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A Saúde da Mulher é Política

A Endometriose exige uma resposta pública estruturada.

A endometriose e a adenomiose continuam a ser dois dos exemplos mais claros de como certas condições de saúde, apesar de altamente prevalentes e incapacitantes, permanecem subvalorizadas nas agendas de saúde pública. Estima-se que milhões de mulheres em idade reprodutiva sofram destas patologias, muitas vezes durante anos sem diagnóstico e enfrentando dor nas mais diversas formas. Estas doenças têm impacto na fertilidade, impacto psicológico, social, familiar e constituem, na maior parte dos casos, perda de qualidade de vida. Ainda assim, a resposta política e institucional permanece, de forma geral, insuficiente e aquém da dimensão do problema à escala global.

Um dos principais problemas reside no atraso no diagnóstico. Em média, uma mulher pode esperar entre sete a dez anos até obter um diagnóstico correto de endometriose. Este atraso não é apenas uma falha clínica, é um reflexo de lacunas estruturais nos sistemas de saúde. A normalização da dor menstrual, a falta de formação específica entre profissionais de saúde e a ausência de protocolos e diretrizes claros contribuem para um ciclo de invisibilidade e desvalorização. No caso da adenomiose, a situação é ainda mais complexa, dado o menor nível de reconhecimento e investigação.

Do ponto de vista das políticas públicas, é essencial reconhecer que estas doenças não são apenas questões individuais, mas sim problemas de saúde coletiva. A dor incapacitante e todo o conjunto de sintomas associados às patologias têm repercussões diretas na produtividade laboral, no absentismo escolar, no índice de fertilidade e nos custos indiretos para a economia. Ignorar e desvalorizar estas condições não é apenas uma falha em termos de equidade em saúde, mas também uma opção com impactos económicos significativos e evitáveis. O estado continua a lidar com estas patologias de forma paliativa em vez de se debruçar sobre elas de forma preventiva e pró-ativa.

Uma política de saúde eficaz deve começar pela educação e sensibilização. É urgente integrar o ensino sobre saúde menstrual e doenças ginecológicas nos currículos escolares e reforçar a formação contínua de profissionais de saúde nesta área. Paralelamente, campanhas públicas estruturadas podem desempenhar um papel decisivo na redução do estigma e na promoção da procura atempada de cuidados médicos. No entanto, importa reconhecer que, atualmente, grande parte deste esforço continua a ser assegurado pela sociedade civil, através de associações e coletivos, colmatando lacunas que deveriam ser prioritariamente assumidas pelas instituições públicas.

Outro pilar fundamental reside no acesso a cuidados de saúde especializados e diferenciados. A criação de centros de referência dedicados à endometriose e à adenomiose permitiria melhorar de forma significativa o diagnóstico precoce e a qualidade do tratamento, promovendo uma abordagem multidisciplinar mais eficaz. Simultaneamente, contribuiria para atenuar desigualdades regionais e sociais no acesso a cuidados, garantindo maior equidade no sistema de saúde.

A investigação científica exige igualmente um reforço significativo de investimento, na medida em que sustenta todos os avanços anteriormente referidos. Apesar da sua elevada prevalência, estas patologias continuam a ser subfinanciadas quando comparadas com outras doenças crónicas. Sem uma base científica robusta, persistem lacunas no conhecimento sobre as suas causas, no desenvolvimento de métodos de diagnóstico precoce e na identificação de terapias verdadeiramente eficazes. Torna-se, por isso, indispensável que as políticas públicas integrem incentivos claros e consistentes à investigação nesta área.

Importa ainda referir que é crucial incorporar uma perspetiva de equidade à abordagem das patologias. As experiências de diagnóstico e tratamento variam significativamente consoante fatores etários, socioeconómicos, geográficos e culturais. Mulheres em contextos mais vulneráveis enfrentam maiores barreiras no acesso a cuidados, o que agrava desigualdades já existentes. Uma abordagem justa exige políticas inclusivas que garantam acesso universal e atempado.

A endometriose e a adenomiose representam um desafio significativo que vai além da esfera clínica. Exigem uma resposta coordenada, informada e sensível por parte dos decisores políticos. Investir na sua abordagem não é apenas uma questão de justiça para quem sofre destas condições, mas também um passo necessário para sistemas de saúde mais eficientes, sustentáveis, humanos e equitativos.


Susana Fonseca

Presidente da Associação MulherEndo 

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