Há uma frase que oiço com muita frequência nas minhas sessões de styling: “Preciso de mudar o meu estilo”. À primeira vista, parece um pedido simples, quase superficial, mas na realidade contém muito mais informação do que aparenta. A partir desse momento, as minhas perguntas deixam de ser sobre roupa e passam a procurar o que deixou de estar alinhado entre a pessoa e a imagem que construiu até ali. Em algum ponto, a imagem deixou de representar quem é, e é essa rutura que dá origem ao pedido de mudança.
Ao longo dos anos, fui percebendo que existem sinais claros quando esse desalinhamento acontece. O armário pode estar cheio, mas não se encontra nada para vestir. As compras tornam-se impulsivas, feitas na expectativa de que uma peça resolva um desconforto que, na verdade, não está na roupa. Surgem também situações em que os comentários de terceiros começam a incomodar porque expõem um desfasamento entre a forma como a pessoa se vê e a forma como é percecionada.
Quem trabalha diariamente com mulheres reconhece este padrão com facilidade. O pedido de mudança raramente surge de forma impulsiva; nasce, quase sempre, depois de fases exigentes, de conquistas, de perdas, de mudanças de ritmo ou de responsabilidades. Por vezes, surge apenas de um momento de maior consciência. A roupa não provoca esse processo, é o meio que acaba por revelá-lo.
A maturidade tem aqui um papel determinante, e não falo de idade, mas da forma como a pessoa passa a olhar para si própria. Há um momento em que deixa de existir interesse em corresponder a expectativas externas e em que a validação deixa de vir de fora. É também frequente observar-se uma mudança na relação com o corpo. Muitas mulheres vivem condicionadas por um conjunto de regras sobre o que não podem usar, o que devem esconder, o que “já não é adequado” e, uma parte importante do meu trabalho passa, precisamente, por questionar e desmontar essas ideias.
Quando uma cliente começa a olhar para si com mais clareza e menos julgamento, a mudança acontece. Essa mudança traduz-se em escolhas: deixam de ser excessivas e passam a ser mais criteriosas. Deixa de ser uma questão de quantidade e passa a ser uma questão de qualidade. O excesso cria ruído e, onde há ruído, não há clareza, há menos identificação e menos espaço para se ser criativa.
É por isso que o processo começa, quase sempre, no armário. Esta altura do ano, durante a transição para primavera/verão, é a ideal para esse exercício. Não se trata apenas de trocar roupa de estação, mas de fazer uma avaliação honesta do que continua a representar a pessoa no momento presente. Selecionar, editar, retirar o que já não faz sentido e reorganizar o que permanece permite criar um espaço mais funcional e mais coerente. Um armário alinhado não é o mais cheio nem o mais vazio: é o mais consciente.
Enquanto consultora, não entro neste processo para impor um estilo, mas para ajudar a traduzir em imagem o que já existe, com mais objetividade e mais clareza. Em alguns casos, isso implica mudanças profundas, noutros, pequenos ajustes que fazem toda a diferença. Em qualquer dos casos, exige sempre um grau de consciência e de disponibilidade para esse alinhamento.
E, quando esse alinhamento acontece, há uma mudança subtil, mas muito significativa: deixa de existir a necessidade de falar em “mudar de estilo”. O foco passa a ser outro, sentir-se bem com o que veste, com naturalidade. E na realidade, foi isso que sempre se procurou.
Liliana Correia

Personal stylist na LC Fashion Consultancy
Curadora do evento Resale Gallery