando abafado, se volta contra nós. Reprimir a raiva não nos torna equilibradas — torna-nos doentes. O equilíbrio emocional não se constrói com anestesia. Constrói-se com escuta. E escutar a raiva é um acto de amor-próprio.

Na terapia, costumo dizer que a raiva é o “sistema nervoso da dignidade”. É ela que nos avisa quando algo está errado. Quando o limite é violado, quando o respeito se quebra, quando o “não” foi engolido a tempo. Mas o discurso social feminino ensina-nos a não escutar esse alarme. A desconfiar dele. Chamam-nos “sensíveis”, “intensas”, “difíceis”, “desequilibradas”. E a repetição dessas palavras vai-nos colonizando por dentro até começarmos nós próprias a duvidar da nossa percepção da realidade.

E então passamos a viver num modo de sobrevivência educada: a suportar, a compreender, a justificar, a explicar. A forma como sublimei a raiva, seja pela arte, seja pela vida, seja inclusive na terapia, foram para mim o lugar onde reaprendi muita coisa. Onde pude, finalmente, dar voz àquela coisa que era pura dor acumulada, puro pedido de protecção, de reconhecimento. Foi com a Psicologia — primeiro como paciente, depois como terapeuta — que compreendi que a raiva não é loucura. É linguagem. É fronteira. É, atrevo-me a dizer — uma forma de oração.

Hoje falo sobre isto com as mulheres que me procuram. Elas chegam com queixas difusas: “estou sempre cansada”, “ando sem energia”, “sinto-me vazia”, “não sei o que tenho, mas não me reconheço”. Muitas vezes, o diagnóstico não está no corpo, mas na alma. A doença é o sintoma físico de uma existência em que se engole tudo — a mágoa, o grito, o desejo, a vida.

E eu digo-lhes: não há cura sem expressão. A terapia é o lugar onde a raiva pode, pela primeira vez, existir sem culpa, sem remorsos, sem vergonha e sem medo do julgamento (sempre acérrimo) dos outros. Onde se descobre que o “não” é também uma forma de amor. Que o limite é um gesto de cuidado. Que a raiva, quando acolhida, transforma-se em clareza, em direcção, em acção, em realização.

Aprendi que há dois tipos de paz: a paz da resignação e a paz da integridade. A primeira é silenciosa, tensa e doente. A segunda é viva, firme e serena. E a única maneira de chegar à paz verdadeira é atravessando o desconforto — e não fugindo dele.

Eu não quero mais a pseudo-calmaria da anestesia geral. Quero a calma que vem depois da verdade dita. Aquela que nasce quando a garganta deixa de ser prisão. Quando o corpo deixa de precisar gritar através das maleitas.

O que muitos chamam de “temperamental”, eu chamo de retorno a mim. O que chamam de “falta de paciência”, hoje chamo de saúde mental.

A raiva salvou-me. Ensinou-me os meus limites — onde é que o “eu” termina e o “outro” começa. Salvou o meu corpo, a minha alma, a minha sanidade, a minha voz. E se há algo que aprendi nestes anos de desenvolvimento pessoal — dentro e fora do consultório — é que não há cura possível sem honestidade emocional. A raiva, quando acolhida com ternura, é uma das formas mais profundas de amor por nós mesmas.

No fim de tudo, percebi que a raiva é uma oração. Uma súplica do âmago por verdade, respeito, protecção e espaço. E eu já não a nego. Rezo com ela todos os dias. Em voz alta!


Sara Ferreira

Email: apsicologasara@gmail.com

Site: www.apsicologasara.com

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