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E se fosse consigo?

Quantas vezes julgamos sem saber? Um olhar rápido, uma cena solta, e a história parece clara. Mas por trás de cada gesto há um contexto, uma dor, uma razão que nem sempre vemos.

Imagine a cena: está na praça de alimentação de um shopping, a meio da confusão da hora de almoço. Na mesa ao seu lado senta-se uma família — pai, mãe e uma filha pequena. Talvez a criança tenha por volta de 4 anos. Os pais comem pratos normais, comida “a sério”. A miúda? Tem uma taça de gelado à frente. Só. E nem lhe está a prestar muita atenção, porque está completamente agarrada a um telemóvel, de olhos vidrados no ecrã.

O que é que pensa? Sejamos honestas: o filme que começa a correr na nossa cabeça é quase sempre o mesmo. “Que pais são estes? A miúda almoça açúcar e ainda lhe dão um ecrã para não chatear. Zero regras. Depois queixam-se de que os filhos são mal-educados e não comem nada de jeito.”

É fácil, não é? O julgamento sai quase sem querer. Vê a cena e assume que já percebeu tudo. Talvez até aproveite para dar um exemplo aos seus filhos, dizendo algo como: “Viram? É por isso que nós temos regras. Primeiro a comida, depois a brincadeira.”

A história parece simples e clara. Uma história de pais permissivos e uma criança mimada. Fim da história… ou talvez não.

E se conseguíssemos ver mais do que esta parte da história? Saia da sua cabeça e entre na vida daquela família. Aquele dia não começou no shopping; começou umas horas antes, numa clínica dentária. Aquela menina, que agora olha com desaprovação, esteve sentada numa cadeira, corajosamente, enquanto um dentista lhe arrancava um dente. Saiu de lá com a boca a latejar e o rosto pálido, ainda meio a dormir da anestesia.

O almoço no shopping não foi um passeio de lazer — foi uma tentativa de normalidade num dia difícil. E o gelado? Não era um capricho. Era a única coisa que ela podia comer, por recomendação médica: frio, para ajudar a aliviar o inchaço; mole, para não magoar.

E o telemóvel, aquela “ama digital” que julgou tão depressa? Era um ato de misericórdia. Uma tentativa desesperada da mãe para distrair a filha da dor que começava a apertar, à medida que o efeito da anestesia desaparecia. Era um abraço em forma de píxeis, um “vai ficar tudo bem” silencioso.

A mãe que imaginou não era permissiva. Aquela mãe estava a fazer o melhor que podia. Aquela mãe era eu. A criança que imaginou não era mal-educada; estava com dores, a tentar aguentar-se. Aquela criança era a minha filha.

E agora? A história já não parece tão simples, pois não?

Ao nosso lado estava uma família que olhava para nós com reprovação e dizia várias vezes aos filhos que, se queriam distração, tinham livros. E eu senti-me julgada. E, naquele momento, pensei como seria pôr-me de fora, sem saber todo o contexto. Fez-me pensar em todas as vezes que estive do outro lado, a julgar sem saber. Todos nós criamos estes pequenos filmes na nossa cabeça, baseados em fragmentos de realidade. Vemos um take de 10 segundos da vida de alguém e achamos que já vimos o filme todo. Mas a vida dos outros é sempre um filme muito mais longo e complexo. E, quase sempre, a parte mais importante da história é aquela que nós não vemos.

Tento lembrar-me disto. Antes de carregar no botão de “julgar”, tento respirar fundo e perguntar a mim mesma: “Qual é a parte deste filme que me está a escapar?”. Porque a verdade é que há sempre uma parte. E é essa parte que muda tudo.


Filipa Gomes

Especializada em alimentação responsiva e fundadora do projeto Oishi, a sua missão é apoiar famílias na construção de refeições mais tranquilas, promovendo confiança, autonomia e ligação à mesa. Com base na sua experiência profissional e na maternidade, acredita que a alimentação é um espaço privilegiado para fortalecer relações. Atualmente, acompanha mães e crianças a criarem memórias felizes e uma relação mais saudável com a comida.

-Contactos- 

Instagram: @filipa.alimentacaoresponsiva

Site: oishi.pt

E-mail: geral@oishi.pt

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