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Cancro do pulmão: o inimigo silencioso que (ainda) temos de enfrentar

Artigo de Opinião de Daniela Madama, Pneumologista dedicada à área de Oncologia Pneumológica da ULS Coimbra, Membro da comissão científica do Grupo de Estudos de Cancro do Pulmão (GECP) e Coordenadora da Comissão de Pneumologia Oncológica da Sociedade Portuguesa de Pneumologia (SPP)

“Cancro.”

Uma palavra que ainda hoje nos assusta. Seja como mães, filhas, amigas, profissionais ou simplesmente como pessoas — este diagnóstico mexe connosco. É uma daquelas palavras que, só de ouvir, nos aperta o coração. E sim, em pleno século XXI, continuamos a ter medo. Mas também temos esperança e cada vez mais ferramentas para agir.

A verdade é que, apesar de todos os avanços da medicina, o cancro do pulmão continua a ser o tipo de cancro mais mortal em Portugal… e no mundo. Em 2022, estimavam-se mais de 6.000 novos casos no nosso país. E em 2023, a mortalidade atingiu um pico, com pelo menos 4.490 vidas perdidas — o número mais elevado desde 2002.

Segundo dados do Global Cancer Observatory, este é o quarto cancro mais diagnosticado em Portugal, representando cerca de 9% de todos os casos. Embora o tabaco continue a ser o principal fator de risco, estima-se que 15% dos homens e surpreendentes 53% das mulheres com cancro do pulmão nunca tenham fumado.

Mas por que razão as mulheres estão mais vulneráveis? As mulheres parecem ser mais sensíveis aos efeitos do tabaco, mesmo quando fumam menos. E os números assustam: nos últimos 40 anos, os diagnósticos aumentaram 84% nas mulheres… enquanto diminuíram 36% nos homens. Em 2020, 13 mulheres morriam todos os dias em Portugal devido a esta doença. Isso significa que o cancro do pulmão mata mais mulheres do que o da mama, útero e ovários juntos. Estudos sugerem que as hormonas femininas, como os estrogénios, podem ter um papel na forma como a doença evolui, o que ajuda a explicar esta tendência preocupante.

Mas há boas notícias também! As mulheres têm, em média, uma maior taxa de sobrevivência. Respondem melhor aos tratamentos, recuperam com mais facilidade após cirurgias, e apresentam uma melhor condição física no momento do diagnóstico. Ou seja: quando a doença é detetada a tempo, há esperança e há caminho.

O grande desafio? Diagnosticar cedo.

O problema é que o cancro do pulmão cresce de forma silenciosa. Muitas vezes, não dá sinais até ser tarde. Quando aparecem sintomas como tosse persistente, cansaço, dor ou sangue na expectoração, o tumor já pode ter avançado bastante, e isso reduz drasticamente as opções de tratamento. Se for diagnosticado no início e estiver localizado, a sobrevivência aos 5 anos pode rondar os 50%. Mas se só for descoberto em estadio avançado (como acontece em mais de 70% dos casos), essa taxa pode cair para apenas 5%.

A medicina está constantemente a mudar e a evoluir, e com ela a esperança também!

Durante muitos anos, os tratamentos eram sobretudo baseados em quimioterapia, radioterapia ou cirurgia. Mas a ciência evoluiu — e com ela surgiram novas terapias mais precisas e personalizadas. A imunoterapia, por exemplo, está a transformar os prognósticos de muitos doentes, e a dar-lhes uma qualidade de vida que antes era impensável.

O que podemos fazer?

Dias como o 1 de agosto ainda são essenciais, para nos relembrar a importância do diagnóstico precoce. O Dia Mundial do Cancro do Pulmão foi criado em 1 de agosto de 2012, por iniciativa da Forum of International Respiratory Societies (FIRS), em conjunto com a International Association for the Study of Lung Cancer e o American College of Chest Physicians. Desde então tem tentado aumentar a consciencialização sobre o cancro do pulmão e os seus fatores de risco principais, como o tabagismo, poluição e exposição a radão ou asbestos; promover o diagnóstico precoce, pois detetar a doença em fases iniciais aumenta significativamente a sobrevivência; combater o estigma, incentivando que pessoas afetadas procurem ajuda; fomentar políticas de saúde e investigação na área… Mais do que uma data no calendário, o 1 de agosto é um convite à consciencialização e ao cuidado com o nosso corpo. É um lembrete de que ouvir os sinais, fazer exames, perguntar, prevenir… pode mudar tudo.

A informação é assim o primeiro passo. O segundo? Estar atentas. O cancro do pulmão não escolhe género, idade ou estilo de vida. Mas quanto mais cedo o enfrentarmos, maior é a nossa força. Afinal, quando a ciência avança, a esperança renasce. E quando nos informamos, cuidamos melhor de nós.

Daniela Madama

 

 

 

 

 

 

 

  MD PhD

Pneumologista dedicada à área de Oncologia Pneumológica da ULS Coimbra

Membro da comissão científica do Grupo de Estudos de Cancro do Pulmão (GECP)

Coordenadora da Comissão de Pneumologia Oncológica da Sociedade Portuguesa de Pneumologia (SPP)

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