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O futuro da educação começa antes da tecnologia

A educação não pode ser orientada pela necessidade de acompanhar modas tecnológicas nem pela vontade de demonstrar que somos pioneiros na inovação.

Vivemos numa época em que a tecnologia é frequentemente apresentada como sinónimo de progresso. Na educação, esta ideia tem levado escolas e decisores a apostar, cada vez mais cedo, na introdução de dispositivos digitais, plataformas e ferramentas de inteligência artificial nas salas de aula. A intenção é compreensível: preparar as novas gerações para um mundo inevitavelmente tecnológico. No entanto, importa perguntar se estamos a fazê-lo no momento certo ou se, pelo contrário, estamos a inverter a ordem natural das aprendizagens.

Não se trata de rejeitar a tecnologia, que fará, inevitavelmente, parte da vida pessoal e profissional das crianças de hoje. Mas preparar não significa antecipar. Antes de aprenderem a utilizar aplicações, algoritmos ou inteligência artificial, os alunos precisam de desenvolver competências que lhes permitam fazer um uso crítico e autónomo dessas ferramentas: ler com profundidade, escrever com rigor, interpretar informação, raciocinar, memorizar, concentrar-se, argumentar e resolver problemas. Isto porque estas competências não são um complemento da aprendizagem, mas a sua base. Quando essa base não está consolidada, a tecnologia deixa de potenciar o conhecimento e passa a esconder fragilidades que acabarão  por surgir.

Acresce que se instalou a ideia de que uma escola é tanto mais inovadora quanto maior for a presença da tecnologia na sala de aula. Na verdade, um computador nunca substituirá um pensamento bem estruturado, tal como uma aplicação não substitui a capacidade de compreender um texto, construir um argumento ou resolver um problema sem depender de um ecrã. Efetivamente, a tecnologia é uma ferramenta extraordinária, mas só produz verdadeiro valor quando é colocada ao serviço de competências já adquiridas.

A recente implementação dos exames nacionais em formato digital veio, aliás, evidenciar esta realidade, sendo que a vontade de demonstrar que o sistema educativo português acompanha a modernidade acabou por expor precisamente as suas fragilidades. As dificuldades técnicas, os constrangimentos logísticos e a ansiedade gerada em alunos, professores e escolas mostraram que ainda não existiam as condições necessárias para uma mudança desta dimensão. Mais do que um conjunto de falhas informáticas, este episódio revelou uma tendência preocupante: a de querer chegar primeiro, antes de garantir que o caminho está preparado.

A experiência internacional reforça esta ideia. Os países nórdicos, tantas vezes apontados como referência pela qualidade dos seus sistemas educativos, começaram a rever a aposta na digitalização precoce das escolas. A Suécia, por exemplo, decidiu voltar a investir nos manuais em papel, na escrita à mão e na leitura prolongada, reconhecendo a importância destas práticas para o desenvolvimento da atenção, da memória, da compreensão leitora e do pensamento crítico.

Perante este cenário, importa retirar uma conclusão simples. A educação não pode ser orientada pela necessidade de acompanhar modas tecnológicas nem pela vontade de demonstrar que somos pioneiros na inovação. Deve ser guiada pela evidência científica e por uma pergunta muito mais relevante: o que ajuda verdadeiramente as crianças e os jovens a aprender melhor? A tecnologia terá, sem dúvida, um lugar central na escola do futuro. Mas esse lugar não deve ser o ponto de partida. Deve ser o resultado de um percurso em que primeiro se aprende a ler, a escrever, a pensar, a comunicar, a colaborar e a compreender o mundo.


Ana Catarina Mesquita

Doutorada e investigadora em Estudos Globais, com especialização nas áreas da educação, cultura e sociedade. O seu trabalho centra-se nas transformações contemporâneas, com particular atenção ao impacto da globalização, da educação e das dinâmicas culturais nas novas gerações.

Contactos

@ana.catarina.mesquita

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