Durante agosto assinala-se o mês internacional da amamentação. Em Portugal, este tema tem estado na ordem do dia e gerado debate devido ao pacote de cerca de 100 alterações à lei do trabalho, aprovado pelo Governo em Conselho de Ministros no final de julho. Entre as várias mudanças, destacam-se restrições ao direito à dispensa para amamentação ou aleitação, como a fixação de um limite máximo de dois anos para esse direito e a obrigação de apresentar um atestado médico logo no início da dispensa e renová-lo a cada seis meses. Estas alterações têm gerado preocupação pelo impacto direto na vida das mães e dos seus bebés.
Segundo Cátia Silva, Psicóloga Clínica e Supervisora pela Ordem dos Psicólogos Portugueses, a amamentação ativa a libertação de ocitocina, a hormona do vínculo, que acalma, aproxima e fortalece a relação mãe-bebé. Cada olhar trocado, cada toque, cada pausa no mundo exterior cria um espaço de conexão emocional profunda.
Cátia Silva, Psicóloga Clínica e Supervisora pela Ordem dos Psicólogos Portugueses
“Esta relação precoce é a base de um apego seguro, uma das maiores proteções psicológicas ao longo da vida”, explica Cátia.
5 BENEFÍCIOS EMOCIONAIS E PSICOLÓGICOS DA AMAMENTAÇÃO PARA A MÃE
Para a mãe, o aleitamento pode ser visto como uma proteção emocional, pois a produção hormonal durante a amamentação “reduz o stress, diminui o risco de depressão pós-parto, entre outras vantagens”.
“Quando a amamentação é uma escolha consciente, proporciona à mãe momentos de pausa e presença”, afirma a especialista.
Os 5 benefícios emocionais:
- Redução do risco de depressão pós-parto.
- Maior vínculo emocional.
- Diminuição dos níveis de stress e aumento do bem-estar psicológico.
- Melhoria da autoestima e confiança nas decisões parentais.
- Momentos de pausa emocional, presença e conexão.
5 BENEFÍCIOS EMOCIONAIS E PSICOLÓGICOS DA AMAMENTAÇÃO PARA O BEBÉ
Para o bebé, a psicóloga explica que os benefícios vão além do alimento: “O contacto pele com pele regula o sistema nervoso, promove tranquilidade e ajuda a gerir emoções como o medo ou a frustração. Bebés amamentados apresentam melhores respostas ao stress e uma maior capacidade de autorregulação ao longo do desenvolvimento”.
Os 5 benefícios emocionais:
- Segurança emocional e sensação de contenção.
- Regulação do sistema nervoso e do cortisol (hormona do stress).
- Desenvolvimento de um apego seguro, essencial para relações futuras.
- Consolidação de rotinas de sono, alimentação e tranquilidade emocional.
- Maior estimulação sensorial e emocional para o desenvolvimento cerebral.
BENEFÍCIOS DA AMAMENTAÇÃO PARA ALÉM DOS DOIS ANOS
Neste momento, o Código do Trabalho prevê que a mãe que amamenta o filho tem direito a dispensa do trabalho para esse efeito, durante o tempo que durar a amamentação. Porém, o Governo quer fixar um limite e restringir esta dispensa até a criança perfazer dois anos.
Para Cátia estas alterações reduzem este ato a algo meramente biológico e temporário, como se a partir dos dois anos deixasse de fazer qualquer sentido. Porém, a “ciência mostra o contrário: amamentar continua a ser benéfico, tanto para a mãe como para a criança, mesmo para além dos dois anos”. A Organização Mundial da Saúde também recomenda o aleitamento até aos 2 anos ou mais, sempre que mãe e filho assim desejarem.
“A amamentação prolongada mantém benefícios físicos, mas sobretudo emocionais, porque a criança não procura apenas leite, procura segurança emocional, conforto…”, refere a psicóloga.
Entre os 2 e os 4 anos, a criança está numa fase de descoberta da autonomia, o que pode gerar medo, frustração e desafios emocionais. Nestes momentos, o peito funciona como um “porto seguro”, ajudando a criança a regular emoções intensas e a ganhar confiança para explorar o mundo. Além disso, o desmame natural (quando a criança e a mãe estão prontas) favorece uma separação gradual e saudável, prevenindo sentimentos de rejeição ou insegurança.
“Como psicóloga clínica, vejo diariamente o poder do colo, do toque e da ligação emocional, bem como o impacto que a ausência destes causam. Não se trata de defender que todas as mães devem amamentar para além dos dois anos. Trata-se de respeitar a escolha de cada mulher e de não deslegitimar um ato que, para muitas famílias, é uma fonte de saúde mental, conforto e vínculo. Quando alguém afirma que amamentar depois de certa idade “não faz sentido”, está a perpetuar estigmas e a ignorar a evidência científica. Amamentar não é apenas nutrir, é presença, é afeto, é vínculo, é saúde mental. E se, para algumas mães, esta conexão faz sentido para além dos dois anos, isso deve ser valorizado e apoiado”, conclui Cátia.
Amamentar um “bebé crescido” não é um gesto de dependência excessiva, mas sim de respeito pelo tempo emocional da criança.