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Filhos muito protegidos, jovens pouco preparados

Muitos jovens chegam ao mercado com grande domínio digital, mas com fragilidades na autonomia, na tolerância à frustração e na comunicação em contextos reais. Esta falta de preparação tem origem, em parte, na forma como a educação em casa foi sendo substituída por facilitação, reforçada pela utilização do ecrã como amortecedor permanente do desconforto.

Entre a universidade e o mundo empresarial encontro cada vez mais jovens brilhantes no digital e inseguros no essencial. Dominam ferramentas, plataformas e linguagens novas, mas hesitam perante tarefas básicas de autonomia, fazer uma chamada, pedir uma informação, esperar pela sua vez, resolver um assunto num balcão, sustentar uma conversa clara com alguém que não conhecem. Não é um detalhe geracional. É um problema de preparação para a vida adulta.

Vejo-o na academia, onde muitos alunos chegam com rapidez e familiaridade tecnológica, mas com baixa tolerância à frustração, pouca iniciativa e dificuldade em comunicar de forma simples e direta. Vejo-o também no contexto empresarial, onde o mercado valoriza cada vez mais competências relacionais, capacidade de adaptação, clareza, responsabilidade e maturidade. Saber muito continua a ser importante. Mas saber estar, ouvir, perguntar, colaborar e agir sem tutela constante continua a ser decisivo.

Quando estas fragilidades se repetem em contextos tão diferentes, vale a pena perguntar de onde vêm. E a resposta não está apenas na escola, na universidade ou nas empresas. Está, muitas vezes, na forma como estamos a educar em casa.

Durante anos, fomos confundindo proteção com preparação. Tentámos poupar os filhos ao incómodo, ao tédio, à espera, à contrariedade. Tirou-se do caminho tudo o que pudesse gerar desconforto e passou a tratar-se qualquer fricção como algo a eliminar rapidamente. O resultado é visível, crianças muito acompanhadas, mas pouco treinadas para lidar com o mundo quando ele não responde à velocidade ou ao tom que desejam. Educar, porém, não é remover todos os obstáculos. É dar recursos para os enfrentar.

Isso começa em coisas pequenas, que afinal não são assim tão pequenas. Esperar numa fila. Ouvir um não. Pedir por si. Falar com um adulto. Resolver um problema simples sem que alguém intervenha de imediato. Aceitar que nem tudo é imediato, agradável ou negociável. É nestes momentos que se formam autonomia, segurança e sentido de realidade.

Digo-o também a partir da minha realidade familiar. Com filhos e enteados de perfis, histórias emocionais e referências diferentes, sei bem que educar não é falar da mesma forma com todos. A comunicação tem de se adaptar, a escuta tem de ser mais fina e o olhar tem de ter contexto. Mas essa diferença de abordagem não elimina o essencial. A base tem de ser a mesma, preparar para a vida, dar autonomia, ensinar a comunicar, a ouvir, a observar e a lidar com limites.

O problema é que, em muitas casas, esta aprendizagem foi sendo substituída por facilitação. Fala-se pelos filhos, decide-se por eles, evita-se o desconforto antes de ele aparecer. Não por falta de amor, mas muitas vezes por cansaço, culpa ou falta de tempo. Ainda assim, o efeito é o mesmo, adia-se o treino da autonomia e empurra-se para a frente uma exigência que há de chegar inevitavelmente.

A tecnologia agravou esta tendência. Não a criou, mas tornou-a mais fácil de sustentar. O ecrã distrai, ocupa e acalma. Resolve o aborrecimento em segundos. Dá resposta imediata ao que antes exigia paciência. E, para adultos exaustos, isso é sedutor. O problema é que a tecnologia passou a ser, demasiadas vezes, não uma ferramenta, mas um amortecedor permanente de qualquer desconforto.

Depois surpreendemo-nos com escolas a lidar com alunos com dificuldade em manter atenção, aceitar regras ou gerir contrariedade. Com universidades a trabalharem competências que deviam vir de trás, responsabilidade, autonomia, capacidade de exposição, gestão emocional. E com empresas a receberem jovens tecnicamente competentes, mas pouco preparados para ouvir feedback, assumir erros, comunicar sob pressão ou funcionar com independência. Talvez o mais estranho seja continuarmos a fingir que estes sinais não estão ligados.

A academia tem hoje uma tarefa mais complexa do que tinha há alguns anos. Já não basta transmitir conhecimento. Espera-se que ajude a formar pessoas mais completas, mais preparadas para a exigência profissional e social. O mesmo acontece com as empresas, que procuram muito mais do que currículo e domínio técnico. Querem pessoas capazes de trabalhar com outras pessoas, de decidir, de escutar, de resolver, de se adaptar. Só que nem a universidade nem o mercado de trabalho conseguem reconstruir facilmente o que não foi consolidado na base.

É por isso que o debate sobre telemóveis e redes sociais, sendo importante, fica aquém do essencial. Podemos discutir regras nas escolas, restrições por idade e responsabilidade das plataformas. Tudo isso é legítimo e necessário. Mas nada substitui o papel dos pais que sabem dizer não, definir limites e sustentar consequências.

Nenhuma escola ensina sozinha aquilo que uma criança aprende primeiro em casa, respeito, espera, responsabilidade, autonomia. Nenhuma universidade consegue compensar totalmente os anos de ausência de treino nestas áreas. E nenhuma empresa deve ser o lugar onde alguém aprende, pela primeira vez, a lidar com frustração ou a comunicar com maturidade.

A pergunta difícil é esta. Até que ponto não nos temos vindo a desresponsabilizar, transferindo para instituições externas aquilo que pertence, antes de mais, à educação familiar? Educar dá trabalho porque implica repetição, conflito, coerência e desgaste. Implica não ceder sempre. Implica aceitar que preparar um filho para a vida real nem sempre coincide com lhe dar aquilo que ele quer no momento. Exige uma forma de presença que não pode ser delegada num ecrã, numa escola ou numa regra pública. Talvez o nosso erro esteja em querer infâncias sem atrito e, ao mesmo tempo, esperar adultos robustos. Não funciona assim.

A vida adulta traz espera, burocracia, confronto, falhas, imprevistos, relações difíceis e contextos que não se moldam às nossas preferências. Quem cresce sem contacto com estas realidades entra no mundo menos preparado para o enfrentar. Não precisamos de crianças permanentemente entretidas. Precisamos de jovens capazes de viver fora da redoma. Porque filhos muito protegidos não se tornam, por isso, mais fortes. Muitas vezes tornam-se apenas jovens menos preparados.


Ana Barros

CEO da Martech Digital 

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