“Deixa lá! É só um docinho.” Quantas vezes já ouvimos esta frase, dita com o sorriso enternecido, de um avô ou de uma avó? Para muitos pais, é o início de uma luta interior que os faz engolir em seco: o desejo de manter limites claros na alimentação dos filhos e, ao mesmo tempo, não querer magoar aqueles que são próximos.
Mas e se, por trás desse doce, estiver algo muito mais profundo do que açúcar?
Durante décadas, o amor mostrou-se à mesa. E durante décadas não havia abundância de alimentos (processados ou não) como agora. Era no prato cheio, no “come mais um bocadinho”, na sobremesa feita com tempo e dedicação, que muitos avós aprenderam a dizer “Amo-te”. Noutros tempos, nem sempre se falava de emoções, nem se ofereciam abraços com facilidade; ofereciam-se os pratos favoritos e receitas de família.
É por isso que, para tantos avós, dar comida é cuidar. É a sua forma de garantir que nada falta, de sentir que ainda têm um papel importante na vida dos netos. E é também, muitas vezes, a maneira mais segura que conhecem de oferecer amor (e de dar o que não tiveram).
O problema é que, do outro lado, estão pais que olham para a comida com outro filtro. Pais que sabem mais sobre escolhas alimentares, que tentam ensinar os filhos a ouvir o corpo, a respeitar a saciedade, a construir uma relação tranquila com a comida. E quando o amor de uma geração se cruza com a consciência da outra, o resultado pode ser… doce e amargo ao mesmo tempo.
Mas, talvez, o caminho não seja travar uma guerra, e sim procurar compreender as linguagens do amor que se encontram (e desencontram) à mesa.
O autor Gary Chapman descreve cinco formas principais de expressar amor: palavras de afirmação, tempo de qualidade, atos de serviço, toque físico e presentes. Os avós, muitas vezes, comunicam através dos atos de serviço, como cozinhar e preparar algo especial, ou através de presentes: aquele chocolate, o bolo preferido, o “miminho” inesperado. É a linguagem deles. Já os pais podem preferir expressar amor com tempo de qualidade ou palavras de encorajamento, e os filhos podem responder melhor ao toque ou à presença tranquila.
Perceber isto muda tudo. Porque, em vez de ver o doce como desobediência ou desafio, podemos vê-lo como um gesto de amor e escolher responder com empatia (e isso pode envolver mostrar os teus limites).
Podemos agradecer a intenção e, ao mesmo tempo, ajudar os avós a descobrir novas formas de demonstrar carinho:
- Cozinhar juntos uma receita simples, transformando o momento em tempo de qualidade;
- Contar histórias da infância;
- Oferecer um passeio ou uma brincadeira, em vez de um pacote de gomas.
Quando reconhecemos a intenção por trás do gesto, abrimos espaço para o diálogo. Deixamos de falar apenas sobre açúcar e passamos a falar sobre amor, sobre a vontade de se manterem próximos, de continuarem a pertencer.
No fundo, todos queremos o mesmo: ver as crianças felizes e ligadas às suas raízes.
Porque o amor, tal como a comida, tem muitas formas de ser servido. E se, em vez de discutirmos o doce, descobríssemos juntos o sabor da ligação?
Com carinho,
Filipa Gomes

Especializada em alimentação responsiva e fundadora do projeto Oishi, a sua missão é apoiar famílias na construção de refeições mais tranquilas, promovendo confiança, autonomia e ligação à mesa. Com base na sua experiência profissional e na maternidade, acredita que a alimentação é um espaço privilegiado para fortalecer relações. Atualmente, acompanha mães e crianças a criarem memórias felizes e uma relação mais saudável com a comida.
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