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O “Comeback” de Valerie Cherish ao ecrã

Lisa Kudrow regressa à HBO Max para interpretar, pela última vez, Valerie Cherish na série de comédia The Comeback. A terceira temporada estreia hoje, 23 de março, e terá oito episódios lançados semanalmente.

Vinte anos após a estreia da primeira temporada, em 2005, e dez anos depois da segunda, The Comeback regressa hoje, 23 de março, para a sua terceira e última temporada. Os novos episódios serão lançados semanalmente na plataforma de streaming HBO Max até ao final, que vai para o ar a 11 de maio.

Criada por Michael Patrick King e Lisa Kudrow, a série acompanha Valerie Cherish, uma atriz de 40 anos que, no competitivo mundo da televisão, luta para manter a carreira à tona. Duas décadas depois, Valerie enfrenta novos desafios — como o aparecimento da inteligência artificial — próprios do tempo em que vive.

Lisa Kudrow, que volta a dar vida à personagem pela última vez, explica as motivações deste regresso e o que o público pode esperar do desfecho de The Comeback.

Lisa Kudrow em entrevista

Após 10 anos da estreia da segunda temporada, porquê regressar agora com The Comeback? Pareceu o momento certo?

Pareceu o momento certo porque tínhamos a ideia certa. O Michael Patrick King e eu temos almoçado ao longo dos anos e acabamos sempre a conversar: “Então, o que estará a acontecer com a Valerie? Devíamos pensar num filme ou algo assim?”. Mas nunca tínhamos a ideia certa. Desta vez, o Michael disse: “Ela recebe a proposta para ser protagonista num sitcom de várias câmaras — o sonho dela — mas o guião é escrito por uma inteligência artificial (IA).” E eu respondi: “Sim, claro!” Há tantas possibilidades aí. Desta vez, o “inimigo” não é bem um inimigo, mas já não é o argumentista que tem raiva dela por causa da forma como é. É a IA. E o que é que isso significa? Como é que isso se traduz? Então pensámos: vamos simplesmente fazer com que o programa seja escrito por uma IA. Parece que há entraves suficientes para que isso ainda demore algum tempo a acontecer na realidade.

Como foi voltar a dar vida a Valerie? Entrou facilmente no papel?

Sim, até foi fácil. O único obstáculo foi pensar: “Espera, já estou a transformar-me nela?”. O bom é que, como passa uma década entre temporadas e a Valerie também tem mais dez anos, tudo muda um pouco. Vimos isso da primeira para a segunda temporada: ela começou a defender-se mais. Continua a entrar em pânico e a sentir que tem de fazer algo, mas é tão resiliente como sempre foi. Foi divertido e assustador ao mesmo tempo. Quando estamos a trabalhar, focamo-nos e pronto. Depois filmamos e, de repente, é: “Oh não, agora as pessoas vão ver isto!”

Anunciaram que esta seria definitivamente a última temporada. Nunca houve a hipótese de deixar isto em aberto? 

Porque agora é uma trilogia. Está completo. Não sei se daqui a dez anos vamos querer voltar a fazer isto. Não sei. Nós adoramos a Valerie, mas dá imenso trabalho. A maldição, mas também a bênção, foi o facto de a série não ter sido renovada depois da primeira temporada. Foi uma desilusão, mas não devastador. Senti que tinha feito o melhor que podia, em termos de criar, escrever e executar um projeto. Por isso, não fiquei com remorsos. Pareceu-me apenas que foi um erro de outra pessoa, não meu. E depois, dez anos mais tarde, poder comentar o estado da indústria televisiva foi incrível. Era um cenário completamente diferente. Agora, vinte anos depois da primeira temporada, voltou a mudar tudo. Há algo de bonito em poder registar o que tem acontecido aos argumentistas e à indústria em geral. Cada temporada é, de certa forma, uma cápsula do tempo.

A terceira temporada da série estreia hoje, 23 de março, na HBO Max

Como foi voltar a trabalhar com Michael Patrick King (MPK)?

Fantástico. Estamos totalmente em sintonia neste projeto. Só que passamos imenso tempo a falar, falar, falar. Temos volumes e volumes de ideias e depois lá pensamos: “Ah pois, temos de começar a escrever!”. Então começámos a escrever a primeira cena do primeiro episódio e eu disse: “Isto está mesmo bom. Vamos continuar.”

O Michael disse que é muito boa a cortar, a perceber o que não é preciso.

Sim, acho que sou.

É uma boa habilidade.

É, quando se consegue aplicar. Muitas vezes é “não, não, não podemos cortar isto”. No set, às vezes, dizia: “Porque é que estou a falar tanto? Porque é que a Valerie fala tanto? É demais.” E o Michael respondia: “Precisamos disto.” Eu dizia: “está bem, depois cortas na montagem.”

O elenco da terceira temporada é composto por Dan Bucatinsky, Laura Silverman, Damian Young, Tim Bagley, Matt Cook, Jack O’Brien, Ella Stiller, John Early, Barry Shabaka Henley, Abbi Jacobson, Tony Macht, Brittany O’Grady, Zane Phillips, Julian Stern e Andrew Scott.

Foi difícil equilibrar, nesta última temporada, entre ser algo autónomo para novos espectadores e satisfazer os fãs de longa data?

Não senti que fosse difícil. Precisamos de ter algo para quem conhece a série de trás para a frente. Essas pessoas sabem se deixámos algo de fora ou se ignorámos acontecimentos anteriores. Vão querer ver alguns dos “time out” ou “that’s NG”. Garantimos que houvesse momentos assim, mas acabam por surgir naturalmente, porque é ela. Ela continua a ser ela: convencida de que é esperta e engraçada.

Valerie parece mais confiante nesta temporada.

Sim. E isso deve-se ao Billy, que era o seu publicista e agora é o seu agente, que insiste em que sejam produtores executivos. Ela não pede isso. Sabe que há showrunners, e sabe que não deve mostrar que quer mandar. Ela já aprendeu o suficiente. Sabe qual deve ser o seu lugar e, ironicamente, é a única que realmente se importa. O pobre do realizador começou duas horas antes de a conhecer! Nem leu o piloto, nem o guião.

Nesta temporada, há um episódio em que Valerie enfrenta o luto por causa do Mickey, interpretado pelo ator Robert Michael Morris, que faleceu em 2017. Como foi trabalhar nessas cenas?

Foi muito bonito e pareceu o que devia ser. O MPK, claro, conhecia o Robert Michael Morris desde os tempos da universidade. Curiosamente, ele gostava de ser chamado de Michael, não de Robert Michael Morris. Era professor de representação do MPK, e este soube logo que ele seria perfeito para o papel do Mickey na primeira temporada — que, aliás, foi o seu primeiro trabalho. A primeira audição dele foi diretamente para os chefes da HBO. Saiu-se lindamente. Foi maravilhoso. Durante as filmagens desta nova temporada, houve até um momento mágico: no telhado, o sol bateu de tal maneira que se formou um arco-íris entre a Valerie e a Jane. Aconteceu naturalmente, e foi mágico.

Como vê o panorama atual da indústria e como foi integrar esses elementos no argumento?

Nesta indústria há sempre algum tipo de pânico. Na primeira temporada, era o confronto com a realidade da TV de competição e toda a gente dizia: “Pronto, acabou a ficção.” Não acabou, mas passou a haver menos trabalho para argumentistas. Dez anos depois, veio o auge das séries de prestígio dos canais por cabo, as dramedias curtas, de 8 a 13 episódios, e precisavam de menos argumentistas ainda. Agora, dez anos depois disso, reduziram outra vez. E como os estúdios pertencem a conglomerados ainda maiores, os orçamentos são mais apertados. Há sempre pânico. E a verdade é que há cada vez menos gente a trabalhar. Então, tentamos mostrar como as pessoas da indústria reagem a isso, como se adaptam. Mas a Valerie não entra em pânico: “Ah, é assim agora? Está bem. Vamos a isso.” Eu também não estou em pânico com a IA. Acho que o público sempre nos dirá o que quer ver. São eles os clientes, no fundo. E o público gosta tanto de coisas brilhantes como de conteúdos “mais ou menos”. Gosta do que gosta, simplesmente.

Acho que haverá sempre vontade de ver histórias contadas por pessoas.

Também acho. Hoje em dia, com toda a gente colada ao telemóvel, é por isso que o Friends continua a atrair jovens. Há uma nostalgia inconsciente pela ligação humana.

Sim, para eles nem é nostálgico, mas tem esse sentimento.

Exato. E a nossa cultura também mudou muito desde então. Portanto, é também uma cápsula do tempo sobre como as coisas eram. É engraçado, o Ross e a Rachel estavam “em pausa”. No reencontro dissemos todos “sim, estavam em pausa, tudo bem”. Mas revi esse episódio há pouco e pensei: “Não, não está nada bem!” Foi tão egoísta… porque é que o trabalho dela não pode ser importante? É por ser no mundo da moda? E ele é paleontólogo, e isso é automaticamente mais importante? Fiquei furiosa. O problema não foi ele ter traído, foi não valorizar o que ela fazia.

O episódio final vai ser lançado no dia 11 de maio

De que forma as suas próprias experiências de sucesso e de fracasso influenciaram a escrita de The Comeback?

Completamente. E não só as minhas. Na primeira temporada, tínhamos uma equipa de argumentistas e todos eles tinham trabalhado com, pelo menos, dois “Paulie Gs”! Fiquei em choque, porque em Friends dávamo-nos lindamente com os escritores e produtores. Era um trabalho colaborativo. Portanto, The Comeback não tem nada a ver com Friends, mas eu já tinha sido atriz convidada noutros programas e tinha visto certas dinâmicas. As observações sobre showrunners e argumentistas vieram mesmo das experiências do Michael Patrick King e dos restantes escritores.

Que legado gostava que Valerie Cherish deixasse?

Que ela é resiliente e que todos temos de nos adaptar. Há coisas que escapam ao nosso controlo. Mas sinto que, se algo não está no caminho certo, acaba por se resolver. O mais importante é sobreviver até lá. Continuar a respirar e a encontrar uma forma.

Ou seja, todos podemos aprender algo com ela?

Ironicamente, sim. No início, eu própria troçava: “Meu Deus, porque é que ela não sabe simplesmente calar-se?” Mas com o tempo percebi: ela não consegue evitar. Porque é que ela aceita aquelas situações? O que há de errado com os valores dela? E percebi: ela quer o que quer e pronto.

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