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A Vida Que Não Aconteceu

A maioria das pessoas acredita que sofre pelo que perdeu. Mas e se sofresse, sobretudo, pelo que nunca chegou a ter? Hoje reflectimos sobre as vidas paralelas que imaginamos, as escolhas que nos definem e o difícil — mas libertador — exercício de fazer o luto das possibilidades que ficaram para trás.

Há lutos de que ninguém fala. Não exigem flores, nem velórios, nem mensagens de condolências. São os lutos das vidas que não vivemos. Da profissão que não seguimos. Da casa onde nunca morámos. Da pessoa que poderíamos ter amado. Crescer é escolher. Mas escolher implica sempre deixar morrer alguma coisa.

São lutos discretos, silenciosos, quase invisíveis. Habitam os bastidores da nossa vida psíquica e visitam-nos em momentos inesperados: numa fotografia antiga encontrada ao acaso, numa conversa com um amigo de infância, numa viagem, numa canção ou numa dessas noites em que o sono tarda e a mente decide revisitar caminhos antigos.

São os lutos das vidas que não vivemos.

Da relação que não escolhemos. Dos filhos que não tivemos. Do negócio que não abrimos. Do livro que não escrevemos. Da coragem que não encontrámos. Da mulher — ou do homem — que poderíamos ter sido.

Vivemos numa cultura fascinada pela ideia de realização pessoal. Somos constantemente convidados a projectar o futuro, a definir objectivos, a construir versões cada vez mais aprimoradas de nós próprios. Fala-se muito sobre crescimento, mudança, sucesso e concretização. Fala-se pouco sobre aquilo a que tivemos de renunciar para chegar onde estamos.

Mas a verdade é simples e desconfortável: crescer é escolher. E escolher implica sempre perder.

Cada escolha é simultaneamente um compromisso e uma despedida.

Quando escolhemos uma profissão, abandonamos dezenas de outras possibilidades. Quando escolhemos uma pessoa, renunciamos a todas as outras histórias que poderiam ter acontecido. Quando decidimos ficar, desistimos de partir. Quando partimos, desistimos de permanecer. Quando dizemos “sim” a uma vida, dizemos inevitavelmente “não” a muitas outras.

Talvez seja precisamente por isso que tantas pessoas permanecem suspensas durante anos. Não porque não saibam o que querem, mas porque não conseguem suportar aquilo a que terão de renunciar para o conseguir.

Querem a segurança e a aventura. A estabilidade e a liberdade. A pertença e a autonomia. A margem e o mar.

Mas a vida raramente nos concede todas as possibilidades em simultâneo.

Existe uma fantasia contemporânea particularmente sedutora: a ideia de que podemos manter todas as portas abertas. Como se a verdadeira liberdade consistisse em não escolher. Como se amadurecer significasse preservar indefinidamente todas as versões possíveis de nós próprios.

No entanto, a liberdade psicológica talvez esteja muito mais próxima da capacidade de fechar algumas portas do que de as manter todas entreabertas.

O psiquiatra e psicoterapeuta existencial Irvin Yalom escreveu que um dos grandes desafios da condição humana é confrontarmo-nos com a responsabilidade inerente à liberdade. Porque cada decisão nos obriga a abandonar possibilidades. E poucas coisas são tão difíceis quanto aceitar que uma vida, por mais rica e plena que seja, nunca poderá conter todas as vidas.

Talvez por isso algumas pessoas permaneçam emocionalmente ligadas a biografias paralelas. Habitam uma espécie de universo alternativo onde tudo teria sido diferente.

A mulher imagina a carreira artística que nunca seguiu. O homem pensa na empresa que nunca criou. Alguém recorda o amor que deixou partir e imagina como seria hoje essa vida. Outro sonha com a cidade para onde nunca se mudou.

E, sem se aperceber, começa a comparar a realidade concreta com uma fantasia cuidadosamente editada.

O problema é que a imaginação tem um hábito curioso: mostra-nos os benefícios das vidas não vividas, mas raramente os seus custos.

A relação que não tivemos parece perfeita A profissão que abandonámos parece extraordinariamente gratificante A mudança que nunca fizemos parece a solução para todos os problemas. Mas esquecemo-nos de que toda a vida contém dor. Toda.

A vida alternativa que idealizamos também teria dúvidas, frustrações, perdas, conflitos e desilusões. Simplesmente não as conhecemos. E aquilo que desconhecemos tende a parecer muito mais sedutor do que aquilo que conhecemos demasiado bem.

A psicologia conhece este fenómeno através do conceito de pensamento contrafactual: a tendência para imaginarmos cenários alternativos e avaliarmos a nossa vida em função daquilo que poderia ter acontecido. Embora esta capacidade seja importante para aprender com a experiência, pode tornar-se profundamente limitadora quando passamos a viver emocionalmente num lugar que não existe.

Porque ninguém consegue construir uma vida inteira enquanto permanece dividido entre a realidade e a fantasia.

E talvez seja precisamente aqui que reside um dos grandes paradoxos da maturidade: para abraçar plenamente uma vida, precisamos primeiro de fazer o luto das outras.

Precisamos aceitar que nunca seremos todas as pessoas que poderíamos ter sido. Precisamos abandonar a ideia de uma escolha perfeita. Precisamos reconhecer que toda a vida é, inevitavelmente, uma colecção de presenças e de ausências.

Esta ideia pode parecer triste à primeira vista. Mas talvez seja exactamente o contrário. Talvez a beleza da vida resida precisamente na sua limitação.

Se tudo fosse possível, nada teria verdadeiro valor. Se todas as portas permanecessem abertas para sempre, nenhuma decisão seria significativa. É a finitude que confere profundidade às escolhas. É o carácter irrepetível da existência que torna os nossos dias preciosos.

O problema surge quando continuamos a resistir a essa realidade. Quando permanecemos presos à nostalgia de um futuro que nunca chegou a existir. Quando insistimos em negociar com possibilidades já encerradas.

Há pessoas que vivem décadas inteiras à espera da vida certa.

Da relação certa. Do trabalho certo. Da versão certa de si próprias. E, enquanto aguardam, a única vida que possuem continua a passar.

Talvez a pergunta mais importante não seja: “E se eu tivesse escolhido diferente?”

Talvez a pergunta mais transformadora seja: “O que posso fazer, a partir daqui, com a vida que efectivamente tenho?”

Porque a verdade é que não vivemos dentro das nossas possibilidades. Vivemos dentro das nossas escolhas. E a paz raramente nasce da ausência de renúncia. Nasce, muitas vezes, da capacidade de atribuir significado às renúncias que fizemos.

É aqui que a psicoterapia pode assumir um papel profundamente transformador.

Muitas pessoas procuram ajuda acreditando que precisam encontrar respostas. Porém, frequentemente, aquilo de que mais necessitam é de elaborar despedidas. Despedidas de expectativas antigas, de identidades que deixaram de servir, de sonhos que já não correspondem àquilo que são hoje, de versões idealizadas de si próprias e das suas vidas.

A psicoterapia oferece um espaço seguro para olhar de frente para essas perdas invisíveis, compreender o seu significado e integrá-las sem ficar aprisionado a elas. Ajuda-nos a reconhecer os caminhos que não percorremos, sem transformar essa consciência numa condenação. Permite-nos construir uma narrativa mais ampla, mais compassiva e mais realista sobre quem somos.

Porque, no final, a saúde psicológica não consiste em não ter arrependimentos. Consiste em conseguir viver em paz com o facto de que nenhuma vida pode conter todas as vidas.

E talvez crescer seja precisamente isto: deixar de perguntar quem poderíamos ter sido e começar, finalmente, a perguntar quem escolhemos ser agora.

Com tudo o que ganhámos. Com tudo o que perdemos. Com tudo o que, inevitavelmente, ficou por viver.


Sara Ferreira

Email: apsicologasara@gmail.com

Site: www.apsicologasara.com

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