Chama-se Papelaria Moderna porque nasceu neste tempo, mas a sua missão é fazer-nos viajar até ao passado, quando se valorizava a escrita à mão e com propósito.
Inês Maldonado, o rosto por detrás do projeto, é designer gráfica e o universo do estacionário acompanha-a desde cedo. Numa passagem por Londres, colaborou com uma marca de estacionário personalizado; na vida pessoal, guarda desde criança pequenos objetos de papel: cartões de visita antigos, envelopes desbotados, folhas de cadernos escolares, fotografias e recortes que foi encontrando ao longo dos anos. Deste gosto nasceu a vontade de criar um projeto próprio ligado a esta área.
Depois de cerca de 15 anos guardada na gaveta, a Papelaria Moderna ganhou finalmente forma em dezembro de 2025, com uma loja online e um catálogo de mais de 120 produtos.
Numa altura em que o papel parece, cada vez mais, ser deixado para trás, porque é que decidiu criar a Papelaria Moderna?
Decidi criar a Papelaria Moderna por achar que estamos assoberbados com o digital. Acho que, aos poucos, começa a existir uma nostalgia pelas coisas em papel, pelas coisas analógicas no geral. Talvez não para as coisas práticas do dia a dia, porque também não estou a imaginar que, em vez de trocarmos e-mails e mensagens, de repente passemos a usar os correios para tudo, mas para quando queremos mostrar que fizemos uma coisa com intenção e com tempo. No fundo, o que eu sentia era que, quando alguém queria realmente escrever uma carta ou uma nota à mão para uma ocasião especial, fosse um aniversário ou um casamento, e queria um papel ou um cartão especial, era muito difícil encontrá-lo.
Foi essa lacuna que a levou a criar este projeto?
Ficámos entre as papelarias de escritório, puramente utilitárias, em que as coisas não são feitas para serem bonitas, mas apenas para serem úteis, e o digital. Sentia falta, em Portugal, de uma papelaria com coisas para quem gosta de papelaria bonita, para ocasiões especiais, para objetos que durem e que não fossem infantis. Às vezes, a brincar, costumo dizer que as coisas que vendo na papelaria são aquelas que nós pomos na gaveta e temos pena de usar (risos). Acho que nos podemos dar ao luxo de ter meia dúzia de coisas de boa qualidade. É aí que quero estar: numa caneta que dura muitos anos, mas que olhamos para ela e sabemos que vai durar; num papel bonito; num cartão que recebemos escrito à mão e que guardamos porque mostra que aquela pessoa despendeu tempo e atenção connosco. Percebo que não é um lugar óbvio nos dias que correm, mas era uma lacuna que eu sentia que existia.
Papelaria Moderna
Quando é que começou, mesmo, a dar forma ao projeto?
A dar mesmo forma ao projeto foi em setembro do ano passado. Houve um dia em que estava a passar por uma papelaria antiga no Restelo, que entretanto tinha fechado. Era daquelas que ainda tinham os armários de madeira, mas que já não vendia nada de papelaria, só raspadinhas e jornais. Quando a vi fechar, lembrei-me desta ideia que tinha há muitos anos na gaveta e que andava sempre com vontade de criar. Pensei: “Não vai passar deste ano”. Pus as coisas a mexer e consegui abrir no dia 1 de dezembro. Mas a ideia já a tinha há mais de 15 anos.
Isso é imenso tempo…
Sim. Quando acabei o curso de Design, uma coisa de que gostei sempre muito foi a indústria dos cartões. Depois estive três anos a viver em Londres, em que estive a trabalhar precisamente a ajudar a criar uma marca que fazia estacionário personalizado, que em Inglaterra é uma coisa ainda muito presente na vida das pessoas. As pessoas enviam cartões nos anos, no Natal. Há muitas lojas de cartões, há muitas papelarias bonitas e cá não havia quase nada. Fiquei sempre com aquela ideia de que, quando voltasse para Portugal, também gostava de fazer isso por cá. Depois abri o atelier, trabalhei em publicidade, fiz várias coisas e fui sempre adiando. Houve aquele dia em setembro em que ver aquela papelaria a fechar me fez pensar naquilo como um ultimato e pronto. Comecei por pensar que, se calhar, ia abrir só com os cartões de Natal e depois entusiasmei-me. Quando abri, já tinha 120 produtos.
Porque é que demorou tanto tempo a avançar?
Não sei dizer, acho que talvez por perfeccionismo. Quando fizesse, tinha muito medo de não fazer as coisas como eu gostava. “Santos da casa não fazem milagres” e, portanto, já fiz muitas vezes artigos de papelaria para clientes no meu atelier de design gráfico, mas, para mim própria, sentia que não sabia por onde começar. A primeira vez que fui à minha gráfica de confiança falar sobre a ideia da papelaria, fiquei assoberbada com as escolhas e com o apoio que tive. Na verdade, as portas abriram-se todas. Todos os fornecedores que já conhecia, e outros que não, foram na sua maioria bastante simpáticos. Mas, ao mesmo tempo, quando somos os nossos próprios clientes, às vezes é mais difícil porque as decisões e a responsabilidade são só nossas. Portanto, acho que adiei porque tinha medo de falhar, talvez. Mas também porque a vida aconteceu e fui fazendo outros projetos. Agora estou muito contente por finalmente ter feito, porque era aquela resolução que todos os anos passava
Inês Maldonado, designer gráfica e fundadora do Atelier Maldonado. Créditos: Mariana Sabido
Em algum momento o estado do mercado e esta desvalorização do papel a assustou?
Assustava-me uma coisa, que ainda acho que é um desafio: o digital ser um meio difícil para mostrar papel. No mundo ideal, também gostaria de ter um espaço físico. Mas não me assustou, antes pelo contrário. Sei que é um nicho, mas sinto mesmo falta disso em Portugal e, ao longo destes anos em que trabalhei como designer, aconteceu em muitas ocasiões, não só clientes como amigos, perguntarem onde é que podiam comprar um cartão bonito. E, como fui vendo as papelarias que existiam em Lisboa quando era criança desaparecer, tinha mesmo dificuldade em responder. Para mim, quando ia a Londres, trazia e fazia o meu próprio stock. Obviamente fui sentindo que o digital ganhou espaço, mas também tenho sentido, aos poucos, um regresso ao analógico.
Desde criança guarda cartões, envelopes e folhas de cadernos. Como é que essas recordações a influenciaram?
A Papelaria Moderna tem uma identidade gráfica, se lhe quisermos chamar assim, que tem muito a ver com essas referências das coisas que fui recolhendo ao longo dos anos. Mesmo alguns objetos que tenho na papelaria quando fui procurar stock para vender, tentei encontrar como eram antigamente. Hoje em dia, quando vamos procurar artigos de papelaria para comprar, a maior parte das coisas são feitas de plástico e eu tentei encontrar coisas de boa qualidade. As afias, por exemplo, são mesmo muito pesadas, são feitas em latão, mas afiam muito bem, porque têm lâminas boas, e não causam frustração. Fiz uma linha de cartões, que chamo de cartões multiusos, porque são uma linha para várias ocasiões, em que uso gravuras antigas que faziam parte do meu arquivo de gravuras, que fui guardando ao longo do tempo. Também fui procurar umas estampas que antigamente se recortavam para decorar cadernos. Foi das coisas mais difíceis de encontrar, mas descobri uma fábrica na Alemanha que ainda as produz e que faz os mesmos designs há 100 anos. Há muitas marcas também que, quando encontrei os produtos e as procurei, me deixaram muito contente por perceber que fazem as coisas da mesma maneira há muito tempo, ou que ainda são empresas familiares, ou que algumas são quase monoprodutos, porque fazem uma coisa muito bem.
Um dispensador de fita-cola
Os produtos que encontramos foram curados por ti. Tens alguns que sejam da tua autoria?
Toda a loja tem um conjunto de produtos desenvolvidos do zero, que eu desenhei e produzi, e uma parte de curadoria de outras marcas. Os cadernos que tenho atualmente são de outras marcas. Tenho cadernos da Emílio Braga, que também é uma empresa que continua na mesma família há 100 anos e que começou por ter uma papelaria na Rua Nova do Almada e que agora continua a funcionar a partir de Lisboa. É tudo encadernado à mão, feito com papéis certificados e feito em Portugal, e fico sempre muito contente de poder colaborar com eles. Está nos meus planos trabalhar com eles em breve para fazer padrões desenhados por mim. Tenho também da Beija Flor, que é uma colega minha que trabalha a partir do Porto, também todos cadernos feitos em Portugal, encadernados em tecido, com alguns motivos inspirados em Portugal. Depois temos uns blocos japoneses que são mais blocos de repórter, para ter no bolso e tomar notas. Portanto, ainda não temos cadernos de design nosso, mas estamos a desenvolver.
No caso dos cartões, há cartões que são mesmo um produto da Papelaria Moderna, que foram desenhados por mim e produzidos em Portugal, e depois há outras marcas, aí não só portuguesas, mas que também obedecem aos meus critérios estéticos e de fabrico.
E depois ainda temos outra secção, que é desenvolvida aos poucos, de coisas antigas, que é uma secção vintage, que vende peças que são em segunda mão, mas novas. Por exemplo, agora vendemos blocos antigos dos anos 50 que estavam novos, mas eram stock antigo que comprei para revender, e isso são produtos que, como são todos quase únicos, vou procurando aos poucos
Os caderno da Emílio Braga
Que critérios de fabrico é que falava?
Não tenho produtos de que não perceba como é que a marca produz as coisas. A origem do papel também é importante, porque o papel de origem certificada quer dizer que vem de florestas que são controladas. Queria dormir de consciência tranquila.
Na Papelaria Moderna, há alguma peça que tenha um significado especial para si?
Sim, obviamente as peças que fui eu a desenhar têm mais significado para mim, porque são os meus “bebés”. São peças que pensei, desenhei, produzi e depois vi feitas. Fora as estampas, que fiquei muito contente de encontrar, uma das minhas peças preferidas é uma peça que, por acaso, tive algumas dúvidas em lançar, porque achei que era difícil de compreender: o Cartão Poema. É um cartão que foi impresso em letterpress, numa tipografia antiga, tem baixo relevo, muita textura e profundidade na impressão, e é uma lista. É como se fosse um manifesto que escrevi com coisas pequenas, mas importantes, para me lembrar de valorizar no dia a dia. Inicialmente escrevi aquilo para mim própria, depois resolvi enviar aos meus amigos e clientes há uns dois anos e, quando fiz a papelaria, resolvi voltar a pegar no texto e a imprimir. Acabou por ser o meu best seller.
Alguns dos cartões
Há algum produto que ainda não tenha lançado e gostava muito de lançar?
Sim, um produto que estou a preparar agora, que são cartões personalizados. É uma gama um bocadinho diferente, que permite pôr o nosso nome e escolher uma gravura e um tipo de letra. Também gostava de ter pósteres no futuro e mais cadernos para o ano, talvez agendas, e ir, aos poucos, cobrindo as necessidades de papelaria de toda a gente.
Porquê o nome Papelaria Moderna?
Porque criei um nome clássico, que parecesse que era uma papelaria que podia ter existido há 200 anos, e depois achei engraçado chamar-lhe “Moderna” porque, na verdade, é moderna, mas parece antiga. Foi uma brincadeira com isso. Depois, quando fui registar a marca, até fiquei surpreendida de ela não existir, porque, para mim, Papelaria Moderna podia realmente ser uma papelaria.
Alguns produtos que encontra na secção vintage
O projeto tem quase dois meses. A receção tem sido positiva?
Sim, dezembro teve uma resposta ótima, fiquei meio assoberbada nos primeiros dias e agora é mais calmo. Fiquei muito contente, descobri que havia muito mais gente que fica quase enternecida com coisas de papelaria. Recebi muitas mensagens de pessoas que se sentiram emocionadas com o que aquilo lhes fazia lembrar.
Se tivesse de resumir a papelaria moderna numa só palavra, qual é que seria?
Memória. Não só porque a papelaria mexe com as nossas memórias, mas os objetos que saem dela são usados para criar memórias.



