Durante muitos anos, a preocupação dos pais era garantir que os filhos tivessem oportunidades. Hoje, o desafio parece ser outro: garantir que ainda lhes sobra tempo. Entre a escola, as atividades extracurriculares, os trabalhos de casa e os ecrãs que ocupam qualquer momento livre, muitas crianças vivem dias tão preenchidos quanto os dos adultos. Há sempre alguma coisa para fazer, aprender ou acompanhar. E, no meio desta rotina acelerada, o tempo vazio tornou-se raro. No entanto, talvez seja precisamente esse vazio que esteja mesmo a fazer falta.
Existe uma ideia cada vez mais presente de que uma infância bem aproveitada é uma infância ocupada. As agendas enchem-se com atividades pensadas para estimular competências, desenvolver talentos ou preparar o futuro. Tudo parece útil, produtivo e importante. Contudo, há uma diferença entre proporcionar experiências e impedir que exista espaço livre. Quando cada hora do dia está organizada por adultos, sobra pouco tempo para a criança simplesmente existir sem objetivos definidos.
É precisamente nesses momentos aparentemente improdutivos que acontecem processos essenciais ao desenvolvimento emocional e criativo. Uma criança que está constantemente orientada habitua-se a receber estímulos e instruções. Vai da escola para a natação, da natação para o inglês, do inglês para casa, onde muitas vezes continua rodeada de conteúdos rápidos e imediatos vindos de um ecrã. Raramente precisa de inventar alguma coisa sozinha. Raramente se confronta com o silêncio, o aborrecimento ou a pergunta: “O que me apetece fazer agora?” E essa pergunta é importante.
Na verdade, quando uma criança tem tempo livre, começa a descobrir recursos próprios. Aprende a ocupar-se, a imaginar, a criar regras para uma brincadeira, a inventar histórias ou simplesmente a observar o mundo à sua volta. O desenvolvimento da criatividade não nasce apenas da estimulação constante. Nasce também da ausência dela. Surge quando existe espaço mental para experimentar, falhar, improvisar e pensar sem pressa.
Tendo tudo isto em consideração, o tédio não deve ser encarado como um problema a resolver imediatamente. Efetivamente, durante demasiado tempo criou-se a ideia de que uma criança aborrecida é sinal de falta de estímulo ou de atenção. No entanto, o tédio pode ser um ponto de partida, pois é, muitas vezes, depois do famoso “não tenho nada para fazer” que surgem as brincadeiras mais criativas: uma manta transforma-se numa cabana, uma caixa num carro, meia dúzia de bonecos dão origem a histórias.
Quando esse desconforto é interrompido automaticamente com um vídeo, um jogo ou uma atividade organizada, perde-se uma oportunidade importante. A criança deixa de desenvolver a capacidade de criar a partir do nada e habitua-se a depender de estímulos externos para se entreter.
De acrescentar que as consequências não se ficam pela criatividade. Uma rotina excessivamente preenchida pode também afetar o equilíbrio emocional. Demasiadas crianças vivem hoje num estado de constante antecipação: horários para cumprir, objetivos para alcançar, atividades para acompanhar. Mesmo quando gostam do que fazem, existe um desgaste associado à falta de pausas reais. Esquecemo-nos, no meio deste turbilhão, que o cérebro infantil, tal como o dos adultos, precisa de momentos de descanso, de tempo sem exigências, sem desempenho e sem sobrecarga de informação.
Se tal não acontece, começam a surgir sinais que muitas vezes são desvalorizados: irritabilidade, dificuldade em lidar com contrariedades, maior ansiedade ou menor tolerância à frustração. Uma criança habituada a contextos muito orientados pode sentir mais dificuldade perante situações imprevisíveis, precisamente porque teve poucas oportunidades para lidar com elas de forma natural. Aprender a esperar, aborrecer-se, falhar ou encontrar soluções sozinho também faz parte do crescimento. São experiências pequenas, mas fundamentais para construir autonomia emocional.
Isto obviamente não significa que as crianças devam passar os dias sem fazer nada ou que as atividades extracurriculares sejam negativas. Muitas são importantes, enriquecedoras e fazem genuinamente sentido. O problema começa quando desaparece o equilíbrio. Quando o tempo livre passa a ser visto como tempo perdido.
Num tempo em que tudo parece acelerar, dar às crianças tempo para não fazer nada pode ser uma das decisões mais importantes que os pais podem tomar.
Ana Catarina Mesquita

Doutorada e investigadora em Estudos Globais, com especialização nas áreas da educação, cultura e sociedade. O seu trabalho centra-se nas transformações contemporâneas, com particular atenção ao impacto da globalização, da educação e das dinâmicas culturais nas novas gerações.
Contactos
@ana.catarina.mesquita