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Autismo: compreender para incluir, incluir para transformar

Hoje, fala-se mais de autismo. Multiplicam-se campanhas, discursos e gestos simbólicos que procuram dar visibilidade ao autismo. Monumentos iluminam-se, partilhas crescem nas redes sociais e as intenções parecem, à primeira vista, alinhadas com uma causa maior. Mas, para além da estética e do simbolismo, impõe-se uma pergunta essencial: estaremos, verdadeiramente, a compreender o autismo ou apenas a reconhecê-lo de forma superficial?

O autismo não é uma doença, nem um estado transitório. É uma condição do neurodesenvolvimento, que acompanha a pessoa ao longo de toda a vida e que se manifesta de formas profundamente diversas. Falar em espectro é reconhecer a multiplicidade de experiências, de formas de comunicação, de perceções sensoriais e de modos de relação com o mundo. Não existem dois percursos iguais, e é, precisamente, nessa singularidade que reside a necessidade de um olhar mais atento, mais informado e mais humano. As estimativas internacionais apontam para cerca de uma em cada 100 crianças no espectro do autismo, um número que tem vindo a aumentar – não, necessariamente, por maior incidência, mas por maior capacidade de identificação e diagnóstico. Ainda assim, em muitos contextos, incluindo Portugal, persistem desafios significativos ao nível do diagnóstico precoce e do acesso a respostas adequadas. As listas de espera, a escassez de recursos especializados e as desigualdades territoriais continuam a comprometer o direito a uma intervenção atempada. Esta realidade exige mais do que consciência; exige compromisso político, social e institucional.

Importa, também, trazer para o centro da discussão uma dimensão durante demasiado tempo negligenciada: as diferenças na forma como o autismo se manifesta no masculino e no feminino. Muitas meninas e mulheres crescem sem diagnóstico, desenvolvendo estratégias subtis de camuflagem social, que lhes permitem “encaixar”, mas que, frequentemente, ocultam um esforço interno intenso. Esta invisibilidade tem um custo emocional elevado, muitas vezes, traduzido em ansiedade, exaustão e sentimento de inadequação. Reconhecer estas diferenças é essencial para promover avaliações mais justas, sensíveis e ajustadas à diversidade das expressões do autismo.

Diagnosticar não é rotular. É compreender. E compreender, neste contexto, é abrir portas ao apoio, à intervenção, à validação. A intervenção precoce é amplamente reconhecida como um dos pilares mais transformadores, permitindo potenciar competências, promover a autonomia e apoiar o desenvolvimento de formas de comunicação e interação mais eficazes. No entanto, a intervenção não se esgota na infância…

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