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Séculos de repressão e a insatisfação crónica da mulher heterossexual

É cada vez mais frequente ver as mulheres que me procuram trazerem temas ligados à expressão da sua sexualidade e vida íntima. Elas estão mais conscientes e sensíveis a estes temas e, muitas delas, apesar de considerarem estar a fazer um caminho para alcançarem, de facto, maior igualdade, por exemplo, perante a lei, perante a representatividade em cargos de poder, perante as condições salariais, continuam estagnadas num ponto, ou (aparentemente) sem o mesmo acesso a um direito fundamental, tido pela OMS como um dos pilares da qualidade de vida: a saúde sexual, vulgo, o prazer na cama.

Aqui não há quotas que lhes valham para que pudessem aproveitar os paroxismos da intimidade, que quando nascem deveriam ser para todos. Muita coisa parece ter mudado, mas nisto, a maioria das mulheres permanece estacionada nas decanas estatísticas do tempo das outras senhoras relativas à frequência dos orgasmos: nula, nicles, insignificante. Na verdade, um número impressionante de mulheres nunca chegou ou chega a atingir um orgasmo na vida (facto que me chocou quando há alguns anos tomei dele conhecimento e que, de resto, lamento profundamente).

Há ainda outros dados que mais recentemente me deixaram pasmada (do Archives of Sexual Behavior, 2018, corroborado por inúmeros outros estudos de universidades norte-americanas e mesmo pelo famoso Kinsey Institute, referência maior em sexologia clínica). Deixaram-me meio que estupefacta porque 1º) não conheço essa realidade, pessoalmente (sim, co-responsabilizem o meu marido, é justo); 2º) muito pelo contrário, é bis, encore e mais não digo e 3º) apesar de não ser um tema abertamente falado nos círculos sociais, eu já tinha a certeza de que isso era verdade, pelo que escuto em consultório. E o que é? É o seguinte:

As mulheres heterossexuais são o grupo que chega menos vezes ao orgasmo, já que atingem o clímax em somente 65% das vezes que mantêm relações. Por outro lado, no primeiro lugar estão os homens heterossexuais, com uma percentagem de orgasmos de 95%, seguidos pelos homens gays (89%), os homens bissexuais (88%), as mulheres lésbicas (86%) e as mulheres bissexuais (66%).

Tal deu-me que pensar. Afinal, porque é que isto acontece? Que motivos se podem levantar e discutir sobre a equação orgasmo e género? O que precisamos aprender com este enorme “gap” do orgasmo?

Por esta altura já imagino muitos a argumentar que a culpa das mulheres terem dificuldade em ter prazer só faltava ser da sociedade patriarcal. Não subscrevo de todo aquele chavão falso de que “não existem mulheres frígidas mas sim homens inexperientes”, pois acredito que cada um(a) é responsável pelo seu próprio prazer. Mas se é verdade que a sexualidade e o corpo femininos são mais – como direi? – sofisticados, também é verdade que a predisposição e a capacidade de usufruir (e não me refiro somente ao sexo) não dependem apenas na biologia, da genética, da fisiologia. Dependem em grande escala da cultura, do meio e do ambiente (interno e externo) em que se cresceu. Se pais felizes produzem filhos felizes, é válido dizer que sociedades doentes, falsamente puritanas e com uma má relação com a sexualidade (feminina, sobretudo, mas também a masculina) produzem mulheres e homens potencialmente anorgásmicos.

O orgasmo pleno não é necessariamente um show de urros e socos na cama, mas uma sensação de libertação física e psicológica que causa uma profunda sensação de paz e fluidez. Como a ciência comprova, um orgasmo é saúde, é imunidade, é vida, é antidepressivo, é conexão.

Mas mais do que isso. A sexualidade tem uma dimensão sagrada e, na realidade, é um lugar de enorme vulnerabilidade tanto para um homem como para uma mulher. Quando os nossos antepassados se estabeleceram num determinado local, nasceu o conceito de propriedade, a mulher passa a ser objectificada e usada em prol dos interesses do patriarcado. Este afastamento da sacralização do acto sexual assim como da posse do corpo feminino, distorceu ao longo dos séculos esse lugar de intimidade onde se celebra o prazer, as forças criadoras da vida, onde se honra a comunhão entre dois seres e onde se expressa a semente erótica de Eros, ou seja, do Amor.

O sexo passa a ser mais um instrumento de manipulação e de supressão. Fruto desse movimento é a indústria pornográfica. Não se trata apenas da dimensão desta indústria e dos biliões que ela gera mas também o conteúdo que é oferecido. É a representação máxima da desconexão entre seres humanos, a expressão de uma misoginia, brutalidade e de uma frieza emocional que afectam tanto mulheres como homens. Sobretudo as gerações mais jovens que, à falta de uma educação sexual e de uma pedagogia do amor, encontram na internet a representação da “união” sexual entre seres humanos. E isso cria um ciclo vicioso, onde o abuso sexual que ocorre há milénios dá origem à indústria pornográfica que, por sua vez, “ensina” aos jovens uma sexualidade abusiva e assim sucessivamente.

Poucas mulheres têm uma vida sexual feliz e saudável. A castração secular do seu direito ao prazer e à auto-determinação sexual têm-se feito acompanhar cultural e historicamente por duas armas de arremesso para o controlo social e a manipulação psicológica: a culpa e a vergonha.

Contrariamente a outras importantes tradições filosóficas e espirituais milenares ao redor do globo (que honravam este aspecto sacral do sexo representando-o explicitamente nas paredes dos templos ou em livros sagrados) a herança cultural da tradição Judaico-Cristã, transmite atitudes negativas face ao sexo em geral e à sexualidade feminina, em particular, que têm persistido e levado a sentimentos de culpa e de vergonha, no caso das mulheres. A socialização sexual é mais permissiva para os homens e muito mais repressiva para as mulheres. Mesmo as mulheres capturadas pelo discurso falacioso do “girl power” que são mais “libertas” sexualmente estão sujeitas a um sexo pornificado, falocêntrico, performático e violento, com uma desvalorização total do prazer feminino em prol da satisfação masculina. O que é que isto faz à cabeça de um miúdo de 13 anos que ainda não iniciou a sua vida sexual? É este o padrão? É esta a norma?

Um facto também curioso (e mais comum do que se possa imaginar) é o de algumas mulheres me relatarem que a primeira vez que se sentiram vistas, acolhidas (e satisfeitas sexualmente) na cama foi com outra mulher. O que será que temos aqui que nos permita compreender algo essencial sobre a resposta sexual feminina?

Desconhecimento sobre o próprio corpo, falta de comunicação e partilha autêntica com o parceiro, repressão secular pela educação e cultura (ainda hoje a mulher que aproveita abertamente o sexo e o reconhece não é bem vista), como é que elas esperam passar da desconexão consigo mesmas e da curiosidade sexual nula, ao longo do desenvolvimento, ao desfrute do sexo através de um companheiro? Não é fácil.

Somos empurradas para os relacionamentos com uma promessa de realização eterna, sem antes entendermos toda a problemática em, frequentemente, estarmos num relacionamento que tem por base uma diferença estrutural de poder.

Você quer explorar as raízes da sua sexualidade? Que coisas gosta, que coisas mudaria? Onde e o que aprendeu sobre sexo? Que modelos de casal e afectivos carrega? Fazer perguntas a nós mesmas sobre a nossa sexualidade e relacionamento com a intimidade ajuda-nos a entender onde e quando criámos crenças, bloqueios e padrões no nosso comportamento. Talvez mais do que sugadores de clítoris, esta exploração é fundamental para uma conexão gratificante, tanto física quanto emocionalmente.

Reconecte-se com a sabedoria antiga, com os saberes ancestrais, com a sua sexualidade e com as formas mais extraordinárias e expansivas de a expressar. Não seja a boazinha fingida nem a dominadora desligada do coração. Como esquecer a nossa força libidinal multiorgásmica abençoada pela natureza?

Esquecer sim um pouco as normas e recomendações daquela tia velha encalhada ajuda mais, mas acima de tudo saiba que o sexo torna-nos humanos e é um prazer que traz felicidade real e que você tem direito à vida e pode usufruir das delícias da criação.

Sara Ferreira

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apsicologasara.com

Sara Ferreira

Psicóloga Clínica (Cédula Profissional Nº 10418)

Terapeuta Credenciada pela Federação Europeia de Associações de Psicólogos (PT-052503-201907)

Gestora de Formação e Formadora Certificada (CAP N.º EDF 46361/2005)

Técnica de Saúde Certificada pela Ordem dos Psicólogos Portugueses na prestação de Consultas de Tele-Psicologia (Online)

Escritora

968147357

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