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Quando a popularidade entra na escola e o bom senso fica à porta

A presença de influenciadores digitais associados a conteúdos marcados pela sexualização e pela provocação em escolas portuguesas revelou uma realidade que merece uma reflexão séria. O simples facto de estas presenças terem sido autorizadas dentro de espaços educativos reflete que algo falhou na forma como se está a proteger crianças e adolescentes.

A escola tem uma missão clara: educar, orientar e proteger, tratando-se de um dos espaços onde pais e encarregados de educação depositam confiança, acreditando que os seus educandos se encontram num ambiente seguro, acompanhado por profissionais e enquadrado por princípios educativos. Quando este espaço se abre a figuras cujo reconhecimento nas redes sociais depende da exposição, da polémica ou da sexualização, entramos verdadeiramente num território que levanta preocupações legítimas.

Não está em causa negar o impacto das redes sociais na vida dos jovens. Essa realidade existe e continuará a fazer parte do seu quotidiano. O papel da escola, no entanto, não é legitimar indiscriminadamente esse universo, mas ajudar os alunos a compreendê-lo de forma crítica. Isto porque educar também significa saber distinguir referências positivas de modelos que pouco contribuem para o desenvolvimento pessoal e social dos mais novos.

Neste contexto, a popularidade nas redes sociais não pode ser o critério para abrir portas dentro de uma escola. Efetivamente, o número de seguidores não transforma automaticamente alguém numa referência educativa. Muitos conteúdos que circulam nas plataformas digitais vivem da provocação fácil, da exploração da imagem e da procura constante por atenção, podendo gerar visualizações e notoriedade, mas dificilmente acrescentando valor ao ambiente formativo que a escola deve garantir.

Se iniciativas deste tipo são autorizadas, corremos o risco de banalizar discursos e comportamentos que não ajudam os jovens a construir uma relação saudável com o seu corpo, com os outros e consigo próprios. Não nos esqueçamos de que as crianças e os adolescentes estão ainda a formar a sua identidade, a definir valores e a desenvolver a forma como se veem no mundo, sendo que a escola deveria ser um espaço de referências consistentes.

Tendo tudo isto em consideração, as direções escolares têm uma responsabilidade particular. A autonomia das escolas é importante e necessária, mas traz consigo um dever acrescido de ponderação. Cada atividade realizada dentro do espaço escolar deve ser pensada à luz do seu valor educativo e do exemplo que transmite aos alunos. Abrir as portas da escola exige critérios claros e sentido de responsabilidade.

Também os pais não podem permanecer distantes destas questões. A educação é um processo partilhado e a proteção das crianças depende igualmente da atenção e da participação das famílias. Questionar decisões, pedir esclarecimentos e exigir coerência com a missão educativa das escolas faz parte desse compromisso.

Desta forma, crianças e adolescentes merecem crescer num ambiente que promova respeito, equilíbrio e valores sólidos. Situações como estas não devem ser ignoradas nem relativizadas. Pelo contrário, devem servir para reforçar a necessidade de critérios mais claros e de maior vigilância sobre aquilo que acontece dentro das escolas. Proteger as crianças exige responsabilidade e consciência coletiva. A escola deve continuar a ser um lugar de aprendizagem, de crescimento e de proteção. Tudo o que acontece dentro das suas portas deve refletir esse princípio. Quando falamos de crianças e adolescentes, não pode haver margem para complacência.


Ana Catarina Mesquita

Doutorada e investigadora em Estudos Globais, com especialização nas áreas da educação, cultura e sociedade. O seu trabalho centra-se nas transformações contemporâneas, com particular atenção ao impacto da globalização, da educação e das dinâmicas culturais nas novas gerações.

Contactos

@ana.catarina.mesquita

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