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O idadismo é o novo cool da indústria da moda?

A idade continua a ser usada para medir o que uma mulher “pode” ou “não pode” vestir, mas o conflito que vejo todos os dias nos provadores não é estético: é de identidade, alimentado por crenças herdadas em casa e romantizadas por uma indústria que ainda insiste em vender a juventude como ideal obrigatório.

Ao longo da minha vida profissional, primeiro em atendimento personalizado e hoje como consultora de moda, ouço recorrentemente desabafos que revelam crenças muito enraizadas sobre idade e imagem: “Quando achar que estou a ser ridícula, tem de me avisar;”; “esta peça já não é para mim.”; “esta peça já não é adequada à minha idade”; “Os meus filhos vão ter vergonha de mim”. O idadismo no momento de vestir não é, na maioria das vezes, uma regra imposta, é uma autocensura.

Importa, porém, clarificar algo que raramente é assumido: muitas das crenças que temos em relação à roupa não nasceram na moda, nasceram dentro de casa. Foram transmitidas de geração em geração, através de frases simples, aparentemente inofensivas, que vão criando limites e inseguranças.

Quando se diz que uma peça “não é para a sua idade”, não se está a apresentar um critério estético, mas sim, a transmitir uma crença, que se transforma em algo profundamente limitador.

A moda, no entanto, teve e continua a ter a sua própria responsabilidade neste processo, pois, durante décadas, construiu e vendeu um ideal de mulher que não representa a mulher real. É comunicada uma juventude permanente, um determinado tipo de corpo, uma imagem visualmente perfeita e uma narrativa irreal.

Este imaginário coletivo ajudou a consolidar inseguranças que hoje surgem, com enorme frequência, no quotidiano das mulheres. Esse impacto não fica apenas na comunicação das marcas, pois entra diretamente na forma como cada mulher se olha.

Na prática, aquilo que observo todos os dias não é um conflito estético, é, sim, um conflito de identidade.

As mulheres reais atravessam mudanças de vida profundas, maternidade, separações, recomeços profissionais, menopausa, cansaço acumulado, alterações de peso, transformações emocionais. E tudo isto influência a forma como se reconhecem, ou deixam de se reconhecer, na própria imagem. O que acontece, muitas vezes, é que continuam a vestir versões antigas de si mesmas e quando percebem que é necessária uma atualização, seja, de estilo, de tamanho, de linguagem visual, ou simplesmente de aceitação de que algo mudou, surge quase sempre a culpa, a ideia de que falharam quando deixaram de ser quem eram.

A idade, por si só, não impõe limites estéticos; esses decorrem da convicção social sobre como uma mulher “deve” parecer em cada fase da vida.

Stephanie Cavalli abriu o desfile de alta-costura Primavera-Verão 2026 da Chanel. Créditos: Chanel

Nos últimos anos, a indústria começou a introduzir mulheres mais maduras na sua comunicação. Exemplo disso foi o desfile de alta-costura Primavera-Verão 2026 da Chanel, em Paris, no passado mês de janeiro, marcado por integrar uma série de modelos com mais de 40 anos. Stephanie Cavalli, de 50 anos, abriu o desfile exibindo os cabelos grisalhos num movimento de pura afirmação. Tinha-se reformado do mundo da moda aos 38 anos. Disse à Vogue que, na época, “estava numa idade intermédia”, era considerada velha demais para continuar a participar em desfiles, mas jovem demais para integrar a categoria de modelos maduras, como hoje são classificadas. Passou então a dedicar-se ao negócio de curadoria de roupa vintage.

Paulina Porizkova na campanha da Estée Lauder.
Créditos: Estée Lauder

A escolha da modelo Paulina Porizkova para rosto oficial da Estée Lauder, Nicole Kidman protagonista da campanha de Winter 2025 da Balenciaga ou Laura Dern na campanha de acessórios de luxo da Roger Vivier, são exemplos de como os 50 estão a ser romantizados pela indústria como os novos 30.

Nicole Kidman protagonizou a campanha de Winter 2025 da Balenciaga.
Créditos: Pinterest

Este movimento é relevante, não obstante continuar a ser exceção. E é precisamente por isso que continuamos a falar de idadismo: a maioria das mulheres não se sente verdadeiramente representada nas imagens que definem o que é desejável na moda.

Laura Dern na campanha de acessórios de luxo da Roger Vivier.
Créditos: Roger Vivier

Existe, além disso, um traço muito revelador que permanece no discurso comercial, que passa pela necessidade constante de esconder a idade. Em lojas e em campanhas publicitárias, continua a ser considerado um elogio ouvir frases como “com esta peça fica muito mais jovem”. Como se parecer mais jovem fosse, inevitavelmente, o objetivo de todas as mulheres.

No entanto, a realidade é bastante diferente, porquanto a maioria das mulheres de 40, 50 ou 60 anos não quer voltar a ter 20. Prefere e valoriza a tranquilidade, coerência, liberdade e paz interior. A vida é muito mais do que estética, é aceitação das fases, das mudanças, das aprendizagens e da maturidade que o tempo constrói.

No atendimento e no trabalho de styling, vejo diariamente mulheres a serem empurradas para zonas consideradas “seguras”: cores neutras, escolhas discretas, propostas pouco afirmativas, como se a maturidade exigisse contenção visual, como se não se pudessem divertir a criar a sua própria estética. O styling pode ser exatamente o contrário, ao ser um espaço de autonomia, um lugar onde a mulher volta a escolher por si e não a partir de crenças limitadoras impostas socialmente.

Cada vez mais adoro conviver com mulheres maduras e tenho a sorte de aprender, todos os dias, com o exemplo de muitas delas. Por isso, afirmo que a idade não é para ser disfarçada, é para ser vivida. A idade não define o que podemos vestir; define, quando muito, e com o maior orgulho, a experiência que trazemos na nossa bagagem.


Liliana Correia

Personal stylist na LC Fashion Consultancy

Curadora do evento Resale Gallery

Veja mais em Liliana Correia

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