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“Hormonal”: o diário de Bárbara Tinoco

Bárbara Tinoco apresentou, em maio, o seu terceiro álbum de estúdio de originais. Em “Hormonal” partilha as emoções à flor da pele que marcam a transição entre a mulher e a mãe.

Em maio, chegou um novo e-mail à minha caixa de entrada. A artista Bárbara Tinoco tinha acabado de lançar um álbum surpresa. “Hormonal”, o terceiro álbum de estúdio de originais, surge como um diário no qual a cantautora fala, sem filtros, sobre ansiedade, maternidade, amor, pressão, mudanças do corpo e crescimento pessoal. Apesar de íntima, a narrativa é transversal à vida de tantas mulheres, que se identificam com as letras. Ao disco juntam-se as vozes de Mari Froes e Carolina Deslandes, que acompanharam Bárbara no pós-parto da sua filha, Masha.

Bárbara Tinoco em entrevista

Este disco nasceu quase como um “diário” para a sua filha. Em que momento percebeu que queria transformar esta fase da sua vida num álbum?

Quando escrevi “a coisa + assustadora”. Acusada de escrever sobre as minhas histórias de amor como não escrever sobre a mais bonita que já vivi.

“Hormonal” é o nome do álbum. Porquê este título?

Ouvi esta palavra a vida toda. Pejorativamente. Como uma forma de justificar as minhas emoções fortes. Fiz as pazes com ela neste disco. Na fase mais hormonal da minha vida, aprendi que as emoções fortes das mulheres não começam a guerra, começam a vida.

Capa do novo álbum “Hormonal”

O álbum saiu cá para fora, como surpresa. Ninguém estava à espera. Porquê?

É como um bebé, não é? Mesmo estando à espera nunca ninguém está à espera. É sempre uma surpresa. Talvez a melhor do mundo. O álbum capta estas sensações até em coisas tão banais como a forma como foi lançado.

Diz que é um álbum sobre “a menina antes da mulher, a mulher antes da mãe”. Sente que há um “antes” e um “depois” de si própria neste disco?

Acho que já existiram mil versões de mim. Neste disco, captei todas as meninas que eu fui até ser a mulher que agora é a mãe da Masha. Queria que ela conhecesse a sua mãe. Todas as versões.

Há aqui uma exposição emocional muito direta, quase sem filtro. Houve coisas que hesitou em contar?

Talvez em publicar. Nunca em escrever. Quando eu acho que ninguém vai entender ou identificar-se com uma canção, essa acaba sempre por ser a preferida. Acho que me faz sentir menos sozinha. Apesar de a ideia ser o oposto, os fãs também nos fazem sentir menos sozinhos nas nossas histórias.

Bárbara Tinoco e o companheiro, Feodor Bivol

Ser mãe aparece como “final feliz”, mas também como transformação. O que é que ganhou e o que é que sente que perdeu com a maternidade?

Perdi muitas horas de sono. Ainda tenho muitas por perder, parece-me. Sabem aqueles bonecos que se dava corda e eles ganhavam vida? Isso. Ganhei isso.

Este disco assume emoções “à flor da pele” sem pedir desculpa por isso. Acha que ainda se espera que as mulheres filtrem o que sentem? Daí a importância deste álbum?

Acho que a importância deste disco é fazer companhia. Acho que acompanha vários momentos da vida de uma menina. Vários momentos da vida de uma mulher. A transição. Sinceramente acho que nunca ninguém esperou que eu filtrasse nada. Talvez porque não tivesse importado.

Sente que o público feminino projeta em si expectativas específicas? Isso pesa na forma como escreve?

Sinto a responsabilidade de escrever para um público jovem. Da mesma forma que a sinto a educar uma menina. Deixo-lhes a minha perspetiva sobre a vida e o mundo e as minhas histórias.

Bárbara Tinoco

A presença da Carolina Deslandes e da Mari Froes tem um peso emocional forte no disco. O que é que elas representaram e representam neste momento da sua vida?

Pessoalmente foram a banda sonora do meu pós-parto. Fizeram-me muita companhia. No disco? São magia.

⁠⁠Falou de estar simultaneamente orgulhosa e assustada. O que é que mais a assustava quando colocou este disco cá fora?

Números. Números sempre me assustaram como uma palavra nunca me assustou. Neste caso, não ter números de sucesso com o disco. Só que agora eu quero contar putos a correr pela casa em vez de streams. Essa conta não é tão assustadora.

Há uma ideia muito forte de legado neste álbum. O que é que quer que a sua filha , Masha, entenda sobre si quando o ouvir no futuro?

Que ela tem mesmo sangue na guelra e eu espero mesmo que ela seja mais feliz, que todos os poetas antes dela.

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