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Seremos sempre julgadas — então mais vale viver!

Más notícias: vão julgá-la na mesma. Boas notícias: isso pode ser incrivelmente libertador. Uma reflexão psicológica, irreverente e sem cerimónias sobre a exaustão de tentar acertar na “medida certa” — e o prazer quase subversivo de desistir de agradar.

Há uma espécie de cansaço fino, quase invisível, que muitas mulheres carregam sem dar por isso. Não é o cansaço do trabalho, nem o das rotinas, nem sequer o das relações. É um cansaço mais subtil, mais psicológico: o de tentar acertar constantemente na medida certa. Nem demais, nem de menos. Nem muito emocional, nem demasiado distante. Nem muito disponível, nem inacessível. Uma coreografia interna permanente, afinada ao milímetro, como se existisse uma forma ultra correcta de ser mulher — e como se, com treino suficiente, fosse possível finalmente lá chegar. Mas não é.

Talvez uma das verdades mais desconfortáveis — e ao mesmo tempo mais libertadoras — seja esta: seremos sempre julgadas. Sempre. Independentemente do que façamos, da forma como amamos, trabalhamos, cuidamos, falhamos, tentamos outra vez. Há sempre uma leitura. Uma interpretação. Um rótulo prontíssimo a colar. Se estamos sozinhas, somos exigentes demais. Se ficamos numa relação, somos permissivas. Se choramos, somos frágeis. Se não choramos, somos frias. Se falamos, exageramos. Se nos calamos, consentimos. A régua nunca falha — apenas muda de mãos.

E no meio disto, há uma armadilha psicológica particularmente perversa: a ideia de que, se formos ajustando o suficiente — se formos limando arestas, moderando intensidades, escolhendo melhor as palavras, os tempos, os gestos — um dia vamos escapar ao julgamento. Um dia vamos acertar. Um dia vamos ser validadas de forma limpa, inequívoca, sem ressalvas.

Sabe que mais? Esse dia não chega. Porque o julgamento não está apenas “lá fora”. Ele instala-se. Interioriza-se. Pior: internaliza-se. Ganha voz própria. Transforma-se naquele comentário silencioso que nos acompanha: “não devias ter dito isto assim”, “estás a ser demais”, “cuidado, podem achar que…”, atenção, deves achar que…”. É o superego a fazer horas extraordinárias, muitas vezes com uma sofisticação impressionante. E, de repente, já não precisamos de ninguém a apontar o dedo — fazemos isso sozinhas, com uma eficácia “profissional”.

Chamamos-lhe maturidade, às vezes. Auto-consciência. Ajustamento. Mas, em muitos casos, é apenas medo bem articulado. Medo de rejeição, de abandono, de não pertença. Medo de sermos “demais” num mundo que ainda ensina mulheres a caber. E, enquanto tentamos caber, vamo-nos comprimindo. Pequenas concessões aqui, micro-silêncios ali, escolhas que parecem neutras mas que, somadas, vão criando uma distância subtil entre quem somos e quem mostramos.

Eu própria já estive aí — nesse lugar estranho onde se vive com medo. Onde se mede a intensidade, se edita a espontaneidade, se antecipa a leitura do outro antes de sequer terminar uma frase. É um lugar funcional, socialmente aceitável, até elogiado. Mas profundamente cansativo e adoecedor. Porque viver assim é viver em permanente auto-vigilância. E não há verdadeira liberdade possível num sistema interno que está sempre a avaliar, a corrigir, a antecipar.

Há, no entanto, um momento — e isto é interessante do ponto de vista clínico — em que algo começa a deslocar-se. Nem sempre é um grande momento. Às vezes é uma acumulação silenciosa. Um certo “já chega” que não é espalhafatoso, mas é firme. Uma saturação do esforço de agradar. Uma espécie de exaustão do cálculo. E, nesse ponto, começa a emergir uma outra posição interna: menos reactiva, menos co-dependente, mais autoral.

Não é rebeldia adolescente. Não é desleixo. Não é “agora faço o que quero e acabou”. É mais sofisticado do que isso. É um certo tipo de liberdade que não precisa de anunciar-se. Uma espécie de “não me interessa” com classe. E atenção: não é indiferença. Não é desinvestimento emocional. É, paradoxalmente, uma forma mais madura de relação — consigo e com o mundo.

É perceber que o julgamento do outro não pode nem deve continuar a ser o principal organizador da nossa vida interna. Que não podemos continuar a negociar quem somos em função de como poderemos ser percebidas. Que há um custo demasiado alto em viver permanentemente orientadas pelo olhar alheio. E que esse custo, muitas vezes, é a perda de autenticidade e de ar para respirar.

Isto não significa viver em oposição. Não é sobre “agora vou ser o contrário do que esperam de mim”. Isso continua a ser dependência, só que invertida. É outra coisa. É viver em coerência. É tomar decisões que fazem sentido internamente, mesmo sabendo que poderão não ser compreendidas externamente. É tolerar a tensão de não ser totalmente aprovada. É aceitar que haverá sempre alguém a achar que estamos a fazer demais… ou de menos. Nunca o bastante.

E, talvez mais importante ainda, é começar a reconhecer que o julgamento diz, na maioria das vezes, mais sobre quem observa do que sobre quem vive. As pessoas não veem  a realidade — veem através das suas próprias lentes, histórias, inseguranças, valores. Ainda assim, passamos uma vida inteira a tentar corresponder a projeções que nem sequer nos pertencem.

Há algo profundamente elegante — e aqui sim, verdadeiramente sofisticado — numa mulher que se autoriza a ser sem pedir licença constante. Que se conhece o suficiente para não precisar de se explicar em excesso. Que não entra automaticamente em modo defensivo sempre que não é compreendida. Que consegue sustentar-se mesmo quando não é validada. Não é rigidez. Não é arrogância. É “só” estrutura interna.

No fundo, talvez o verdadeiro luxo não esteja em ser admirada — mas em estar em paz com o facto de que não seremos unanimemente compreendidas. Ou aprovadas. Nunca fomos. Nunca seremos. E, honestamente, está tudo bem.

Porque quando deixamos de tentar agradar a todos, algo curioso acontece: começamos, finalmente, a viver. Mais a sério. Com mais verdade, mais presença, mais textura. E sim, com mais risco também. Porque viver de forma mais autêntica implica abdicar de certas seguranças ilusórias — nomeadamente a de sermos sempre bem vistas. Mas o que se ganha em troca é incomparavelmente mais valioso: uma sensação de alinhamento interno que não depende tanto do exterior.

E é aqui que a psicoterapia pode ser uma aliada extraordinária. Porque este movimento — de sair do olhar do outro como centro organizador para uma posição mais interna e autoral — não se faz apenas por decisão racional. Faz-se através de um processo. De exploração, de consciência, de confronto, de integração. Em terapia, vamos desmontando estas vozes internas que julgamos ser “nossas” e percebendo de onde vêm, a quem pertencem, o que tentam proteger.

Vamos também criando espaço para experimentar outras formas de estar — com mais margem, mais nuance, mais flexibilidade psicológica. Aprendemos a reconhecer os nossos padrões de auto-vigilância, a compreender as suas raízes (muitas vezes ligadas a histórias de validação condicional, crítica, exigência), e a construir alternativas mais saudáveis. Não se trata de deixar de nos importar com os outros — isso seria outra defesa. Trata-se de deixar de nos perdermos tanto de nós próprias no processo.

A terapia oferece, acima de tudo, um lugar onde não precisamos estar “certas”. Onde podemos ser contraditórias, intensas, confusas, claras, tudo ao mesmo tempo. Um espaço onde a experiência é acolhida antes de ser avaliada. E isso, para muitas mulheres habituadas a viver sob escrutínio constante — externo e interno — é profundamente reparador.

Porque talvez a grande mudança não seja deixar de ser julgada. Isso não controlamos. A grande mudança é deixar de viver como se isso definisse quem somos.


Sara Ferreira

Email: apsicologasara@gmail.com

Site: www.apsicologasara.com

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