[wlm_register_Passatempos]
Siga-nos
Topo

“Mamã, como morremos?”

Quando é que morremos de verdade: quando o coração pára ou quando deixamos de sentir aquilo que ele nos tenta dizer?

No outro dia, no meio do caos maravilhoso que é a vida com crianças, a minha filha Maria, no alto dos seus quatro anos, virou-se para mim com a seriedade de um filósofo e perguntou: “Mamã, como é que nós morremos?”

Respirei fundo. É uma daquelas perguntas que nos apanham de surpresa, não pela sua complexidade, mas pelo seu peso. Procurei a resposta mais simples e honesta que consegui encontrar. “Morremos quando o nosso coração deixa de bater, filha.”

Achei que a explicação seria suficiente. Mas a Maria processou a informação por um segundo, olhou para mim com os seus olhos cheios de certezas e completou o meu pensamento, como se estivesse a corrigir uma omissão óbvia.

“Ah, ok, mamã. Então nós morremos quando o coração deixa de bater, quando os pulmões deixam de funcionar… e quando deixamos de sentir os sentimentos.”

“E quando deixamos de sentir os sentimentos?” Perguntei. “Sim. Quando deixamos de sentir também morremos, mamã.”

A frase ficou a ecoar na minha cabeça, muito depois de a nossa conversa ter terminado. E eu fiquei a pensar: quantos de nós estão realmente vivos?

Quantos de nós queríamos dizer uma coisa e não dizemos? Engolimos palavras, opiniões e desejos por medo da rejeição, por medo de não sermos compreendidos. E ao calar o que as nossas necessidades pedem, não será isso uma forma de deixar de sentir? Uma pequena morte?

Quantos de nós passamos tardes inteiras em almoços de família, com um sorriso no rosto, quando tudo o que o nosso corpo pedia era dizer “não, hoje não me apetece”? Mas o medo do abandono, o medo de desiludir, o medo do conflito fala mais alto. E então, mais uma vez, desligamos o interruptor do nosso querer. Deixamos de sentir. E morremos mais um pouco.

Vivemos numa sociedade que nos ensina a existir, mas que se esquece de nos ensinar a viver. O coração bate, os pulmões funcionam. Mas estamos a sentir? Ou estamos apenas a representar o papel de “pessoa viva”?

E nesta reflexão, a pergunta mais assustadora de todas surgiu: é isto que nós queremos transmitir às nossas crianças?

Continuamos a subestimar a inteligência emocional, a tratá-la como um extra opcional no currículo da vida. Mas a verdade, dita pela boca de uma criança de quatro anos, é que sem ela, talvez nem sequer estejamos vivos.

A lição da Maria não foi sobre a morte. Foi sobre a vida. Um apelo urgente para voltarmos a sentir. Para termos a coragem de dizer o “sim” que nos entusiasma e o “não” que nos protege. Para aceitarmos que a vida é sentir tudo… a alegria, a dor, a raiva, o amor.

Porque no final do dia, a pergunta que realmente importa não é “como é que morremos?”, mas sim “será que já começámos a viver?”.


Filipa Gomes

 

Especializada em alimentação responsiva e fundadora do projeto Oishi, a sua missão é apoiar famílias na construção de refeições mais tranquilas, promovendo confiança, autonomia e ligação à mesa. Com base na sua experiência profissional e na maternidade, acredita que a alimentação é um espaço privilegiado para fortalecer relações. Atualmente, acompanha mães e crianças a criarem memórias felizes e uma relação mais saudável com a comida.

-Contactos- 

Instagram: @filipa.alimentacaoresponsiva

Site: oishi.pt

E-mail: geral@oishi.pt

Veja mais em Filipa Gomes

PUB


LuxWOMAN