Voltar a estudar depois da maternidade, é algo que, raramente, começa com um plano bem definido, mas, sim, com uma inquietação discreta que surge no meio das rotinas e das responsabilidades do dia-a-dia. É a vontade de recuperar tempo para si, para aprender, para evoluir e para dar espaço a ambições que não desapareceram, que apenas ficaram em pausa.
Embora este passo traga dúvidas e exija uma nova gestão do tempo, muitas vezes, acompanhada por um sentimento de culpa, a verdade é que cada vez mais mulheres mostram que é possível encontrar equilíbrio. Mais do que uma decisão prática, voltar a estudar torna-se um gesto de afirmação pessoal, onde cuidar de si deixa de ser secundário e passa a fazer parte de uma vida mais consciente e completa.
As inseguranças são uma parte natural deste recomeço. Depois de uma pausa, muitas mulheres questionam a sua própria capacidade de aprender, acompanhar o ritmo ou, até, de voltar a sentir-se confiantes num contexto académico ou profissional. Surgem dúvidas como “será que ainda consigo?” ou “não será tarde demais?”, muitas vezes, amplificadas pela comparação com outros percursos. A estas incertezas, junta-se o receio de falhar ou de não conseguir conciliar todas as áreas da vida. Ainda assim, é importante reconhecer que essas inseguranças não são um sinal de incapacidade, mas, sim, de crescimento e de saída da zona de conforto.
Gerir o tempo torna-se, inevitavelmente, um dos maiores desafios neste processo. Entre trabalho, filhos, casa e outras responsabilidades, pode parecer que não sobra espaço para mais nada. No entanto, mais do que encontrar tempo livre, trata-se de o criar com intenção. Pequenos blocos ao longo da semana, rotinas ajustadas e expectativas realistas fazem toda a diferença. Nem todos os dias vão correr como planeado, e isso faz parte. O importante é manter a consistência possível, sem cair na pressão de ter de fazer tudo na perfeição.
Ter uma rede de apoio pode transformar, completamente, esta experiência. Contar com o suporte do parceiro, da família ou, até, de amigos próximos, é algo que permite aliviar a carga e criar espaço para investir em si. Contudo, o apoio não é apenas logístico, mas, também, emocional. Na verdade, ter alguém que incentiva, que compreenda os desafios e que esteja presente nos momentos de dúvida pode ser decisivo para continuar. No fundo, recomeçar torna-se mais leve quando o caminho não é solitário.
Voltar a estudar não é apenas uma forma de adquirir novas competências ou melhorar o percurso profissional. É, acima de tudo, um regresso a si própria, como que recuperar a ambição que ficou em pausa, redescobrir a curiosidade e voltar a dar espaço à própria voz, tantas vezes silenciada pelas exigências do dia a dia. Neste processo, não se trata de voltar a ser quem se era antes, mas de integrar tudo o que se viveu entretanto e crescer a partir daí. Isto porque, no fundo, aprender novamente é também uma forma de se reconectar com aquilo que faz sentido.
Ana Catarina Mesquita

Doutorada e investigadora em Estudos Globais, com especialização nas áreas da educação, cultura e sociedade. O seu trabalho centra-se nas transformações contemporâneas, com particular atenção ao impacto da globalização, da educação e das dinâmicas culturais nas novas gerações.
Contactos
@ana.catarina.mesquita